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Katiane Soares Verazani

Barueri - SP

A rua de meus sonhos

 

       Vinha eu caminhando tranqüilamente, envolto por uma névoa espessa, de tal forma que me cegava. Mesmo assim insisti, e prossegui minha caminhada. A medida em que andava, a neblina ia se dissipando, e logo tornou-se tão amena que foi possível enxergar quase perfeitamente através dela.

       De onde estava, observei várias cenas: de minha infância, de minha mocidade, enfim, vi toda minha vida, sem poder, contudo, interferir naquilo que via.

       Lá estava na rua em que cresci, exatamente como era na minha infância, com suas casas novas, recém pintadas, naquele colorido que fazia desta rua a mais bela de todo o mundo, pelo menos era esta minha sensação. Cada casa tinha seu jardim, com as mais diversas plantas. Na casa onde eu morava com meus pais se destacavam a variedade de roseiras; na casa de vovó, eram as margaridas; e na casa do Seu Pedro, um senhor que vivia ali sozinho a muitos anos após a morte de sua esposa, Dona Lindalva, eram os girassóis. Ah! Como eu adoro girassóis, sua grandiosidade, seu movimento, sua paixão cega pelo astro rei.

       Como sempre a rua estava repleta de crianças, que corriam para todos os lados, brincando de esconde-esconde, de bola, de cabra-cega, de bolinha de gude, de passa-anel, de pular corda, enfim, de todas aquelas coisas que só as crianças são capazes de fazer sem se preocupar com o mundo ao seu redor, suas vidas são brincar, brincar e brincar. No meio dessa algazarra que faziam, havia um pequeno grupo, sentado em uma das calçadas, debaixo de uma grande árvore, e me aproximei para ver o que faziam. Me vi ali, no meio daqueles meninos e meninas, ainda criança, com seis ou sete anos de idade, a contar e a inventar histórias com tal habilidade e geniosidade, que conseguia prender a atenção de todos, e com a qual fiquei impressionado. Não me lembrava mais disso, não lembrava de ter sido em algum momento de minha vida capaz de criar com tanta destreza. Tivesse me lembrado disso antes, quem sabe meu destino tivesse sido outro?!

       De repente ouvi um barulho, virei meu rosto para ver o que se passava, e quando me voltei para aquela rodinha, tudo a minha volta havia mudado. A pintura das casas haviam envelhecido um pouco, e não haviam mais crianças a correr e a brincar pela rua, se viam agora jovens casais de namorados. Alguns sentados nas calçadas, outros conversando recostados aos portões, e ainda outros recostados em árvores, mas todos com o mesmo brilho no olhar, com o mesmo sorriso nos lábios, provocados por aquela pequena entidade mitológica grega, filho de Afrodite, muito do sem vergonha que sai por aí dando flechadas, permitindo a estes jovens casais sentir pela primeira vez o sabor doce do amor. A um canto, recostado a uma árvore estava eu com uma garotinha. Ah! Sim! Agora me lembro! Minha primeira namoradinha do colégio. Não! Namoradinha não! Minha primeira namorada! Como tinha orgulho em dizer que tinha uma namorada. Me sentia como um homem feito, barbado, pronto para o mundo. Pude naquele instante rever meu primeiro beijo. Nem dormi direito aquela noite..., sentindo o calor dos lábios daquela que foi meu primeiro amor.

       Enquanto relembrava e me emocionava, tudo a minha volta se alterou, e da primavera que se passava, não haviam mais vestígios, estávamos agora em pleno verão.

       Lá no início da rua despontava um carro novo em folha, conversível e todo equipado, com jovens, que gritavam e riam escandalosamente, convidando à rua todos para comemorarem com eles aquela grande alegria. Dona Lurdes e Dona Josefa, irmãs, extremamente religiosas, e que moravam logo no começo da rua, fecharam logo as janelas escandalizadas. Mas toda aquela euforia não seria abalada por tão pouco, continuavam buzinando, assobiando, gritando apaixonadamente, com suas cabeças raspadas, com as “caras-pintadas” de batom e caneta. Então pude rever em meu rosto jovem, bem no meio de minha testa, escrito a batom vermelho, aquelas três siglas maravilhosas: “USP”. Ah! Meu Deus! Que festa aquela! Que sensação maravilhosa! À muito tempo não sentia isso... . Havia conseguido realizar o maior desejo de minha vida até aquele dia, seria um engenheiro renomado, construiria pontes, túneis, viadutos, poderia auxiliar bons administradores a levarem a tecnologia aos mais remotos cantos do Brasil. Como é bom ser jovem, tanta esperanças e tantos sonhos!

       Ouvi um barulho de latas se chocando, virei-me, e lá estava eu, saindo do carro a carregar minha noiva vestida de branco, para nossa casa, a mais nova, e a mais bela da rua. A casa era toda azul, com detalhes em branco, como tanto havíamos sonhado, acreditávamos, empolgados pelo sentimento que nos envolvia, que trazendo a cor do céu para nosso lar poderíamos viver nosso paraíso. Não é difícil imaginar quais flores escolhemos para completar nosso céu: de um lado os girassóis, os quais conseguimos pedindo algumas mudas para o Seu Pedro, representando o sol de nossos dias; do outro as margaridas de minha avó, representando as estrelas de nossas noites apaixonadas.

       Não havia sequer dois segundo que a porta havia se fechado, após nossa entrada triunfal, e a vi se abrir novamente, e uma criança sair de lá de dentro correndo em direção ao jardim, e eu logo atrás a brincar com ela. Recostada a porta estava minha esposa, a mulher da minha vida, sem quase agüentar o peso de sua barriga de oito para nove meses de nosso segundo filho. Apesar do peso sorria. Um sorriso tão belo que não pude me conter, peguei meu filhinho no colo, me aproximei dela e a beijei, ficando nós três, ou melhor, nós quatro num abraço abençoado pelos céus. A sensação era tão intensa e boa que desejei nunca mais sair dali, desejei ser capaz de controlar aquela sensação para mantê-la sempre pulsando dentro de mim.

       De repente toda a paisagem escureceu, um vento gelado assobiava a minha volta. Virei para ver o que ocorria, e avistei uma marcha fúnebre aproximando-se lentamente. Vi minha adorada esposa vestida de luto a chorar convulsivamente, com meus filhos adolescentes, a chorar agarrados a ela. Muitos eram aqueles que seguiam o cortejo, reconheci em muitos daqueles rostos, pessoas com as quais convivi por muito tempo. Comecei a ficar agoniado, diversas eram as coisas que passavam em minha cabeça naquele momento, mas eu não queria acreditar em nenhuma delas, poderia ser mamãe ali dentro, meu pai, vovó, ou quem sabe um filho meu... . Mas, onde eu estava? Não me reconhecia ali entre os presentes. Onde eu estava? O que estava acontecendo? A marcha se aproximou e pude ver, ou melhor, pude me ver ali, dentro daquele caixão. Estava morto!

       Senti naquele momento como se eu tivesse cometido um crime, ou tivesse violado algo sagrado, algo que não me era permitido. Senti uma força descomunal me puxar, com tal brutalidade que não pude reagir. Era como se houvessem apertado a tecla “RENN” de um videocassete, e tudo fosse regredindo rapidamente. Aquela névoa inicial voltou a envolver-me, e não pude ver mais nada.

       Acordei, todo suado, com sacudidelas de minha mãe apavorada, por eu ter tido, segundo ela, um pesadelo, pois estava a gritar e a me contorcer de tal forma, e com tal violência, parecendo-lhe que nunca mais eu iria acordar daquele sonho.

 

*

 

Dezesseis

-  -  Quem não nasceu?

-  -  Eu.

-  -  Por que?

-  -  Um aborto!

-  -  Por que?

-  -  Medo, desespero, culpa, solidão.

-  -  Não houve escolha?

-  -  Não para mim.

-  -  Sua mãe?

-  -  Só me lembro da angústia.

-  -  Seu pai?

-  -  Ela quase nunca falava dele.

-  -  Onde aconteceu?

-  -  Num lugar estranho, frio e sujo.

-  -  O que você sentiu?

-  -  Medo, dor e uma pressão enorme.

-  -  O que sua mãe sentiu?

-  -  Mamãe também sofreu e não havia ninguém para ajudá-la.

-  -  Como ela está agora?

-  -  Não sei, ela também morreu.

-  -  Quantos meses você tinha?

-  -  Cinco.

-  -  E sua mãe quantos anos?

-  -  Dezesseis.

 

*

 

Katiane Soares Verazani

 

 

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