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Engenheiro
Naval, escritor e editor. Tem cerca de uma vintena de contos
publicados em várias coletâneas nacionais. É autor dos
romances ainda inéditos: "Amazônia, meu amor", um thriller
sobre uma hipotética (?) invasão da Amazônia e do romance
policial " Sabotagem Automobilística" tendo como pano de fundo
a globalização. Escreve atualmente seu terceiro romance "A
conspiração do Terceiro Milênio" e o roteiro para HQ "O grande
porrete" sobre a equivocada política dos EUA na era
Bush.
O Horóscopo de Guilhermino Pancrácio
©
ESCORPIÃO : 23/10 A
21/11
"Esse dia vai ajudá-lo a levar a bom termo uma
negociação. Boas surpresas
financeiras".
Guilhermino saiu de casa sorridente. Afinal,
Cesarina havia concordado: ele podia comprar um papagaio! Um
psitacídeo! - lera no dicionário. Lembrava-se até do
verbete:
"Nome genérico das aves psitaciformes. Numerosos
na Oceania e América tropical, têm plumagem de cores vivas,
predominando o verde. Patas adaptadas para segurar-se nos
galhos e apanhar alimentos, bico recurvado e grosso. Seu
aparelho fonador permite-lhe representar sons diversos
incluindo a voz humana".
Um papagaio ! - desde pequeno quisera ter
um.
Chegou à loja confiante mas, mal relanceou os
olhos ao redor, tornou-se macambúzio. Haviam levado o
papagaio, aquele que tinha belas penas amarelas logo acima das
patas.
Respondendo à sua pergunta o balconista informou
que só tinha um exemplar, apontando para um papagaio
mal-ajambrado que parecia ter uma perna mais comprida do que a
outra. Tanto elogiou o balconista as qualidades de Archimedes
- com ch - tanto Guilhermino queria um papagaio que acabou
comprando aquele mesmo, pagando duzentos cruzeiros a mais do
que o preço daquele que tinha as patas
amarelas.
- O senhor sabe ...é o último. Para renovar o
estoque só no mês que vem.
Mas esses pequenos contratempos não iriam abalar
a alegria de Guilhermino, não!
Tomou o ônibus "Bairro do Limão" que o
deixaria bem na esquina de sua casa. Archimedes, agarradinho a
seu poleiro - oferta da casa - olhava meio enviesado para os
passageiros, ora assustando-se, ora assustando-os com berros
estridentes. Guilhermino, sem jeito, ria amarelo, como a pedir
desculpas pelo incômodo causado pelo companheiro. Embora os
passageiros demonstrassem desprezo e rancor, a viagem
transcorreu calmamente durante os primeiros dez minutos. Até o
momentoem que
Archimedes fez. Sim...isso mesmo! Fez
aquilo!
A nódoa branco-acinzentada caiu sobre o vestido
preto de uma gordíssima senhora, a qual, aos berros, atirou-se
para trás enojada, caindo no colo de um vendedor de bilhetes
de loteria. O berreiro generalizou-se e gritos de "mata",
"enforca", "esfola o papagaio" começaram a deixar Guilhermino
preocupado. Um senhor de meia idade, careca, aproximou-se de
Archimedes a fim de examiná-lo melhor. O papagaio não gostou
das "liberdades" do homem e sapecou-lhe violenta bicada na
reluzente cabeça.
O homem careca, furioso, procurou agredir
Guilhermino - "uma calamidade pública que andava à solta"- o
qual, mais do que depressa procurou escapulir para a frente do
ônibus, pisando calos e canelas.
Nesse ínterim, o motorista que, embora
dirigindo, procurava acompanhar a confusão dentro do seu
coletivo, recebeu Archimedes em pleno rosto, com poleiro e
tudo, pois Guilhermino tropeçara na perna de uma senhora com
gota que mantinha a mesma esticada no corredor devido ao
mal-estar que lhe causava mantê-la apertada entre os
bancos.
Papagaio na cara, berro de mulher com gota,
Archimedes rolando pela escadinha da frente, fizeram com que o
motorista perdesse o controle do veículo e investisse contra
três carros encostados no meio-fio e batesse em cheio no poste
da esquina.
Confusão total. Gritos, choros, berros. A
polícia levou todos para o hospital mais próximo e, depois de
medicados, submeteu todos a horas e horas de interrogatórios,
acusações, dedos em riste apontados incriminadoramente para
Guilhermino e Archimedes. Conclusão:
1.curativos em ferimentos generalizados Cr$
1500,00
2.curativo de bicada de papagaio Cr$
500,00
3.vestido novo para Da.Gonçala Cr$
500,00
4.perda de 50 bilhetes de loteria(extraviados)
Cr$ 500,00
5.curativo no calo do Sr.Genaro Cr$
50,00
6.novo enfaixamento na perna de Da.Maricota Cr$
200,00
7.conserto de três carros(funilaria e pintura)
Cr$ 4000,00
8.oito sessões de psicanálise para o
motorista Cr$ 700,00
Enfim, por um total de Cr$ 7950,00 as vítimas
solidarizaram-se com Guilhermino e retiraram todas as queixas.
Alguns até endereçaram gracejos a Archimedes que, pacato,
apreciava a cena. Quando Guilhermino desculpava-se pela
trigésima vez com o Delegado e estava para se retirar apareceu
o homem da Light:
-
É aqui que se encontra aquele vândalo, destruidor da
propriedade alheia? - perguntou ao Delegado. - Ele vai ter de
pagar por um poste novo!
"Você terá uma boa resistência nervosa e sua
necessidade de sono diminuirá"
Guilhermino chegou em casa soltando fogo pelas
ventas, como diziam os mais velhos. Archimedes já vinha sendo
puxado pela corrente qual um saco de batatas. Entrou em casa
furioso e jogou o papagaio em cima do sofá com violência.
Cesarina, ao querer saber o que acontecera, recebeu um "cala a
boca" gritado tão alto que as crianças que jogavam bola em um
terreno baldio das proximidades pararam um instante procurando
detectar de onde viera o estrondo. Cesarina, chorando,
refugiou-se no quarto. Guilhermino olhou para o papagaio, o
qual havia subido na mesinha do centro, e deu-lhe um safanão
que o jogou do outro lado da sala. Aconteceu, porém , que o
vaso de cristal que Cesarina ganhara no dia do casamento foi
junto, espatifando-se em dezenas de pedaços. Subitamente
arrependido, Guilhermino procurou juntar os pedaços, mas, no
afã de realizar a tarefa antes que Cesarina aparecesse,
cortou-se no dedo indicador da mão direita. Praguejando
dirigiu-se ao banheiro mas, não percebendo o pufe que sua
mulher estivera limpando quando de sua chegada e que
abandonara na entrada do lavatório, tropeçou e foi bater a
cabeça na quina do batente da porta. Cesarina, curiosa com
tanto barulho, veio ver o que estava acontecendo. Ao ver
Guilhermino estatelado no chão, com a cabeça sangrando, correu
a chamar os vizinhos.
No
Pronto Socorro fizeram-lhe uns curativos e o médico de
plantão, chamando Cesarina de lado, explicou-lhe que
Guilhermino estava próximo de um colapso nervoso e
recomendou-lhe que evitasse qualquer coisa que o contrariasse.
De volta à casa, Cesarina cercou de cuidados seu marido e o
pôs para dormir. Archimedes, contudo, encostado a um canto,
todo encolhido, lamuriava-se em sons estridentes, o que fazia
Guilhermino acordar a toda hora. Não havia jeito de o papagaio
parar com o barulho, Quanto muito Guilhermino dormiu três das
oito horas necessárias.
"Graças a Vênus em trígono, bela satisfação de
amor próprio a esperar".
Archimedes tornara-se o pomo da discórdia. Em um
primeiro arremedo Guilhermino quis se livrar de tão aziago
papagaio mas, como Cesarina começasse uma arenga sobre o
porquê é que ela não queria bicho em casa, ele resolveu manter
Archimedes lá, na marra. Guilhermino não andava bem
fisicamente. Emocionalmente, as constantes altercações com
Cesarina deixavam-no arrasado. Seu rendimento no serviço era
quase nulo. Agradeceu de todo o coração quando o "seu" Miguel
mandou-o para casa descansar. Porém, quando está chegando em
casa o que vê? Moreira.....seu amigo Moreira, saindo pela
porta lateral!
Entrou possesso em casa e encontrou
Cesarina tomando banho e cantando o "Il sole mio". A cama
desarrumada. Arrancou-a nua e molhada do chuveiro e deu-lhe
uma surra de cinta que marcou de vermelho suas costa e nádegas
brancas. Com os gritos, a vizinhança aproximou-se, tentando
olhar pelas janelas. Guilhermino abriu a porta da rua e
gritou, lágrimas rolando: - Vão todos à puta que os pariu,
seus filhos da puta! - Bateu a porta com estrondo, o que
bastou para que os vizinhos se recolhessem às suas casas,
assustados. Cesarina trancara-se no quarto e Guilhermino
atirou-se no sofá, chorando toda a amargura do corno
consciente. Archimedes, empoleirado na estante de livros,
olhava aparvalhado, levemente inclinado para a
direita.
"Amigos e conhecidos procurarão fazer-lhe uma
surpresa"
Sábado era dia do aniversário de
Guilhermino. Seus amigos, sabedores de gosto que ele tinha por
papagaios, acabaram por trazer-lhe três de uma só vez, fruto
da imprevidência, pois não haviam se comunicado antes, a fim
de evitar tal espécie de coisa. Outros dois, que não tinham
encontrado papagaios trouxeram periquitos e um outro acabou
trazendo uma arara. Quando Guilhermino começou a urrar e
arrancar os cabelos, seus amigos ficaram paralisados de susto.
Felizmente, quando ele subiu ao telhado para de lá atirar-se
ao chão, dois companheiros dos velhos tempos conseguiram
impedir tamanho desatino.
A grande mesa oval de mogno tinha quinze lugares
bem marcados com blocos de notas e lápis apontado. Max entrou
na sala, àquela altura ainda vazia, para fazer a última
inspeção e fez um sinal com a cabeça, aprovando a ordem e a
limpeza do local. Foi até a porta principal, abriu-a e fez um
amplo gesto para os conselheiros que esperavam pela reunião do
Conselho de Administração.
Soraia, a única mulher, foi uma das últimas a
entrar. Todos sabiam da particular guerra que Max travava para
tirar Soraia do Conselho, pois ele julgava que sua presença
não passava de um capricho de Gruber, o detentor da maioria
das ações da empresa. Todos os conselheiros também se
divertiam com as piadinhas maliciosas sobre a vida sexual do
velho Gruber - a maior parte delas inventadas por Max -
reservando nelas lugar especial para Soraia, uma bonita morena
de trinta e cinco anos.
Soraia sentou-se no lugar que lhe fora reservado
e aguardou Max iniciar a reunião, depois dos rapapés
costumeiros trocados entre os
membros.
- Senhores... - disse Max, olhando ao redor -
dou por iniciados os trabalhos.
Todos perceberam claramente a exclusão
proposital de Soraia. Risos abafados espalharam-se pela sala.
- Quem quiser fazer uso da palavra esteja à
vontade - disse Max, usando uma fórmula que não deixava muito
tempo para os membros usarem da palavra depois, na hora da
votação dos assuntos de
relevância.
- Eu tenho um assunto para tratar - disse
Soraia.
Todos voltaram-se para ela, depois para Max. O
Presidente do Conselho ostentava um riso
irônico.
- Por que não, minha cara Soraia? Por que
não?
Soraia tirou de dentro de sua pasta de couro um
maço de cópias de sua proposta, que ela passou em dois blocos
para distribuição, um para cada lado. Max recebeu a folha e,
imediatamente, desatou a rir
alto.
- Ouçam isso, senhores! Ouçam isso: "Proposta
para uma mudança na estratégia da Empresa". Mas que pomposo! -
disse sarcástico. - Como se precisássemos de uma nova
estratégia, Conselheira Soraia!
Todos riram com os trejeitos debochados de
Max.
- Eu acho que precisamos sim, e é isso que quero
explicar, tendo em vista o avanço dos concorrentes em mercados
que são tradicionalmente nossos.
- A Senhorita acha que vamos perder tempo com
esse tipo de baboseira, hem? Eu pergunto aos senhores - disse
olhando cerradamente para os conselheiros - quem vota em um
absurdo desses? Quem concordar com essa tolice que levante a
mão!
Os conselheiros procuravam evitar os olhares de
súplica de Soraia. Um dos conselheiros chegou a tentar uma
solução de compromisso, sem ir contra
Max.
- Mas Max, talvez possamos dar a ela dez
minutos...
- Lemos! - cortou Max. - Se você quiser votar
que levante a mão! Você quer? - o tom agressivo fez Lemos
calar-se.
- Zero votos a favor, senhorita Soraia - disse
Max, cínico.
Soraia reuniu suas coisas e saiu chorando, não
sem ouvir a frase de escárnio de
Max:
- Lugar de mulher não é aqui, senhorita, no meio
de homens de negócios!
Soraia fechou-se em si mesma nos dias seguintes,
irritada com a pouca combatividade oferecida ao machismo de
Max.
Max gostava da noite e vivia contando suas
bravatas aos companheiros. Naquele fim de semana, na boate,
uma loira marcou-o sem trégua e ele, lisonjeado com o
interesse da moça, passou a maior parte do tempo com ela. Saiu
da boate acompanhando-a por volta das duas da manhã, levou-a
para o hotel que ela indicara e subiu até o apartamento.
Enquanto a esperava sair da toalete foi surpreendido por três
homens que o agarraram e o
imobilizaram.
- Que é que vocês querem? - perguntou com
dificuldade, devido a mordaça que lhe tinham colocado. - Podem
pegar todo o dinheiro!
- Não é só o seu dinheiro que
queremos!
Um lenço com éter foi apertado sobre sua boca e
narinas e Max perdeu os sentidos.
- O que houve com Max? - perguntou um dos
conselheiros. - Faz cinco semanas que ele não aparece nem dá
notícias. Você sabe alguma coisa dele?
A pergunta era dirigida a Soraia, que acabara de
abrir a reunião do Conselho de
Administração.
- Não se preocupem! - disse Soraia, confiante. -
Max virá daqui a poucos minutos. Os conselheiros
entreolharam-se em
dúvida. Era
muito estranho Max ter sumido e ninguém saber do paradeiro
dele. Entretanto, como dissera Soraia, Max, um pouco abatido,
entrou na sala dez minutos depois. Àqueles que o bombardeavam
com perguntas fez apenas gestos para que se sentassem e que se
continuasse a reunião.
Soraia olhou atrevidamente para Max e
disse:
- Max, eu estava começando a tratar da nossa
nova estratégia, mas todos querem ouvir alguma coisa de você.
É melhor que você fale antes de
começarmos.
Max parecia prestes a um ataque de
nervos.
- Eu não quero falar nada! - disse Max, com uma
voz fina irreconhecível.
O espanto foi geral e seus olhos umedeceram-se.
Vendo que todos o olhavam, disse em sua nova voz de
castrado:
- Eu já disse que não quero falar
nada!
E assim continuou calado em todas as demais
reuniões, temeroso de tornar-se alvo do riso, da chacota e do
sarcasmo dos confrades. Ademais, ouvia a voz melíflua,
onipresente do seu
psicoterapeuta:
-
Então você não percebe que é tudo Freud? A inveja do pênis?
Você mexeu com forças ancestrais, meu amigo, forças
ancestrais!
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