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INVEJA
Arnaldo Giraldo


A grande mesa oval de mogno tinha quinze lugares bem marcados com blocos de notas e lápis apontado. Max entrou na sala, àquela altura ainda vazia, para fazer a última inspeção e fez um sinal com a cabeça, aprovando a ordem e a limpeza do local. Foi até a porta principal, abriu-a e fez um amplo gesto para os conselheiros que esperavam pela reunião do Conselho de Administração.

Soraia, a única mulher, foi uma das últimas a entrar. Todos sabiam da particular guerra que Max travava para tirar Soraia do Conselho, pois ele julgava que sua presença não passava de um capricho de Gruber, o detentor da maioria das ações da empresa. Todos os conselheiros também se divertiam com as piadinhas maliciosas sobre a vida sexual do velho Gruber - a maior parte delas inventadas por Max - reservando nelas lugar especial para Soraia, uma bonita morena de trinta e cinco anos.

Soraia sentou-se no lugar que lhe fora reservado e aguardou Max iniciar a reunião, depois dos rapapés costumeiros trocados entre os membros.

- Senhores... - disse Max, olhando ao redor - dou por iniciados os trabalhos.

Todos perceberam claramente a exclusão proposital de Soraia. Risos abafados espalharam-se pela sala.

- Quem quiser fazer uso da palavra esteja à vontade - disse Max, usando uma fórmula que não deixava muito tempo para os membros usarem da palavra depois, na hora da votação dos assuntos de relevância.

- Eu tenho um assunto para tratar - disse Soraia.

Todos voltaram-se para ela, depois para Max. O Presidente do Conselho ostentava um riso irônico.

- Por que não, minha cara Soraia? Por que não?

Soraia tirou de dentro de sua pasta de couro um maço de cópias de sua proposta, que ela passou em dois blocos para distribuição, um para cada lado. Max recebeu a folha e, imediatamente, desatou a rir alto.

- Ouçam isso, senhores! Ouçam isso: "Proposta para uma mudança na estratégia da Empresa". Mas que pomposo! - disse sarcástico. - Como se precisássemos de uma nova estratégia, Conselheira Soraia!
Todos riram com os trejeitos debochados de Max.

- Eu acho que precisamos sim, e é isso que quero explicar, tendo em vista o avanço dos concorrentes em mercados que são tradicionalmente nossos.

- A Senhorita acha que vamos perder tempo com esse tipo de baboseira, hem? Eu pergunto aos senhores - disse olhando cerradamente para os conselheiros - quem vota em um absurdo desses? Quem concordar com essa tolice que levante a mão!

Os conselheiros procuravam evitar os olhares de súplica de Soraia. Um dos conselheiros chegou a tentar uma solução de compromisso, sem ir contra Max.

- Mas Max, talvez possamos dar a ela dez minutos...
- Lemos! - cortou Max. - Se você quiser votar que levante a mão! Você quer? - o tom agressivo fez Lemos calar-se.
- Zero votos a favor, senhorita Soraia - disse Max, cínico.

Soraia reuniu suas coisas e saiu chorando, não sem ouvir a frase de escárnio de Max:

- Lugar de mulher não é aqui, senhorita, no meio de homens de negócios!

Soraia fechou-se em si mesma nos dias seguintes, irritada com a pouca combatividade oferecida ao machismo de Max.

***

Max gostava da noite e vivia contando suas bravatas aos companheiros. Naquele fim de semana, na boate, uma loira marcou-o sem trégua e ele, lisonjeado com o interesse da moça, passou a maior parte do tempo com ela. Saiu da boate acompanhando-a por volta das duas da manhã, levou-a para o hotel que ela indicara e subiu até o apartamento. Enquanto a esperava sair da toalete foi surpreendido por três homens que o agarraram e o imobilizaram.

- Que é que vocês querem? - perguntou com dificuldade, devido a mordaça que lhe tinham colocado. - Podem pegar todo o dinheiro!

Um dos homens riu alto.

- Não é só o seu dinheiro que queremos!

Um lenço com éter foi apertado sobre sua boca e narinas e Max perdeu os sentidos.

***

O tempo passou.

- O que houve com Max? - perguntou um dos conselheiros. - Faz cinco semanas que ele não aparece nem dá notícias. Você sabe alguma coisa dele?

A pergunta era dirigida a Soraia, que acabara de abrir a reunião do Conselho de Administração.

- Não se preocupem! - disse Soraia, confiante. - Max virá daqui a poucos minutos. Os conselheiros entreolharam-se em dúvida. Era muito estranho Max ter sumido e ninguém saber do paradeiro dele. Entretanto, como dissera Soraia, Max, um pouco abatido, entrou na sala dez minutos depois. Àqueles que o bombardeavam com perguntas fez apenas gestos para que se sentassem e que se continuasse a reunião.

Soraia olhou atrevidamente para Max e disse:

- Max, eu estava começando a tratar da nossa nova estratégia, mas todos querem ouvir alguma coisa de você. É melhor que você fale antes de começarmos.

Max parecia prestes a um ataque de nervos.

- Eu não quero falar nada! - disse Max, com uma voz fina irreconhecível.

O espanto foi geral e seus olhos umedeceram-se. Vendo que todos o olhavam, disse em sua nova voz de castrado:

- Eu já disse que não quero falar nada!

E assim continuou calado em todas as demais reuniões, temeroso de tornar-se alvo do riso, da chacota e do sarcasmo dos confrades. Ademais, ouvia a voz melíflua, onipresente do seu psicoterapeuta:

- Então você não percebe que é tudo Freud? A inveja do pênis? Você mexeu com forças ancestrais, meu amigo, forças ancestrais!



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