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Nadyr Alves da Silva Bedin

 

 

 

A descoberta do amor na ilha dos inocentes

 

— Tio Breno, tio Breno, venha ver, depressa!

Era Beto que gritava, entrando pelo jardim. Sua voz era assustada e surpresa.

  Estávamos na biblioteca, tio Breno, Maggie, Clô, Julinha e eu. Quando acorremos ao chamado de Beto, vimos que os outros guris já estavam reunidos, cada qual falando mais alto que o outro. Assim  que chegamos e tio Breno pigarreou, calaram-se tão ao mesmo tempo, como o faziam falando à pouco. Num tom grave e seco,  ele mandou que entrássemos. Ficamos parados, ainda tomados pela surpresa. Tio Breno falou bem alto, ríspido, quase gritando:

— Para dentro, já disse! — Saímos bem depressa, não sem antes olhar para ele, assustados.  — Madalena! Otávio! Vão já para dentro e levem os garotos para o pomar! Não quero ninguém aqui, enquanto não os chamar!

— Sim , seo Breno, — disse Otávio, mas desde que vem vindo gente, o senhor não acha....

  — Eu já disse que vá para dentro! Obedeça às minha ordens! — disse, raivoso, tio Breno,

  — É estranho! — disse eu — eu nunca vi tio Breno desse jeito. Ele nunca perdeu a calma!

  — Ah! Você já tá pondo minhoca na cabeça! Só pruque chegou um istranho?                              

— Não, Madalena, eu não creio que esse homem seja um desconhecido para tio Breno. Nem, tampouco, deve ser um amigo. Ninguém fica apavorado quando vê um amigo.

  Conversávamos enquanto caminhávamos para o pomar. Os garotos já estavam lá, sentados, juntos, calados, olhos arregalados, embaixo de uma das mangueiras. Percebi o que sentiam e falei.

  — Já que vocês não querem brincar de correr, que estão cansados, vou sentar-me aqui e

 contar-lhes uma linda história. Prestem atenção, que vou falar um pouco sobre Anhangá.

  — Quem é Inhanhangá?

  — Não é Inhanhangá, Luizinha! – disse-lhe eu, rindo. Luizinha era uma pequerrucha de menos de três anos, moreninha, de cabelos muito crespos, quase pixaim.                                          — Luizinha, fale comigo, vamos! A- nhan- gá! -  vamos, força! Outra vez – A-nhan-gá! Ela tentava falar, mas, cada vez se enroscava mais. Todos riram da sua confusão e ela também riu.  — Laura, então conta logo!

  — Está bem Quico, vou contar. Anhangá é um lindo e corajoso veado, protetor dos animais do campo. É todo branco e olhos de fogo. Os caçadores muito o temem. Dizem que quando está com sua cria é muito perigoso.

  Eu tentava prender a atenção das crianças, mas, com exceção das três primeiras, seus olhos corriam de mim para o portão do pomar e vice-versa. Ficaram ainda mais excitadas quando demos por falta de Otávio e Beto.

  — Onde eles foram, Madalena? – perguntei.

  — Otávio foi ponhá milho pros porcos e Beto eu num sei não, Laura.                                              

— Vou ver se Beto foi cometer alguma tolice. E você, Madalena, trate de olhar bem as crianças, porque, se Beto foi até lá, você será a responsável perante tio Breno.

  Saí correndo, pensando já as piores coisas. Não queria crer que Beto tivesse tido a coragem de ir até lá dentro. Com muito medo, arrisquei-me a entrar na casa. Entrei pela cozinha, com todo o cuidado, atravessei as salas de jantar e de visitas e fui até o vestíbulo. Divisei a biblioteca, no fim do corredor, mas Beto não estava lá. Voltei pelo mesmo caminho, cheguei no quintal e dei a volta á casa pelo lado direito. Ia passando embaixo da janela da biblioteca, quando ouvi um sussurro. Olhei para os lados e, divisando uma touceira de guaimbê que enfeitava o jardim ao lado da casa, bem na direção da janela da biblioteca, corri para lá, certa de que encontraria Beto. Falhei. Fiquei brava e cheguei a maldizer a hora que tinha saído para procurá-lo. Ia deixar o meu esconderijo, quando o divisei, no alto de uma seringueira, bem oculto entre as folhas. Temerosa, comecei a fazer-lhe sinais para que descesse, mostrando-lhe a janela e dizendo que  alguém poderia vê-lo. Ao fazer-lhe sinais, eu é que quase fui descoberta quando tio Breno apareceu, de repente, á janela. Meu coração parecia querer arrebentar-me o peito tamanha a fúria com que batia. Abaixei-me e fiquei quieta, imóvel, paralisada. Tentei imaginar como estaria Beto em seu esconderijo. Eu sabia estar bem protegida, mas, não tinha a mesma certeza quanto a ele. Permaneci encolhida durante uns dez minutos e permaneceria assim até á noite, tamanho era o medo que me assaltava. Não foi preciso, porém, pois ao final desse tempo, ouvi que Beto me chamava, deduzindo que já não havia ninguém na janela. Levantei-me e, com gestos, ordenei, quase em pânico, que ele descesse. Creio que deveria estar com a fisionomia feroz, pois, ele obedeceu-me na hora. Desceu e correu para o outro lado da casa. Quando me preparava para correr, também, ouvi a voz de tio Breno, muito alterada, que voltava á janela. Abaixei-me novamente, mas, desta vez, em melhor posição. Ele estava com o rosto pálido e sombrio, as mãos apoiadas ao parapeito da janela. Só então, reparei direito nele. Talvez por causa dos acontecimentos novos e apuros pelos quais estava passando, senti haver despertado em mim uma série de sentimentos nunca antes experimentados: capacidade de observação, senso de responsabilidade, de auto-crítica e algo mais que eu não sabia definir. Eu sabia, eu sentia que tio Breno estava sofrendo muito. Sua camisa esporte, de um azul muito claro,  escondia um peito muito largo e forte. Ombros largos e pescoço grosso, sustentavam um rosto másculo, com olhos pretos e profundos, nariz um tanto comprido e boca de lábios finos e muito bem feita. Cabelos bem pretos e têmporas já meio grisalhas, não eram nem lisos nem crespos. Era um homem bonito, queimado pelo sol, muito trabalhador e, acima de tudo, muito bom e generoso. Eu sentia que, se até agora eu vivera como criança, deixando a vida correr, sem problemas e preocupações, sem procurar analisar o sentido da vida, agora eu crescera de repente. Sentia algo novo dentro de mim, que eu não sabia bem o que era, mas que mudaria, por completo a minha vida. Eu tinha quinze anos e, se até então eu vivera junto com as crianças, sentindo-me também criança, agora eu já não sabia bem o que era.  O que eu sabia com clareza, é que aquele estranho chegara para mudar a vida na ilha. Não sei se por uma benção ou uma praga. Só sei  que sinto saudades de lá e daquele tempo.

  — Você não pode fazer isso!

  Era a voz de tio Breno, muito nervoso. O homem, lá dentro, dizia coisas que não chegavam até mim.

  — Você é um canalha, sempre foi! É tudo mentira! Por que não procura o João cozinheiro, ele sabe de tudo!

  Eu continuava a ouvir a voz de tio Breno. Oh! Eu daria tudo para poder sair dali, mas ele não saía da janela! O homem falava qualquer coisa e tio Breno replicava.

  — Eu já disse que não fugi, apenas não queria continuar lá!

  — Não tenho culpa se fizeram canalhice  comigo!

  — Eu não me ocultei aqui na ilha! Eu apenas quis viver isolado para fazer o bem. Estava cansado de sofrer. Aqui eu sou feliz.

  Agora eu não tinha certeza de que queria sair. Talvez pudesse fazer alguma coisa para ajudá-lo. O estranho continuava a acusar tio Breno e ele se defendia.

  — Não admito que venha aqui fazer chantagem. Eu não tenho o que me pede.      — Ora, o Padre Tadeu... ele não tem nada a ver com isso!

  — É claro que eu vou lá de vez em quando, mas não é pelo que você está pensando!

  — O Capitão não estava no comando naquele dia!

  Quanto mais o homem falava, mais tio Breno ficava furioso. Seu rosto, que eu vira pálido quando assomara á janela, agora mudava de cor a todo instante. Já não agüentava meus nervos, mas não podia fazer nada para ajudar. Eles continuavam a discutir cada vez mais alto.

  — Toledo, quer um conselho? Vá embora daqui que é melhor para todos.                  

 Então, eu o vi chegar á janela e ouvi bem claro o que disse.

  — Só irei quando tiver o cofre nas mãos e eu o terei nem que tenha que matá-lo.

  — Ora, vá para o inferno! – gritou tio Breno, agarrando o homem pelo colarinho. Este deu-lhe um soco e eu ouvi o barulho de um corpo que caía ao chão. Assustei-me, dei um grito e caí também.

  — Laura, acalme-se, tudo está bem! Sou eu, tio Breno, acalme-se!

  — Hum! Onde estou? Meu sonho! Como dói minha cabeça! Tenho medo! Tio Breno, quem é esse homem?

  — Vamos, acalme-se e não chore, tudo já passou! Você desmaiou quando viu... Por que fez isso? – admoestou-me com bondade.

  — Por favor, não me censure...

  — Não vou faze-lo, não se assuste. Então, está melhor? – perguntou com calma.

  — Sim, estou bem, obrigada.

  — É, você não é nada bobo! — disse Toledo de forma desagradável — uma ilha deserta, sobrinhas mocinhas, e que mocinhas, hein?

  — Ora, cale-se — ordenou tio Breno – respeite ao menos esta criança!

  — Criança? – falou o homem, dando uma gargalhada – essa agora é muito boa!

  Tio Breno carregou-me em seus braços, levando-me para o meu quarto. Seu rosto estava vermelho, sua fisionomia dura e seus olhos tão frios que me assustou. Pôs-me na cama e caminhou para a janela. De lá avistava-se, muito bem o pomar. Gritou para Madalena, que acorreu solícita. Chegou-se para debaixo da janela e tio Breno lhe falou com dureza:

  — Diga a Otávio para ficar com as crianças e olhá-las muito bem. Ai dele se alguma  escapar e vier espionar, como esta aqui. E você, venha ficar com Laura.

  — Tio Breno... eu...quero...

  — Deite-se e repouse – disse– não vou chamar-lhe a atenção, não se assuste.

  Disse isso e saiu batendo a porta. Não pude explicar-lhe nada, dizer que eu não tivera culpa. Mergulhei meu rosto no travesseiro e chorei muito. Lágrimas amargas, de desconsolo, de desabafo, de revolta pela presença daquele homem que viera atrapalhar a nossa vida, de culpa por ter causado aborrecimento e decepção a tio Breno, a quem eu queria tanto. Lágrimas de tristeza e confusão por compreender que eu não era mais criança, que a vida não era feita só de bondade e que além daquelas água azuis, lá ao longe, na cidade, havia coisas que eu não conhecia e que me metiam medo. Senti-me  só,  perdida,  confusa. Madalena chegou muito assustada, querendo saber o que tinha acontecido. Não tive coragem de contar. Chorei muito tempo ainda, estirada na cama, sem coragem de me levantar. Madalena começou a contar-me uma história, como eu fazia com as crianças quando queria acalma-las. Pedi bruscamente, quase furiosa, que se calasse. Ela olhou-me assustada, confusa, sem entender nada, mas, nada falou. Era como se eu quisesse me vingar por causa do que eu sentia, tinha um desejo enorme de rebeldia, logo eu que sempre fora dócil e meiga. Estava perdida nessa minha nova condição e sem saber interpretar meus sentimentos. Estava sentindo pena de mim mesma. Pedi a Madalena que saísse, pois queria ficar sozinha. Fiquei deitada ainda algum tempo, tentando acalmar aqueles sentimentos que me deixavam apavorada. Levantei-me e fui até a janela. Vinham do pomar, os risos e gritos das crianças, brincando, quase esquecidas, do que haviam presenciado, sem preocupações, felizes. Só Beto, Clo e Julinha permaneciam sentadas ao lado de Otávio. Pensei que bom seria se eu lá estivesse, criança ainda, falando e rindo, subindo nas árvores e apanhando frutos para os mais novos. Pensei em Beto com doze anos, Clo e Julinha com dez. Logo estariam, como eu, sentindo tudo aquilo. Voltei para a cama e, incapaz de reagir como adulta, perdida nesse mundo novo, comecei a chorar novamente.

  As paredes do meu quarto já estavam se pintando de cinza pelas primeiras sombras da noite. Eu estava num estado de ainda meio torpor, quando bateram á porta. Percebi que a rebeldia continuava dentro de mim, pois, não respondi á batida. Ouvi, depois, a voz de Beto.

  — Laurinha, sou eu, o Beto, posso entrar?                    

  — Pode – respondi secamente. Afinal, não tinha sido ele, o causador de tudo?  Ele entrou e chegou perto da cama.

  — Laurinha – disse ele, tímido e com medo – a Madalena está chamando para o jantar.

  — Diga que não quero, não estou com fome.

— Está bem, eu digo.

  Ele ia saindo, meio sem jeito, querendo dizer alguma coisa, mas não teve coragem. Ficou parado junto á porta, de costa para mim, talvez esperando que eu dissesse alguma coisa. Não falei nada, levantei-me e fui até a janela. Então,  ganhando coragem, aproximou-se de mim, pegou-me pelo braço, fazendo me virar e disse, num tom triste:

  — Laurinha, perdoe-me. Eu desobedeci, mas queria muito saber o que estava acontecendo.

  — Perdoe-me! – o interrompi, furiosa, gritando com ele – como se isso bastasse para remediar todo o mal que você me fez! Não sei com quem você aprendeu a escutar atrás das portas.

  — Mas eu não estava atrás da porta! – disse ele, em sua inocência.

  — Ora, cale-se, seu moleque atrevido! Gostaria de fazer você passar por tudo o que eu estou passando, de mergulhar você na escuridão em que eu estou, de atirá-lo ao inferno, que o padre Tadeu nos ensinou a temer! Mas eu vou arrumar um meio de fazer tudo isso, você vai ver! Ele não disse nada. Seus olhos estavam arregalados,  querendo saltar da órbitas e o pavor que se estampava em seu rosto, me faz doer o coração até hoje. Havia aflição em sua voz quando ele disse afastando-se, de costas, com as mãos para trás, esperando encontrar a porta:

  — E..eu já vou! – gaguejou.

  Disse isso  e virou-se tão de repente que, se no chão houvesse poeira, ele a teria levantado. Fechada como estava, em mim mesma, na minha dor, não consegui raciocinar para sentir pena daquela criança. Andava de um lado para outro, arcada sob o peso dos meus nervos quando a porta abriu-se e uma luz fraca iluminou o quarto, já bem escuro:

  — Eu vim tlazê uma vela pala você! – era Luizinha, na inocência dos seus três anos.

  — E pra que é que você acha que eu quero uma vela? – perguntei-lhe sem paciência.

  — Porque você tava blava co Beto porque tava no esculo.

  Abrandei-me um pouco e disse-lhe:

  — Está bem, Luizinha, obrigada. Agora vá.

  — Eu num posso fica aqui?

  — Não, agora não, depois você fica, está bem?

  — Tá bom, tchau!

  Consegui conter-me diante daquela criança, graças a Deus, digo agora, pois, se lhe tivesse causado algum mal com fiz com Beto, morreria de remorsos. Mas, nem ela, em seu gesto inocente, conseguiu acalmar-me. Em outro momento, eu a teria tomado nos braços  riríamos muito e ela teria arrancado, a promessa de contar-lhe uma história bem comprida e bonita. Cheguei até a janela. Um vento leve tocava-me o rosto. As primeiras estrelas já apareciam, e eu tinha a impressão de que, piscando como estavam, elas estavam chorando comigo. A lua já se fazia anunciar, fazendo crer que teríamo uma noite maravilhosa de luar. A noite, com as sua sombras e mistérios, conseguira acalmar-me um pouco. Resolvera descer ao jardim, quando Madalena bateu á porta e pediu para entrar.

  — Entre- disse-lhe eu, sem muita vontade.

  — Eu truxe a comida. Ainda tá quente.

  — Já disse que não quero.

  — Mai ocê num pode ficá sem comê, tá crescendo muito!

  — Crescendo não, já cresci! – gritei - cresci hoje, de repente, num  piscar um olhos, assim!

  — Hara! Eu num tô intendendo ocê e tô achando que ocê num é mais a minha Laurinha! – disse, demonstrando espanto e preocupação.

  — E não sou mesmo, está bem?

  — Ora! Só  pruquê chegô um home aqui, tá todo mundo perdendo a cabeça. As criança, não consegue dormi, ocê, braba desse jeito, Seo Breno, num quis jantá! Em compensação, o home come pra cinquenta! É, mai ocê num que mesmo prosa! Deixe eu desce e arrumá a cama pru home.

— Arrumar a cama? Então ele ainda não se foi? – perguntei apavorada.

  — Não, num foi. E quem é que podia ir de barco, assim de noite?

  — E tio Breno, o que disse?

  — Disse que ele devia de ir embora, qui não devia ficá, mas ele dissi que tem medo de navegá de noite. Eu acho qui ele tá certo, qui......

  — Você não acha nada, não sabe de nada! E agora vá, deixe-me só.

  — Tá bem, eu vou. Se ocê quisé cume dispois, vai na cozinha.

  Não dei resposta e ela saiu apressada. Tentava pensar, entender o que estava acontecendo, mas os pensamentos embaralhavam-se, fugiam, fazendo arder minha cabeça. Estirei-me sobre a  cama sem tirar a roupa e sem puxar as cobertas. Sabia que aquela seria uma longa noite de vigília. Eu ouvia, lá fora, o rumor das folhagens agitadas pelo vento fraco. As árvores, aproveitando o luar, projetavam sombras sobre as paredes do quarto. De olhos abertos, olhando vagamente, eu via as sombras crescerem e se agitarem, como a querer saltar da parede para falar comigo, fazer-me companhia. Fechava os olhos e via-me deitada, via o meu tamanho, o meu corpo tão mudado, tão estranho como estranho era o pulsar dentro dele. Antes, eu me deitava e tentava calcular o meu tamanho buscando encostar os pés na guarda da cama. Fazia por fazer, por curiosidade. Nunca olhava para dentro, para os meus sentimentos. Agora era diferente. Havia uma preocupação. Mesmo sem saber como, eu queria comparar o tamanho do meu corpo com o tamanho do que sentia. Por fora, sentia-me feia e sem graça, comprida e sem formas. Por dentro, era tudo fôfo, sem consistência. Não me via mais criança e tampouco adulta. Era como se eu tivesse vergonha de mim e do que estava sentindo. Lembro-me de quando tive a primeira menstruação. Saí chorando e gritando para Madalena que estava saindo sangue de dentro de mim e que eu estava morrendo. Jurava a ela que eu não caíra e nem me machucara. Ela levou-me para o meu quarto desfiou um rosário de conselhos e ensinamentos. Segui os conselhos e esqueci tudo o mais, eu não era moça coisa nenhuma. Continuava criança como as outras e seria sempre assim. Agora eu compreendia. Veio-me á memória a preocupação que eu tivera com o dia seguinte. Via-me sem graça e sem ambiente no meio das crianças e de tio Breno e sentia-me sem forças para enfrentar o desconhecido.  Senti saudade do dia anterior e de todos os outros dias vividos sem preocupações. Agora eu sabia porque tio Breno dera um quarto só para mim. Eu não era mais criança. Chorei longa e amargamente. A madrugada veio encontrar-me assim, deitada de costas, olhando o teto e as sombras na parede. Não notara que as sombras eram, agora, incertas e se moviam com rapidez espantosa. Um clarão forte e rápido iluminou o quarto, tirando-me daquele quase torpor. Levantei-me a custo e fui até a janela. As árvores agitavam-se com força, correndo umas atrás das outras. O vento, forte, as atirava de cá para lá. No céu, nuvens escuras principiavam a correr e a cobrir as estrelas. A lua, brilhava incerta, com as nuvens que passavam sobre ela. Brilhava cada vez menos, como a sentir que a estavam espicaçando, insultando. Que me importa, pensei, pois a mim também não haviam atirado nuvens de dúvidas e incertezas, deixando-me raivosa e humilhada, apagando a luz de pureza e inocência que brilhava dentro de mim? Os relâmpagos sucediam-se num iluminar persistente e raivoso. As árvores corriam loucas, tontas por aquele rodopiar interminável. As estrelas haviam sumido  e a lua estava cega por aquelas nuvens negras e pesadas. Eu também estava tonta de confusão, sem perfume de viver. O rebombar dos trovões parecia querer ensurdecer a própria natureza. Um clarão e um estalo seco e rápido, fez-me estremecer . Surpreendi-me pensando que aquilo, era bem feito, pois não era só eu a sofrer. Também a lua, as estrelas, as flores, as árvores sofriam com a brutalidade da tempestade. Desejei que um raio caísse bem perto para ver o que ia acontecer. Minha infância estava destruída, não naturalmente, aos poucos, sem dor nem saudade, mas, inesperadamente, sem que eu estivesse preparada para isso. Por isso, desejei o raio e a destruição. Não tardou um clarão e um estouro espetaculares fizeram com que eu me agarrasse no parapeito da janela. Com um novo relâmpago , pude vera nossa  mangueira, onde até aquela tarde nos sentáramos, a maior árvore do pomar, partida ao meio, caída para ambos os lados. Nela estavam atadas as nossas balanças de corda. Nela também estavam guardadas as nossas histórias e os nossos sonhos. Bastou  eu pensar e a lua ficou cega, as estrelas ficaram tristes e esconderam-se, as árvores sofreram a perseguição do vento e um raio caiu, trazendo a destruição. Compreendi que, acima de tudo, dos acontecimentos do dia, da confusão dos meus sentimentos, da dor que eu sentia, havia Alguém que tudo podia, Alguém em quem eu podia confiar e entregar-me sem temores. Recomecei a chorar, mas desta vez, não só com os olhos, mas de corpo inteiro, pois, a chuva caindo, violentamente,  entrava pela janela, batida pelo vento e molhava-me da cabeça aos pés. A água que escorria dos meus cabelos e do meu corpo, misturava-se com as minhas lágrimas. Eram lágrimas de redenção, aliviando o peso que estava sobre meus ombros. Senti-me forte, corajosa, disposta a encarar meus sentimentos. Já não tinha dúvidas a respeito: eu estava apaixonada pelo meu querido tio Breno. Essa certeza eu iria ter alguns dias depois, quando encontrei no jardim, uma revista com histórias de amor, que, justamente ele, Toledo havia dado a Beto.

 

*

 

Histórias que meu pai contava

 

  Quando eu era criança, morava com meus pais e irmãos numa casa simples de fazenda, com direito a teto sem forro e chão de terra batida.

  Apesar da vida de pobre e da dureza da lida, tínhamos o saudável direito de nos sentarmos, em roda, na sala da casa, em noites de chuva, para ouvir meu pai contar histórias que ele trazia desde a infância, como a que a mãe dele, minha avó, orgulhosamente contava e que era a sua predileta: a história do Saci Pererê. Meu pai gostava muito de contar, também, histórias de sua juventude, naquela época, não tão distante assim.

  A história da minha avó era a seguinte: todas as noite, de preferência aquelas bem claras, de luar, ela ouvia os assobios e gargalhadas do Saci. Numa dessas noites ela saiu para o quintal para recolher a roupa do varal, quando, de repente, postou-se diante dela, com as mãos na cintura e pito na boca,  ninguém mais nem menos que o Pererê em pessoa. Este deu-lhe uma cusparada na cara e uma gargalhada. Minha avó saiu correndo de medo? Que nada! A baixinha, muito mais zangada do que assustada, deu-lhe um belo tapa na cara. Ele chispou e nunca mais apareceu. Ela falava com  a convicção de que tinha, realmente, vencido o Saci.

  Ainda hoje, quando saio para o quintal, à noite, lembro-me do medo que sentia e fico imaginando como é que eu agiria se o Pererê me aparecesse pela frente. Teria eu a mesma coragem? Pobre avó, ela não podia imaginar que o Saci de hoje não é como o de antigamente. Hoje ele não nos cospe na cara para brincar. Manda bala mesmo, para nos matar!

  Meu pai era um grande contador de histórias. As de fantasma que ele contava, e ele tinha um gosto especial por essas histórias,  até ele mesmo acreditava nelas, pois fazia efeitos especiais e tudo, nos deixavam gelados de corpo e alma. Sadismo puro. Esqueci-me de dizer que na minha casa não havia luz elétrica e a luz escura e bruxoleante da lamparina, tornava tudo muito mais assustador. Mas não pensem que isso nos trouxe problemas emocionais, traumas e que tais. Não! Esse era um divertimento para nós. Esperávamos, ansiosamente pelas noites de chuva. Afinal, não tínhamos rádio, nem cinema e muito menos televisão para nos jogar dentro dos terríveis filmes de mistério, que hoje tanto assustam as nossas crianças. Acho que é porque os fantasmas criados por esses criadores de divertimento, têm sempre cara, ou de diabo, que sempre assustou a humanidade, ou tão irrealmente desumanos, fajutos, que assustam muito mais e não têm a menor graça. Nós não, nós ríamos dos nossos fantasmas e das situações criadas por eles. É bem verdade que era um riso nervoso, mas ríamos. E aquilo se tornou um vício. Na noite seguinte, com olhos arregalados e tudo, lá estávamos nós para ouvir mais histórias. Hoje fico pensando de onde é que meu pai tirava tantas histórias fantásticas. De leitura não era, porque ele mal sabia ler! Acho que ele era o Monteiro Lobato daquele tempo.

  Uma outra história que ele contava e que tinha sido narrada pela minha criativa avó, era a de uma mulher que tinha se enforcado, lá na guarda da ponte de madeira que atravessava o rio Atibaia. Era o fantasma de uma mulher de cabelos loiros, trançados em uma só trança que saía da nuca e ia até a cintura, pela frente do corpo. Usava sempre um longo vestido branco. Essa mulher tinha se enforcado porque o marido a tinha largado para ficar com outra. Ela se matou, mas jurou que iria assombrar todo homem sem-vergonha que traísse a mulher. Na minha inocência eu perguntei ao meu pai se ele já tinha visto esse fantasma e ele respondeu que é claro que não! Depois que eu cresci, me vi pensando que pouquíssimas esposas devem ter ouvido seus maridos contarem essa história para os filhos.

  A minha história favorita, todos nós tínhamos uma, era essa: Numa noite de inverno, meu jovem pai e sua turma de amigos estavam reunidos no bar do Poltroniere, onde, costumeiramente, contavam piadas e falavam de fantasmas e aprontavam pra cima de alguém. Nessa turma havia o Neco. O Neco era particularmente medroso e bobo o suficiente para cair nas armadilhas da turma, mas se achava o máximo do corajoso. Um garganta.

  Nessa noite, resolveram desafiar o Neco para ir ao cemitério, à meia noite, e trazer a ossada da cabeça de um defunto, qualquer defunto, desses que são atirados no poço, depois de alguns anos. Por mais que tentasse arrumar desculpas, o Neco não teve outro jeito senão aceitar o desafio. A prova seria na noite seguinte, Sexta-feira treze.

  Os rapazes combinaram que, dois deles iriam esconder-se em pontos estratégicos do cemitério para assustar o Neco. Assim foi feito. Um ficaria escondido perto do poço, enquanto que o outro ficaria atrás de um túmulo, ao lado do portão de entrada e saída, este, vestido com uma enorme capa branca. Os outros ficariam no bar, esperando o Neco.

  Munido de uma lanterna, Neco abriu a tampa do poço, que rangeu assustando-o . Quase correu, mas resolveu enfrentar. Pegou uma cabeça lá dentro, colocou-a no chão e foi fechar a tampa, quando ouviu um Ai! tão abafado, dolorido e tremido, que ele não pensou mais duas vezes; largou tudo e saiu correndo em direção à saída. O dono do Ai! Era o rapaz escondido atrás de um túmulo. Quando chegou ao portão, topou com a figura de capa branca, barrando-lhe a passagem e dizendo-lhe, com voz de fantasma, para não ir, - não vai! não vai não! volta! O Neco suava de medo, mas como passar pelo portão sem ser pego por aquele fantasma? Voltou correndo, apanhou a cabeça e sempre correndo, já fora de si, foi para a saída, disposto a enfrentar o que quer que fosse. Não foi preciso, o portão estava livre. Quando estava para sair o fantasma apareceu gritando, desesperado , aquele apavorante - largue a minha cabeça! Largue a minha cabeça! E agora? O que fazer? Coitado do Neco, não teve forças nem para responder ao fantasma e... pernas pra quê te quero? Saiu numa desabalada só, com a cabeça na mão e o fantasma no seu encalço. Neco entrou no bar numa disparada só, jogou a cabeça em cima da mesa e foi gritando para os amigos que ele tinha trazido a cabeça, mas que o dono estava vindo ali atrás e  que eles que se virassem para explicar e foi embora numa disparada ainda maior.

  Depois de rirem muito, os rapazes tiveram que reconhecer que o Neco era, mesmo, muito  mais corajoso do que eles podiam imaginar.

 

*

 

Um triste adeus na Ilha dos Inocentes

                            

 

    Entrei em casa e fui direto ao quarto de Márcio. Assustei-me ao ver que ele piorara tanto. Ele estava com mais uma daquelas horríveis crises de bronquite. Eu já lhe dera o remédio, mas ele não melhorara. A única solução era aplicar-lhe uma injeção, coisa que tio Breno fazia, mas, agora ele não estava, tinha ido viajar com o horrível Toledo, sem que ninguém soubesse para onde. Viajar não era bem o termo. Esse homem, que fazia  parte do passado de tio Breno, chegara na ilha e trouxera com ele a desgraça, todo o mal que se possa imaginar e que mudaria, radicalmente a nossa vida.                                                            

O menino piorava mais e mais. Seu peitinho chiava e arfava, parecendo ser de papel.

Sentei-me ao seu lado e ele segurou-me a mão com tanta força, que chegou a doer. Seus olhinhos suplicavam que eu fizesse alguma coisa. Não aguentei mais vê-lo sofrer e desci para preparar a injeção. Eu teria que aplicar e foi importante as tentativas de tio Breno de fazer com que eu aprendesse.

              À tardinha, Márcio dormia já bem mais calmo. Eu não saíra de seu lado nem um instante e aquela noite eu passara sentada ao lado de seu leito. Cansada, adormeci. Pela madrugada, despertei assustada. Márcio agitava-se na cama e seu peito voltou a chiar fortemente e ele delirava. Tirei-lhe a temperatura e vi que estava com febre alta.

              Chamei Otávio e Madalena, que também fizeram de tudo para que ele melhorasse, mas não conseguiram. Resolvemos levá-lo para o hospital, lá na cidade.

              Otávio, carregando o menino, pequeno e magro apesar de seus nove anos e eu, chegamos à cidade com o dia clareando. A cidade da qual eu sempre ouvira falar, mas que não conhecia. O porto estava cheio de barcos, pequenos e grandes. Homens de todos os tipos e tamanhos passavam carregando redes de pesca. Eu olhava, tudo, entre curiosa e assustada. Descemos, apressadamente, a pequena rua que nos levaria a uma outra, muito larga e comprida. Não havia terra. Era tudo pedra ou um cimento preto, asfalto, disse-me Otávio.

              — Vamos pegar um carro – disse ele.

              — Eu tenho medo!

              — Ora, Laurinha, não seja boba, pense no menino que está sofrendo!

Deixei-me levar, sem dizer mais nada.

O carro começou a andar, andar, não, correr e eu tinha a impressão  de que voava. Eu

estava admirada. Nunca vira tantas casas juntas, tantos carros, bondes e gente. Estava tonta com o barulho.

Fazia dez anos que eu vivia na ilha. Do que fora minha vida antes disso, eu pouco me

lembrava. Recordava, apenas, de ter vivido em um sítio no qual minha mãe trabalhava, que tinha muitos irmãos sem contudo lembrar-me como eram. Sabia que minha mãe morrera de tifo, que um padre levou-me para a ilha e  entregou-me a um homem dizendo: __ Este é seu tio Breno. Ele é  bom e gosta muito de você, seja boazinha e obediente. Nenhuma recordação  mais.

              Quando cheguei lá, com cinco anos de idade, algumas crianças, órfãs como eu ou abandonadas, já tinham sido acolhidas por tio Breno, com a ajuda do Padre Tadeu. Por que uma ilha? Porque ele queria poupar-nos das maldades do mundo.

O carro parou diante de um prédio enorme, onde descemos. Márcio estava cada vez pior.

Entramos rapidamente e nos dirigimos a uma moça atrás de um balcão que ao ver o menino chamou imediatamente o médico que já tratava do menino, o Doutor José Luiz Monteiro.  Duas enfermeiras tiraram-me Márcio e o levaram. Ele tentou agarrar-me, mas, faltou-lhe forças. Eu chorava muito, enquanto andávamos pelos corredores.

              Otávio telefonou para o Padre Tadeu, que acorreu, solícito, ao hospital.

              Fazia horas que estávamos, os três, numa saleta, esperando notícias do médico. Passava já do meio dia e ele entrou na sala. Corri para ele:

              — Doutor, por favor, como está o menino?

              — Sente-se um pouco...

              — Mas, doutor...

              — O que ele é seu?

              — Irmão. Na ilha, somos criados todos como irmãos.

              Eu o olhava com olhos arregalados, mal podendo respirar de tanta aflição.

              — O estado do menino não é bom – disse ele.

             

 

  — Não? Mas, há perigo de vida?

              — Eu temo que sim.

              Senti minhas pernas tremerem, minha cabeça rodar. Tentei ser forte, mas não consegui e desmaiei.

              Quando despertei, vi que estava no quarto de Márcio. Ele estava no balão de oxigênio, dormia e estava, ainda, com febre.  Sentia-me fraca e cansada e a cabeça ardia. Saí do quarto e fui procurar o médico. Márcio estava com pneumonia nos dois pulmões, agravada pela crise de bronquite. Seu estado era muito grave e talvez não se salvasse.

              Pela manhã, Otávio chegara da ilha, trazendo-nos roupas. O menino continuava na mesma. Às nove horas ele abriu os olhos e tentou falar comigo, mas não conseguiu. Segurei-lhe a mãozinha, que ele apertou, mas já sem forças. De repente, começou a suar e a virar os olhinhos. Queria, deseperadamente, falar comigo e não conseguia. Eu falava com ele, dava-lhe coragem. Seu peito parecia estourar. Médico e enfermeiras aplicavam –lhe injeções, faziam massagens. Ele não largava minha mão.

Vi duas lágrimas rolarem pelo seu rostinho pálido. Logo, sua mãozinha foi afrouxando, afrouxando e largou a minha.

              Chorei muito, tanto que sentia-me afogar naquele pranto. Eram lágrimas de tristeza, já de saudade,  de medo, de revolta por toda a situação que estávamos vivendo na ilha, de pena de tio Breno, que com certeza iria sentir-se culpado pela morte do Marcinho. Esse seria um dos piores castigos que Toledo poderia lhe dar.

Chegamos de volta á ilha, pouco depois das quatorze horas. As crianças divisaram a

lancha e correram para o ancoradouro. Quando aportamos, todas estavam lá e Madalena também vinha chegando.

              Quando Padre Tadeu e Otávio tiraram o pequeno caixão branco da lancha, Madalena começou a gritar. As crianças não entendiam o que estava acontecendo. Só Beto chorava. Eloá, a gêmea de Márcio correu para mim, perguntando:

              — Que é que tem nessa caixa? Por que o Márcio não veio?

              Tomei-a pela mão e fomos caminhando atrás do caixão  carregado por Beto, Padre Tadeu, Otávio e Madalena. Só a muito custo conseguimos permissão para levar o pequeno corpo para ser sepultado na ilha.

              Padre Tadeu teve muito trabalho para explicar para as crianças o que tinha acontecido. Faziam as mais estranhas perguntas. Por que ele não se levantava e ia brincar, porque estava com aquela cor, porque estava frio e muitos outros porquês. A eles parecia impossível ter que plantar o Marcinho lá no fundo do buraco. Porque eles não se conformavam e sabíamos que aquela seria uma noite terrível, resolvemos enterrar o menino naquele mesmo dia.

              Ás dezoito horas do dia vinte e seis de junho de mil novecentos e quarenta e nove, á hora da Ave Maria, o nosso querido Marcinho baixou á sepultura, lá no cantinho, no fim do jardim e ao lado do pomar que ele tanto gostava, tanto tinha brincado e que guardava, ainda, o som de suas risadas.

              Aquele foi o primeiro triste adeus, dos muitos que ainda viriam, que tivemos que enfrentar em nossas vidas.

 

*

Nadyr Alves da Silva Bedin

 

 

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