A Nascente das Pedras de Fogo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Romance

 

 

 

A Nascente das Pedras de Fogo

 

 

 

 

 

 

Pseud: Tajá

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Nascente das Pedras de Fogo é oferecido ao queixo dos lagartos

 

prognatas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

<Calor interno depende da densidade do corpo.>

 

Pólen

Novalis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tudo o que conforme anda no romance A Nascente das Pedras de Fogo é puramente fictício. Não há noção de realidade em formato. A Cidade escolhida para o enredo que panifica o fundo, se foi Mirablia, somente encarrega-se a pujança do lugar como mérito e valor, já que por lógica e divindade, nem caberia outra estagnação para melhor apreço. Pela irrealidade – ou ficção - me responsabilizo, pelo progresso faz-se voto, alhures.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Prefácio

 

T

odo prefácio para meus textos eu mesmo tenho feito. A razão de tal recurso já foi amplamente comentada em outros pedaços. Todavia, fazer prefácios próprios é como arriscar-se numa cegueira e comentá-la. Há cerca de tempos antigos meu trabalho tem sido o de arriscar com o espírito da palavra e o corriqueiro do espaço branco. Da reticência que nem chega a ser expressa.  Entrevias, o que pode ser dito de entrelinha. Há uma sub-limidade grande na entrelinha. Se a palavra densifica, a entrelinha texturiza. Cose e relambe de um lado para outro. Houve uma invasão grande na massa do que pode ser chamado de palavra, a ponto de uma certa vulgaridade cursar com o facto. Como em quase tudo que é invadido costuma haver a confusão, a própria palavra perdeu o jaez de mina e acabou sendo um suspensório que não segura as calças. A entendida parte que ficou entre os candidatos a poetas é que, em sendo, em não sendo, tudo o mais confabula numa escorregadia enxurrada de valores. Se alguns são providenciais, melhor fica sendo o que se aproveita. Senão, quase nada se aproveita. Ou nada. Dizer-se que palavra e Mallarmé são criaturas idênticas é um fundamento de antigüidade.  O que se busca resgatar em muitos poetas é a emancipação própria, portanto inteligível. Ocorre que o aluvião fica sôfrego. E a confusão grassa mais e mais entre o que é texto e o que não é. Sentir com o senso enovelado, depois disperso entre uma ponta e outra é coisa de um fundamento difícil de ser aceito,  que dirá de ser explicado. Quando não se pode explicar uma coisa, melhor pode ser que uma satisfação já seja o senti-la. Houve um tempo em que saber a poesia mais qualificada era sofrer o susto dela. Caber no riso que a construção impunha e na decisão franca que a parte não dita dispunha, isto é, a entrelinha que nem existia, nunca existiu e jamais vai haver. Por ser arte e artimanha, o escumar de poesia é coisa para uma prosa muito comprida. A languidez das cisões e das junções pode ser acúmulo dela. Sofrer o susto da poesia, o objeto de uma causa. Já que cada qual se assusta de conformidade com o que o alumbra, há relatividade no encorpar a fatia da poesia. Mas a relatividade maior parece ser dependente da entranha da subjetividade, já que o objetivo – nem por certo mantenho a certeza, estou a elaborar um prefácio meu mesmo – é somente o incrustado na peça manhosa da Arte mais pura. Aliena-se assim o que demais houver. Tudo gira num novelo desmedido de cores e de alucinações. Tudo que vira nata acaba sendo o imortal. O demais entra pelo ralo e ganha as correntes do desfeito. A palavra vai junto, como se fora feita de confete sem âncora, oxalá de âncora sem confete. A entrelinha, já que nunca existiu, nem precisa de corrente rumo ao mar para se desfazer. E em espiral de alegoria, tudo que sobra acaba sendo o vigor da Estética, ainda que prato de solução difícil para as digestões mais ou menos avestruzes.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O

 lugar assumia a cor de tempo, uma placidez de todo eternamente, sendo que coubessem eternidades em trivial do ser acontecido e do que ser para o acontecer. Dizia-se, quem visse, mas que qualidade irreparável põe o mundo em certas, por mais erradas, as circunstâncias. É que há invejas que dependuram uma insensatez no homem que já clama por ser invejoso, nem podendo se livrar da maldição de uma coisa que até que nunca o apega de conhecimento em querer, mas no dominar. Assim, muitas criaturas pensam, somente no soletrado de haver a inveja, quando replantam a vista sobre o quaquaraquaquá de um lugar. Outros que apenas falam, benza-nos  Deus, que são tantos os redemoinhos de um mundo e cá, onde a vista assenta – como o pouso do gavião -, vê-se o sossego de um preservado de jeito. Mas, são muitas as arrelias do que se sabe e daquilo que mesmo é mais difícil de se balancear – ou balançar –, assim, em cada cabeça tomba uma sentença e não falta formiga sobre a terra que possa dar conta de revirar a massa em uma água de barrela. Assim sempre foi a cabeça de Pedronório Bueno de Gôveia, o conhecido apenas pelo primeiro som de estampa, por mais fácil que seja o ouvido e a língua, lá com seus brados muito sísmico de ser, mais por influência de uma personalidade sangüínea do que próprio por toda a coragem que diz atar com mãos próprias.   Pedronório olhava o vento e vinha com a sopa pronta de onde ia ser a chuva. Acreditava que uma prática de sossego tem mais império para uma criatura, mesmo que mais ilusões inventadas sejam as admitidas. Se falava por via das bravatas, era com coração tênue de passarinho novo que punha as ações em acontecido. Nunca se esquecia de que mais vale a visão para a cabeça, do que um sonho de pedras debulhadas. Em outras palavras, para seu manancial de existência, quem não vai para o céu não adianta olhar para cima. 

            O lugar, deveras, assumia a cor do tempo. Pedronório estava sentado à varanda e assuntava a imensa sombra que mora no silêncio. Se vinha uma sonata de abelha e zumbia uma diversidade, nele sempre aquilo podia passar despercebido, por ser o seu modo, umas vezes, muito mesmo desapercebido de alguma comoção. Acostumado com a lida da forma descosturada de grandes ambições, para ele tanto valia o zumbido quanto a carga do mel. Naquela tarde, porém, ia chover antes de um bem-te-vi desconfiar que é amarelo. Antes do amarelo bispar que é ajoujo de bem-te-vi. Remoinhava o que se saber. Vento que anuncia chuva tem melado na destilaria. Era adivinho das coisas da terra. Coçou um começo de frieira doce entre os dedos maiores do pé. Olhou, somente com modo de ver se minava olho pretinho de bicho-de-pé. Ia chover, porque toda vez que a flor da goiaba assobiava a cor branca contra um instinto – mais que um desejo – nele o sofrimento de um sossego deliciava o mirar das coisas em sala de varanda. Pedronório era abrupto para tudo que fosse sensato, era muito aguçado para tudo que fosse insensato. Quando rememorava a sua história de cortes e rumas, uma espécie de ver a vida, de trás para frente, num modo ofegante, deslizava pelos seus incêndios. Boa parte de sua vida estivera a gravar estatutos vazios à varanda. E sempre concordou com o estalido do som, que uma viagem começada num canto de qualquer garrinchinha vale o dobro de uma falta de explicação. Como espiar a dança dos bate-bundas contra as águas estagnadas, os lodos.  A simplicidade não acha preço de compra.

            Pedronório marcou com o dedo em riste de onde vinha o vento. Chupava a ossatura do dedo e erguia o molhado. Ventos que vinham bem da descida das serras e dos lados do Amanhece.  Surgiam outros, no torvelinho comum de ventania é que montavam. Havia um silêncio muito translúcido na hora do movimento: como ser a hora de vir a entrada em cinco horas da tarde. Vésperas de toda luz revirar para lusco e fusco. Erguia de novo o dedo molhado com saliva. Decerto era a chuva que se denunciava em vinda. As coisas simplórias sempre nele faziam um cortejo antigo. Todas as coisas acontecidas tiveram o seu papel amarrotado em vida. Como nem pudesse ser a diferença, pois que o mundo sempre funcionou por tacanhas, as suas demandas. Como para quem todo entendido sabe que é, um pingo já é chuva, letrou-se que desandou a chover as bagas grossas que vinham com os ventos das bandas do Amanhece. Ou de qualquer manancial de rocha escura que circunda as beiras do Rio Paranaíba ou das Velhas. Desde que se recordava por gente que pensa, Pedronório nunca havia arredado o pé dali, do lugar. Então, porque tudo cresce e tudo vinga em gavinhas e molho de heras, o homem envelheceu e viu que a cidade tomava conta e tento em torno de seu espaço. Fazia uma boca, cloacava e envolvia seu corpo e parte de seu domínio de uma forma irrevogável. E não havia como o ferro estalejar diferente, o concreto, o aço e o asfalto que corriam e cresciam ligeiro. A construção vicejante de tudo que agiganta e põe motivo a uma Cidade ser sempre grandiosa. Os progressos que não podem ser cerceados por uma simples vida ou herdade. O homem sabia que seu limite era o estado de uma inépcia diante do que surgia. Não havia como esbarrar o que o mundo criava, gusa, enormidade e leva. Tudo ajuntado e formando a bandeira aberta do nomeado, o progresso que se vê.

            Mirablia era a densidade sem controle. Tudo era grande. Tudo exuberava em mais e mais, sem nenhum óbice de maior pedra que agredisse uma estampa de cerceio. Havia os progressos de todo céu aberto. Pedronório nascera e fora criado ali na nascente das Pedras de Fogo. O ribeiro com as mangas curtas da frieza que nasce com a alma da pedra. A chácara miúda, de seus poucos hectares viu-se agredida em alças, toda a cidade grande crescera em torno dela, a ilha que navegava solitária e entre as unhas de Pedronório. Se a chácara era miúda, quando passou a estar urbana, crivou-se de ser um mastodonte sem começo, sem fim quase. O mundo ali, porquanto o bulício em torno fizesse a serpentina do grande ensurdecido, agia na qualidade de uma reserva de passarinho plantado no meio do estouvado de urbanidade. Sentado à varanda e tomado de um grande estupor de identidade, Pedronório confortava-se com o grito somado do bem-te-vi e de uns passarinhos sem nome, de re-pio doce, que esvoaçavam em buscas das aleluias do mês de novembro. Mirava a história como se fosse dela a cabeça de uma estátua, meio infenso, mas com olhos denunciadores de uma experimentação incontida. Havia marcos grandes nas coisas mais humildes, disso ele não retirava a dúvida. Quando o silêncio era mais potente e que a chuva invertia as bordas verdolengas dos sons com seu crepitado sobre as folhas da taiobeira ou do inhame bravo, uma buzina de ônibus resplandecia na orla de seus sentidos. Pedronório estremecia e coçava outra vez as frieiras entre os dedos. Olhava através da luz coada pela chuva. Lembrava-se de coisas que ofegavam seu passado: cada acontecido. Toda pressa não resume a boa chegada.  

            Todo envolto, Pedronório desconfiou, somente muito de parte tardia, que seus costumes eram avessos ao antigo, eram avessos ao moderno. Plantado em sua herdade miúda para ser rural, grande demais para ser urbana, seu relacionamento com o mundo ficava entre o doce e o amargo, entre a língua e o céu da boca. Estava ilhado e sem remédio. Pelo menos em aparência de solução. Por tais referências e sendo como era,  refletia as coisas como até que bastante engraçadas. A vida valera a pena, nem outro bestunto mais o martelava.     Crescera a cidade em torno de seus aviamentos mais elementares. De cuidado em cuidado, na malsã olhada de um revertério imediato, via-se acuado sem sê-lo, pois que morava em si a pachorra suficiente para mais um século de sossego, acaso vida mais houvesse para tanto. Um restilo sempre aprouve um fim de expediente, no mais era somente esperar para contar quantas frutas a árvore vai dar. Assim. Sempre é que cuidou-se: assim. Na mesma olhada em torno, Pedronório contava as inerências de como ficara em vida. A cidade toda enorme. E com ele, nada demais, nunca esbarrara nenhum compromisso do mundo com o progresso. Muito até que pelo contrário, dele adjudicara feito o cidadão que sempre anda em doravantes. As Pedras de Fogo tornaram-se uma curiosidade, de dizer-se a verdade. Cada cabeça que surgia por entre as paredes de edifício, cruzada de buraco de janela, pensava que ali dentro do seu lugar de Pedronório, o mundo fosse uma alienação.

            Diante da varanda, ela meio retirada para o meio dos abacateiros e algumas aroeiras  serenas de antigüidade,  passava a grande avenida que cortava o coração da Cidade em partes iguais. O ruído grande das acomodações, as viaturas com buzinas longínquas. Pedronório admirava-se da distância curta que ficava de  ver-se a torre da catedral da Cidade. Restaurantes em concatenado de hora com as pessoas vivas.  Impressos de néon de grande bancos. O mundo é muito estouvado de bancos. Tudo fica resoluto quando se fala de bancos. Chega dar estremecimento nas criaturas. O homem, da varanda, coçando uma frieira entre os dedos do pé, mirava a torre moderna de uma grande multinacional. Que coisa é o mundo. Estupidez pouca até que é alguma bobagem. Que se diga. Pedronório considerava as questões com um forno de  simplicidade. Ria-se de tudo que acontecera até então. Fora pego desprevenido. A Cidade estava em torno dele, fazia uma cintura de aperto e ele estava com as calças nas mãos. Grande maçada.  Diante da varanda, dando tropel de um minuto ganhava a avenida estrangeira, galuda, enorme e dona de silêncios sempre quebrados contra a ambigüidade que é a eclosão do som. Havia, portanto, muito afã em se considerar as coisas. Por falta de barulho é que não ia haver-se com tristeza. Guinchos, safanões, brecadas. Barulhada diversa.

            Na banda de trás da herdade, logo atrás do lugar onde nascia a água pouca do Pedras de Fogo, num recurso de grande guirlanda de cedros, oito deles se contados em dedo, via-se a construção herética e moderníssima de um conjunto de apartamentos. Se bem se pensasse, as criaturas que morassem no lugar contavam como duplo merecimento de alegria. Uma delas, o centro da cidade – grande fortuna de conforto. A outra, haver sob o nariz a perenidade constante dos ares puros que nasciam das folhagens dos cedros, das aroeiras e até da pimenta-de-macaco; o frescor assíduo e asseado que se promovia da nascente do ribeiro, a pedraria que guarnecia o minado. Pois que nem sempre sói ser assim, comum é que aguada nasça de barro amarelo ou cinzento, apodrecido pelo jus e repetido que vinga em coisas de paul. Nascente em cascalho ou pedra já é requerimento de luxo, divindade que a muito poucos pertence ou serena.

            Tomando os lados e fechando o paralelepípedo que compunha a gleba inteira, corriam fartas duas outras grandes avenidas que desabrochavam céleres bem no cerne daquela, a maior e que urrava diante da varanda, no retirado do minuto de marcha folgada até a porteira  fechadora da posse. Pedronório fazia seus versos, seus reversos. De tanto embevecer-se com a latitude de todos os mundos, dizia-se que um homem é uma ilha, oxalá uma restinga cercada de automóveis por todos os lados, menos, em caso especial dele, pela banda que a terra come: a sola dos pés. E por cima, que todo céu é o arbítrio que tanto pertence à folga do sanhaço quanto ao cérebro fresco das chuvas de qualquer tempo. Alegrias é que são a lucidez de uma vida bem entabuada. O inerte mundo do sossego vale muito, não adianta caçar chifres à cabeça das éguas, ele sempre se repetia, mesmo quando andava sozinho entre seus arvoredos.

            Quando olhava as coisas mais simplórias que demandam a existência assim sem cálculos, Pedronório via o despencado da chuva de novembro. As fatias sublimes do som que vinha e batia das cumeeiras, nas folhas desdobradas do inhame bravo. O nome do Amanhece surgia no embevecido da hora. Com os pés descalços de todo o momento, de toda a atribuição que não fosse uma contemplada de inutilidade, o homem estirou as pernas e deixou que as folhas do inhame bravo distribuíssem farta água de chuva entre os dedos de seus pés. Olhou em torno. O sossego das cinco horas da tarde anunciava mais aleluias e perucas – pássaros de pio doce como um sonho com marmelos maduros – esvoavam em torno de cada folha, em cada resumo de angico ou goiabeira. Havia o véu cinza contra a avenida. Tudo esfalfava de resumos e rascunhos. O mundo é assim, um rascunho que nunca precisa ser passado a limpo. Pedronório sentia a água espessa entre os dedos. Sorria daquele brinquedo. Merdas são outras vidas, pensava. Homem e ilha, a queda da falta de espessura em outra matéria melhor. Deixou as botinas debaixo do banco largo. Estirou mais e mais as pernas de cabo fino. Viu as sardas delas. Arregaçou as barras das calças. Molhou-se mais. O vento evertia o delgado bulício em folhas da taioba. Êta mundo denunciado, pensava Pedronório. Oravejas!  Quanta baga de chuva, tanta: cachorro hoje bebe água em pé. Dizia. Reolhava a imensidão que é a desnecessidade de explicar a quem vem, o porquê do orvalho, quiçá da chuva.

            As buzinas nas avenidas perdiam, ligeiro, o som entretido da azucrinação. O homem observava o sanhaço de coqueiro no ir e vir. A ninhada fora posta na catana da guairoba, tão logo se chegava dela o pé à porta do terreiro. Pedronório tomado de uma atitude de ser um menino na toada da idade que tinha, os bem ponderados cinqüenta anos na cacunda, surpreso com a euforia daquele momento de aguaceiro, viu-se com as estrepolias bem arrumadas. Despiu-se das calças e tomou-se tento somente em ceroulas. A cortina densa da chuva protegia da indiscrição de todos os olhares. Estava ilhado. Por trás, nem se preocupasse. A herdade era toda protegida de cada olho. Invejado de ver a passarinhama na cata de aleluias, o festival enquadrado daquilo tudo, havia que participar, por quanto e tanto tudo era somente a algazarra do nome dito. A própria algazarra que tomava-lhe pulso. Atirou as calças sobre o banco. Bolero, o cão cabeçudo, estirado no seco de um tapete de juta desfiada, olhava a intempérie meio absurda que assomava em torno.  Chuvas densas vindas de lugares longos. Beleza de se estivar em olhos, que tudo sendo, o como é, que tudo no mundo há de puxar a sua graça. Pedronório ria-se de ser assim aprochegado numa traquinagem. Bolero olhava com finos olhos vermelhos. O homem danava uma loucura de saracura em madrugada, pueril. Ia entrar sob a chuvarada. Ia regar-se. Regalar-se. Um bando que lhe lavasse as almas e as picumãs entranhadas ao espírito. Melhor que chuva nada mais limpa. A virgindade de todos os elementos descendo das alfombras finas dos céus. Atirou a camisa sobre a calça. Bolero gemeu e bocejou. Farejou a imensidade que dorme com a luxúria dos homens. A simplicidade louca que advém de cada estação. Cão sabido, preguiçoso. Os olhos rubros com pálpebras caídas, a raça cabeçuda que nem existe mais. Bolero era relíquia.

            Quando bispou de meter o dorso no umbral das grandes goteiras que desciam, Pedronório viu que Timarco estava nu, nuzinho, que nem se supusera ao mundo, bailando uma retreta besta diante das árvores mais para lá. Timarco gritava, lá com seus trejeitos de dificuldade. Emitia as palavras decepadas, aquelas das quais podia laçar em um entendimento de uso. Gritava, trespassado de uma alegria larga, contagiada de si mesma alegre. Timarco não podia dizer as primeiras sonoridades das palavras. Decepava sem se notar, por vezes, mormente quem com ele jazia no costume. Dizia cavalo, dizendo avalo, dizia coqueiro dizendo oqueiro.  Nascera assim o Timarco, não por nenhum susto é que ficara a dever ao som, o som a dever a ele. Sem sestro, somente uma forma da língua haver-se em cabresto qualquer.

-         Huva, iva a uva!

Voz de Timarco cruzava o arvoredo. O bailio destrambelhado. Vivas à chuva. Quando o pai viu aquele fuzuê do filho, sorriu também à grande. E gritou igualdades. Acompanhou. Despiu-se das ceroulas de pano grosseiro e entrou de vez na torrente. Desabava o mundo. Timarco executava os passos que podia. Os braços curtos demais para um corpo quase grande, o abdome descendo em aba sobre o implante do escroto. O pai viu os cabelos ralos e meio sararás do filho. Regulado de seus vinte anos, Timarco era diferente de protótipos de normalidade. Tinha a lucidez de ser independente de tudo e de todos. Tinha a desfaçatez das impudências que deixam os outros em constrangido. Por soma, Timarco era especial. 

-         Ança omigo, Ai!

-         Viva a chuva!

Timarco queria dançar o todo que bem fosse da hora. Agitava os braços curtos, e deixava bagas grossas caindo sobre a língua. A língua mais longa que de tamanduá, não fosse grossa, como bovina textura. As orelhas dobradas, de um modo muito particular, tapavam-se com o cabelo escorrido, escorrido de mais água. Liso que fosse, como se diz ser o escorrido de quaisquer cabelos. O dito por voz comum. Era assim que Timarco resplandecia diante do pai. Pedronório perdia em tamanho de língua, mas também deixava a sua para a doçura da água refrescar. Tomado de seu espanto momentâneo para dele se esquecer em seguida, o pai dançou aos escorregões e arrastos, num festival distinto de qualquer coisa jamais vista. Emboramente, nunca de tocassem, somente rissem cada um da banda ridícula que tomava conta do outro, amainada pelo contágio da alegria e da espontaneidade que acomete as criaturas em suas horas mais inesperadas. A dança sem fôlego de ritmo, somente os pulos anárquicos. Pai e filho recobravam a ancestralidade de uma pedra útil.

Tomada de curiosidade repentina, Bilica saiu à janela. Abriu somente em bandas, que o vento era espichado e fustigava de lá para cá, feito fosse um tonteira que descesse das árvores. O que viu. Suficiente para puxar um cruzcredoemcruz nasalado, sem temporalidade.  Deu de cara, as limpas faces com pai e filho no muxoxo repinicado daquela dança de fantasmas. Não acreditou no que via. Não era comum, embora de tudo ninguém, em se partindo de ambos, nada se pusesse em dúvida. A mulher coçou um verruga com pêlos pretos no queixo e bateu a janela, esconjurada, espiando somente pela via pequena de uma fresta de curiosidade. A bunda gorda do filho balouçava, suja de barro devido a dois tombos que sofrera. As ilhargas do pai, igual modo, escarificadas de seus tombos. Os dois erguiam os braços, dando a impressão de que agora o valseado era maior que a rumba de antes. O pênis murcho do filho, enrugado, quase uma desnecessidade de sinceridade integral, sumia-se, entranhado para dentro das gorduras. O do pai espichava-se, nem grande fosse, mas maior o suficiente para se dizer que ele era dono de um. A cabeça da pênis com uma mancha cinzenta que vinha dos tempos mais antigos que fizeram presença em existência de Pedronório.  Nem Bilica houvesse a intimidade com a cor, com a façanha do instrumento, mas o regougo de ver que ninguém esbarra. Quem tem os olhos e não é cego, vê e de graça.

Bilica benzeu-se três vezes. Fez o sinal da cruz no peito. Olhava de meia-esquina, que é modo bisonho de se olhar. Desentendia aquele quiproquó de demônios pelados. Em Timarco nem sabia totalizar o que o filho – ela dizia o menino – abalizava ser nudez, o que não ser. Mas oravejas, Pedronório sabia muito mais que bem o que era estar pelado.  Se o menino precisava de cartilha, o pai não a dava. Timarco nunca fora certo de modos ou de raciocínios. Mal os pecados, ela via que agora o pai também sofria das bielas bambas. Nem houvesse em toda Mirablia uma alguém, que se contado, fosse acreditar numa patacoada daquele calibre. Solipsismos de vento furado. Que integridade cabe num homem, senão a espelhada dança de seu filho? Bilica punha interrogações mais brandas ao manancial do que via. Pedronório, diante do visgo sobre o qual escorregava seus passos de bailarino tangencial, fora outra vez ao solo. Apenas rebentou-se – qual jaca podre, Timarco gritou, possesso de vantagens alegres. O tombo devia, tinha de fazer parte da grande festa iniciada. Bem com as bundas com placas de barro. Pedronório caía e abria a boca arriba, as gotas que vinham, espessas.

-         Iiii, ombo ó u ai!

-         Fica firme, Timarco, o mundo vai ser água só.

-         É esmo, ai!

-         No olho, nas orelhas, nos bagos, no fiofó: tudo água, agua-só!

-         Iva u ai!

E ambos riram. O filho estendeu o braço para auxiliar a levantada do pai. Com um upa, o homem ergueu-se. A lama do quintal ficava amassada, rubra, mais escorregadia. Quando viu o seu homem erguer-se e sacolejar mais entusiasmo, Bilica deu de ombros e deixou a janela aberta aos ventos. Que cada um se entendesse com as suas próprias dores moídas em aguaceiro. E pronto. Ignorou o que mais fosse. Foi ao fogão e atiçou os paus de lenha em brasa firme. Nada estava desconforme. Já vira de ambos manifestações mais primitivas que um simples bailio de chuvarada.   Se mesmo a ela, tão marsúpia de considerações, a dança parecia simiesca, nem por tal deveria causar um impacto afora de um assentado de olhos. Pois que sabia a quem criava, aos dois latagões lá com seus preâmbulos de inocência. Se fechava os moldes da janela, porém, Bilica não podia deixar de se contagiar por aquele reflexo de alegria que cruzava o cortinado de chuva. As faces de Timarco agitavam um modo vespertino de ser. Se em Timarco tudo era o esperado, mesmo aquilo que jamais soía ser esperado, em Pedronório ficava mais difícil se aquilatar o que parecia ser um desequilíbrio. De qualquer modo, era mais fácil saber de um bailado do que de uma dança fúnebre, sempre se dizia, sempre se confirmava. Temendo enfrentar a ira do marido, se acaso fizesse um comentário besta qualquer, Bilica franziu os lábios, mordeu na carranca que surgia e silenciou-se. Pedronório era o chamado muito bom. Mas tinha desavenças de estopim encurtado. Explodia. Por vezes, mais calado ficava, deixando o lábio franzido de intolerância.

-         Mete a ripa, Timarco...! Mete a lasca...! Vamos dar aquele passo de compasso três por um... feito fosse três por conta de um...! Quem cair primeiro é filhote de passupreto!

-         Ete a ipa Ai!

-         Não perca o ritmo. Larga o pau!

-         Arga u au ai!

Num jeito muito avantajado de todas as sobras, num estranho de momento, Timarco ia arroxeando os beiços enquanto o pai ruborizava as faces. Jeito de cada um saber-se sob a chuva de novembro. Bolero saiu de onde estava e veio assumir um compromisso de averiguar as peças do acontecido. O cão focinhou, bebeu ares e depois foi ignorar o facto deitado em sua laje quente. Para ele, toda loucura não devia fazer parte em bedelhos de cachorro. Somente ganiu espichado, um ganido de quem pudesse participar, mas estava velho em demasia para frio e barro. Da janela, com ares de uma banda megera, Bilica cofiava os pêlos sobre a berruga e dizia baixo, somente para si mesma, que o cachorro tinha mais juízo que pai, que filho.

O bailado parecia não achar uma meada de fim. Para Pedronório, a graça toda estava na contrapartida de poder ignorar o que mais mundo fosse. As parecências de todas as coisas para ele agora soavam simplesmente como uma barca que não naufraga porque nunca foi talhada. Se ventos nascidos de qualquer alegoria buliam com as grimpas de um dos cedros dos fundos, com uma quaresmeira, nele vinha um assobio de pele, um arrepiaço desconforme, como há muito tempo não surgia sentir. Para Timarco, porém, a festa tinha uma outra forma de ser encarada. Tudo parecia ser somente um resumido de alegria forjada por chuva, nada que pudesse ser mudado de senso.    E para Bilica, tudo parecia ser uma soma de disposição exagerada que a meia normalidade do pai metia à meia loucura do filho; oxalá coisa outra não fosse que subjugasse menos que as meias falsetas que a cada um deles cabiam. Os ventos vinham de distância, desde o Calixtrato. Vento de viagem, lacerado, esfrioso, por vezes e muito. O cão ficava longe dos argumentos da festejança. Timarco mudava os passos para um dança afegã.

Um bufo rompeu para os fundos, num ermo rente ao caudal das Pedras de Fogo, o riacho nascido. Uma moita de jaraguá crescia ali. No torpor cálido da hora, a égua Granfina agitava as crinas e despeidorrava os gases de acúmulo. Longos rompontes. Peidarrões imponentes. Mesmo já velhusca, Granfina ainda tinha apertos no registro que bem regulassem o sonoro do trombone. E, tudo se confundia com os guinchos dos pneumáticos sobre asfalto e buzinas rompiam a graduação do dia, coletivos raspavam o asfalto e tudo era a azáfama que destoava das beiras do ribeiro. Timarco era a solidão em retrato, Pedronório era o caso de uma alienação. A égua liberava os gases, descansando uma das patas traseiras ao peito, quase. De longe, quem a visse pensaria, pudesse, que ela era passarinho, em dois pés é que se sustentava.

Mirablia crescia a olhos vistos. Como a cinta apertada é que faz os bofes saltarem, não havia outro jeito: a herdade confinava-se num mutirão de esfinge. Esfinge é a coisa que gera a angústia. E toda a toada da chuva era a indiferença mais primitiva que pode auferir um pensamento de algo sólido. Chuva costuma ambientar a maior solidez que se tem notícia.  Dá cargo de coisa promissora, de fartura. Águas de bênção, a grandeza dos lugares que nunca perdem o teor úmido, as cabeceiras e as mangas rompantes que descem nas estações que são delas.

As queresmeiras com roxas, as flores empapuçadas de beleza. Passava uma libélula – de vulgar corpo e nome: o bate-bunda -, arrancava um impossibilidade contacto com a imaginação de Timarco. Ziguezagueava e punha corpo de letras ao mundo. Sinais. Signos de vai e de vem.  Havia flores nascidas dos elementos mais transparentes, todavia. Bebe-se o que o copo absinta!      

 

 

 

Capítulo 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     T

inha os dias, que em todo devidamente nem sendo o certo, Bilica punha doida a cabeça do marido.  Não por tudo dava a cabeça de Timarco no perceber-se do que ia acontecido. Depois dos dias da chuvarada e do bailado com foxes e trotes, Bilica deu de estranhar e olhar de banda para os lados do homem. Passava por ele e deixava vir ao mouco dos lábios um risinho meio troncho, como se quisesse bem entender que a loucura também tem o seu lugar para ser cultivada. E que se bem entendida, até que pode render umas poucas palavras de deboche. Bilica não era um defeito ambulante, tinha lá as suas mazelas, bem dito de toda a cepa da verdade, mas por mais qualidades é que sobressaía nas delgaças do mundo. Se punha doida a cabeça do marido, fosse somente por nem isso, do acontecido, mas por coisas que ia somando e que se acamadavam,  ficando a cada minuto difíceis de serem aturadas. No dizer-se comum, tanto que uma hora a gota pode expelirse, de transbordo completo. Ninguém atura o tempo todo o mesmo disco furado, diga-se-o.

            Timarco tinha a vera habilidade para reproduzir sons, a música nele era um dom de nascida. Porém, em Timarco o que mais exuberava era a cadência de fazer com as mãos qualquer forma que desejasse. Bulia com pequenos gravetos, com pedaços de lasca atirada aos monturos. Surgiam os bois, os cavalos, um automóvel, uma face qualquer. Nunca houvera aprendido em professorado, mas somente apreendido de uma espécie de desequilíbrio fortuito que pode reger cada alma. Enquanto Timarco, sentado à soleira da porta da cozinha dava forma a um cavaco de angico, Pedronório andou ao rabo do fogão para um café, tipo boca de pito. No dia anterior acontecera a festa entre pai e filho, a dança desengonçada no quintal. Bilica estava convencida de que poderia provocar ao homem com seus muxoxos e sonsonetes de avesso molde. Fazia-o agora mais e mais, consciente da marca que provocava. Pedronório era vulcão manso, mas ainda podia deixar as lavas ao descambado do morro.

-         Pedonó, acreditei que tu estavas leso, ontem. Mas hoje vejo que estás somente meio normalizado de leseira, nem tanto hás de divagar! Viram-te pelado, lá das janelas dos prédios!

-         Sempre se dá o que se dá, independente do verbo todo doado! Olho não padece de cerca, como desejo de rumo desviado não padece nunca!

-         Tu me crês, ó Pedonó, uma zagaia quebrada para querer me embromar com esse me dá cá o que lá está? Não me confundes com a lábia. Grande símio, dançando pelado!

-         Bilica, em cada alma a chuva atura um azougue, lava outros. Quê que te dói menos que em mim? Estou cá a sossegar o facho, feito uma lagarta que enrola casulo e tu a me engodar!

-         Ah, cuá!

Serviu-se do café e observou o mole passo de Bilica em direção ao quarto maior. Timarco assobiava uma Quarta Sinfonia, como se aquilo fosse uma desinência retirada do ar. Bebia com beiço espichado o café grosso, de passado recente. Café ainda com aleluias saídas do louvor imediato do coador. Timarco dava uma gargalhada repentina. Para ele, tudo andava em normativas composições. Com os olhos apertados Pedronório lembrou-se, de chofre de seu enlace com Bilica. Uma assinada de papéis e tudo estava consumado. Sem mesmo entender direito o que movera a sua susceptibilidade em retardar a andada de toda a sua liberdade, recordava-se com jeito inerte do modo como fora tomado em bodas com Bilica. Como muito tempo era passado, calculava sem fazer muita força as somas que angariam certas tristuras em olhos de qualquer homem sincero. Se Timarco fizera seus vinte anos no mês de outubro que passara, se a prenhez gastara tempo de seis anos para se consumar, por certo que havia vinte e seis anos, para mais, que estava engastalhado na teia viperina de Bilica. E não havia como retroceder nem andar avante, pois que há coisas que se supõem por si mesmas em vida das criaturas. Algo que fica unido pelo inexorável, pois em sua vida jamais poderia supor que há enlaces que usam tesouras, facas ou navalhas para o arredar o rumo.

O crescimento da metrópole não deixava diferenças muito pronunciadas em vida do homem e da mulher, em prática sempre, refratários é que se contavam. Permanecidos. Timarco vindo ao mundo não estimulara em nada a mudança em um, em outro. Quando retornou do quarto grande, Bilica abriu os braços para obter maior espaço, oxalá para esbarrar às costelas do homem, no intuito de uma provocação. Era quinze anos mais erada que ele. Por ser um tanto mais avantajada em tempo, nascera-lhe nos últimos atilhos de anos, uma barbicha meio caprina ao queixo, com fiapos de pêlos mais encorpados, dois deles e que ladeavam uma berruga do tamanho sincero de uma ervilha. O conjunto dava um aspecto muito vassourado à mulher. Pedronório, todavia, não se ria daquilo, achava até que o charme da distinção numa trapizonga escurecida como lhe vingava ser aquela. E para Timarco, o sinal tanto fazia-lhe ser um mamilo quanto uma berruga, dava na mesma. De modo que, coisa e outra sendo dita, Bilica não se incomodava com os rolos de varizes que lhe brandiam às pernas, tampouco com a berruga que enfeava o seu cabedal de faceirismo. Coisas que são e o mundo não muda, também não. Meio arqueada e com os pés grosseiros arrastados ao chão, ela arengou diante do homem. Não conseguiu riçar as costelas, nem nada. Como a conversa do bailado não surtira o efeito desejado, Bilica tomou-se de novas armas. Havia que provocar, custasse o que fosse o custado. Ouviu o bufado calmo e inocente da égua Granfina diante da casa. O animal pacificado pela falta de montaria. Velhusca, balouçava o rabo contra as pragas de moscas. Bufava e sacodia-se. A anca já menor, somente o sexo permanecido em fruta.

-         Pedonó, homem de Deus, a minha égua está na frente da casa. Masca meus gerânios. Vá lá e leve a Granfina para as partes de trás, lá no meio do capim e dos cedros. Ande ligeiro! Agora mesmo vai estrumear em riba das lajes, em qualquer lata de flor.

Pedronório deixou de lado o afoito de acender um pito, sem nada responder, lançou mão da rédea dependurada à varanda e marchou. A égua Granfina era cria da casa, um presente que fora dado à Bilica por parentes seus dos lados do Rio Tijuco. Viera potrinha. Nunca dera cria. Com o tempo seus humores secaram, foram-se os cios e a égua tornou-se tão mansa, quão desdentada, quanto inútil. Em cidade grande não se vai servir de montaria. Mirablia era em dias de ano 2002 a era de estado e capital. No passado Granfina tivera a sua serventia. O silhão pequeno, tipo sulino, estava esquecido no escuro do quarto da sala. Bilica não mais montara na égua Granfina depois que a grande avenida foi aberta e envolveu a herdade. Pedronório ergueu a rédea e o animal olhou com seus olhos doces. Refestelava-se em um canteiro de madressilvas, um floral descuidado, pois que nunca fora do traquejo de Bilica a ordem nas coisas assim vindas ao luminoso do mundo. Sem meter o freio à boca do animal, sem outro recurso que não fosse somente o tacto, para que a égua percebesse a intenção, o homem  puxou-a para os fundos. Soltou a rédea apenas a viu entre as barbas do jaraguá. Depois, atento ao nada que assoberba as direções, voltou sobre os passos e dependurou a rédea torcida em vermelho e branco, daquelas que nem se fazem mais, tal a felpa que orienta a distribuição das fibras e dos nós. Rédea grossa, de encher a mão, boa de contacto, quando se é cavaleiro em toda arreata. Macia de algodoal. Andou ao bule de café e serviu-se. Na distância de uma mirada de olhos, podia perceber com clara evidência o rumor grande que viscerava de cada carro que passava. As buzinas, o matraquear constante de um bulício. Cada coisa assumindo uma composição de fagote doido. Embora ilhado, tinha os dias em que Pedronório Gouvêa punha-se numa espécie absurda de alienação, numa gastura que ele se dizia, algo mais que não fosse uma depressividade de momentos, como se seu mundo agora sofresse de cinta por demais apertada. Tudo ficava esquisito. Nem havia com quem dividir a modesta forma de seus sentidos, pois que Bilica era avessa a cada uma das sensações que supusessem qualquer tipo de delicadeza. Na verdade, que seja toda dita, Bilica esperava somente que as entrevadas formas do destino viessem inaugurar-lhe os fins. Timarco, dele nem se dizer o mais, não se devia ou se podia, porque Timarco estava sempre alegre em seus atavios, sempre alheio ao que fosse, pois que as dores para ele eram o somenos do sentir, mas apenas uma palavra que arruma consideração para ser pequena. Timarco jamais sentira as dores, aquelas que suprem a alma de solução, dão alento a uma melhoria de destino, se busca há e quando.

Quando passou com a rédea à mão, o pai percebeu que o filho esculpia um quinteto de flores. Entalhava numa peça maior de madeiro. Algum pedaço de pau que encontrou jogado por ali. Com seus olhos repuxados nos cantos, ele, numa vesgueira insolúvel, aproximava o cavaco dos olhos e verificava a posição das corolas e das pétalas, assoprava para retirar os excessos de cisco. Se Timarco aprendera a meter a sua quicé aos veios de pau seco, aprendera com Tião Neneco, um amulatado que vivera na herdade até os tempos em que viver ali era considerado possível. Sempre novidadeiro de consideratas, Tião Neneco andara para outros rumos quando deu-se conta de que havia decibéis demais em sua vida. Percebera que as tardes estavam muito estranhas para serem vívidas. Atirava a fumaça de seu pito de palha para os ares e sentia uma estranheza absurda dentro do que ele dizia serem as veias. Queria ir embora dali. Voltar em busca dos chifres que os cavalos carregam à cabeça. Assim dizia, de caçoada. Timarco via o ofício de passatempo do mulato. Via seu esmero em polir pequenos objetos. Assuntava devagar, sem nunca meter-se à distração. Timarco tinha a força de aprendiz. Olhava, revirava os olhos vesgos. Aprendia. Em pouco tempo já agia de melhor qualidade que o mestre. Depois, foi que as coisas mudaram e Tião Neneco foi embora para o Bom Jardim, reviver os seus tempos de mais descontração. Se tinha a cintura por demais apertada, atribuía um tanto do que estava a sentir ao corpanzil das quatro avenidas que cercavam a herdade. Porém, para Timarco ficou a facilidade e o gosto pelo cinzel miúdo: a pequena quicé. Aprendia com facilidade, nem mesmo o mestre entendendo o como ser assim fácil. O gosto que Timarco tinha de fazer somente a coisa bonita.

Enquanto o pai dependurava a rédea, espiava com o canto do olho a língua do filho que parecia não caber dentro da boca. A forma dele respirar – como se sempre sufocado por antiga gripe estivesse. Um fio de catarro sobrando nariz afora, a tilanga em direção à queda. Pedronório suspirou fundo e entrou na cozinha. A égua fora levada para as bandas de trás, tal e qual a mulher queria que o fosse. Não ia mais mastigar as madressilvas. Não ia mais babar ou estrumear sobre as lajes da varanda. 

Quando entrou na cozinha, Pedronório cruzou com a imagem da  mulher. De seu poder e persona, lembrava-se de sentir pena das mulheres mais jovens, por um nada é que sentia dó. Via uma rapariga na avenida, uma que podia estar esperando transporte coletivo, outra que comia um daqueles sanduíches com uma salsicha feia enfiada num pão desconfioso, por qualquer uma delas que fosse, sentia os olhos cheios d’água. Se não se cuidasse, o excesso de ternura embotava-lhe os sentidos e estava sujeito ao choro mais extravagante do mundo. Observava por longo tempo, concluía nada. Somente sabia que aquelas raparigas fortes, saudáveis, enfiadas em seus paramentos de jeans apertados causavam-lhe a comoção de um dilúvio nunca estanque. Sofria por elas, pobrezinhas, tão desamparadas no meio do mundo que se espezinha a cada dia, mais e mais, em tudo que se considere. Todavia, quando olhava para os rolos de varizes que toldavam as batatas das pernas de qualquer senhora mais idosa, pois que fosse mesmo por Bilica, não sentia a menor pena. De uma forma que também não podia explicar, sentia um tipo de revolvimento dentro das entranhas e uma necessidade comprometida de afagar o que pudesse num corpo daqueles. Em algumas vezes pensadas, chegava a crer-se amante das coisas que andam em decomposição. Se tudo tinha um comportamento que vinha de tempo mais antigo, os alicerces das coisas terrenas, mesmo que simplórias, alguma coisa dizia ao homem que seu entendimento podia ser acurado, se acaso fizesse dele uma aceitação. Pedronório não era nenhum paspalho. Sabia por quais as cargas de um universo as formigas podem carregar trinta vezes o seu peso. Sabia o tamanho de um buraco e qual a agulha capaz do cerzimento. Se sabia a razão de apreciar as anciãs, nunca podia se dignar a compreender por que razão mantinha-se infenso à beleza fresca das jovens que caminhavam em uma das quatro avenidas. Via as jaquetas estufadas pelos seios novos da dureza, a mocidade em si estancada. Tinha mais pena ainda. A inocência delas, ele se dizia. Sentia os olhos plenos de lágrimas. As coitadinhas.

Era raro que saísse de casa para uma coisa qualquer, mas por muitas vezes era obrigado a fazê-lo. Por seu exemplo mais claro, era preciso buscar óleo para as frituras, fósforos, querosene, sal, lata de extrato de tomate – pois que Bilica tinha verdadeiro amor por tudo que fosse enlatado, mormente os cremes de tomate extraídos. Na facilitação que impregna qualquer sistema de consumo, Pedronório atravessava a avenida e entrava em algum supermercado. Voltava com seus pacotes. Se acaso via uma dessas belas mulheres em suas andanças comuns, triviais, estagnava-se a mirar o comportamento de cada uma delas, ou de qualquer que fosse. Sentia, de imediato, os olhos repletos de choro. As grossas coxas metidas em moletons, em tecidos mais anárquicos. As nádegas destemperadas de jovialidade. Os olhos em maciça desordem. As bocas pintadas de batons escuros – coisa que podia fazê-lo chorar feito bebê, mormente se se atinasse a pensar em que bafo mora o cheiro mais profundo de uma boca limpíssima e invadida de saliva escorrida. Pedronório não sabia de certas coisas, mas bem podia imaginar com quantas canoas se deduz o pau do feitio. Os batons escuros em lábios quase descarnados. Pensava no impaludismo do conjunto.  A sensação que haveria em poder tocar aquilo com dedos, oxalá com lábios seus mesmos. O pecado fica grande em demasia, tem hora que sim. Podia chorar mais se forçasse o pensado sobre uma nudez daquelas. 

Serviu-se de boa talagada de café, o bule esquecido ao rabo do fogão. Timarco no assobio das sinfonias. Depois das chuvas despencadas, como era o acontecido de um dia antes, o tempo vigiava com um olho de sol despendurado. Fosse chover outra vez quando repingasse a tarde seguinte. Os olhos de Pedronório estavam desconfiados de que alguma coisa boa estava para acontecer na vida. Nem tinha daqueles calos no dedão do pé, daqueles anunciadores de boasvindas, de boas idéias. Somente um relevo de desatino, algo que punha nele uma vontade de comer algo que não podia ser definido. Assim como antojos, assim como desejos que emanam da saliva venenosa das mulheres prenhes. Bilica passou por ele, as tetas molengas fazendo a vírgula sob o pano puído do vestido. Uma pinta escurecida ao lado do murcho. Nada belo, nada demais, no porém. Com um risonho mordaz dentro dos lábios, a mulher lembrou-se uma outra vez do bailado do dia anterior. Iria dar mais uma agulhada ao homem, mas lembrou-se de que Pedronório tinha argumentos irritantes, capazes de desmoronar a sua vontade. Um ódio pequeno crescia em virtude dele, de sua notória necessidade de humilhá-la. Era assim que pensava. Se tinha os seus dias de docilidade exagerada, também os tinha de maquiavelismo. Podia defender-se. Acreditava que de uns tempos para cá o marido remoçava, enquanto ela simplesmente amargurava o tempo de seu esquecimento vivaz. Ia-se em boa medida, se bem o dissesse, em rumo da cova. Era assim, negar era o mesmo que assumir um acontecido de toda fantasia, os impossíveis que muitas vezes são. Lembrou-se de Granfina deixada aos fundos da herdade. Era um bom espinho a sua égua. Um modo repentino de levar avante a sua indigestão diante do homem posudo. Pedronório andava agora a chorar lágrimas de bagas pequenas quando mirava as moças que cruzavam as avenidas em busca dos colégios, mormente quando era hora do escurecido. Em joelhos, quando pousava olhos, escandalizava-se com sua emoção à superfície mais flor da pele. Pobrezinhas, donas de seus joelhos de vidro, quase que uma virtude de jóia.

-         Pedonó, homem de Deus, a égua vai derrubar as tapiocangas que seguram a aguada do Pedras de Fogo. Vai lá e traz a Granfina para diante da casa, longe dos canteiros. Ligeiro...! Se deixas em relento dos canteiros, pior fica sendo, que come até as raízes!

Num gesto seu, muito antigo de tempo, Pedronório coçou a cabeça, sob o chapéu, sem haver chapéu no lugar de uso. Coçou com quatro dedos. Andou à varanda e apanhou a rédea de trançado vermelho e branco. Assobiou em chamariz. A égua relinchou, percebendo um côvado de sal, de milho, qualquer agrado. Granfina estava metida ao meio do jaraguá. A cabeça sobrando para fora das alturas. Entre as falhas dos folhais dos cedros, viam-se as janelas preclaras dos prédios de apartamentos. Viam-se os raios de sol atravessados. Com o passo miúdo e mordendo a palha do cigarro, Pedronório atirou a rédea sobre o talo do pescoço do animal. Sem atar, como sempre fazia, somente para um obedecimento ao tacto, o homem fez a rédea cumprir a volta ao pescoço liso da égua. Puxou e sentiu os passos envolventes de Granfina. Em bufos pequenos, a égua caminhou até ser retirada da volta da rédea e deixada diante da varanda. Por ser hora de sol muito alto e o calor puxar para mais lado sufocante, viu-se a égua recostar-se à sombra de mangueiras fechadas, diante da casa. Alguns passos adiante dela a grande avenida regougava. Regurgitava de todos os ruídos. Granfina, um minuto depois, cochilava a bem merecido sossego. Estava sossegada, somente espanava ligeiro os bandos de moscardos que vinham de todos os cantoas do mundo. Usava a planura da vassoura do rabo. Lesc-risc. Sempre. Depois, dormia.

Pedronório dependurou outra vez a rédea. Viu a guirlanda de flores esculpidas à mão de Timarco. O formato inconfundível, aquele que era o registro final do rapaz. Sentiu uma certa paz ao ver o madeiro transformado. O silêncio pleno que vinha do filho. Se havia apenas um dia estivera nas euforias de chuvarada e bailado, agora estava sóbrio. Mesmo se fosse questionado, por certo Timarco manter-se-ia dentro de seu conchavo de silêncio. Era difícil fazê-lo incorporar-se aos sons da cidade. Sentou-se à varanda e esperou. Se tivesse sono, largar-se-ia a um cochilo. Depois, lembrou-se do que fazer. Um nada de importância. Precisava urdir, mas não sabia o que era. Tinha uma coisa para afzer. Esquecia-se da importância. Queria comer uma lgo diferente. Não sabia que gosto do que era, o que fosse. Perdia a vez de uma solução.

-         Bilica, quantas horas são no momento?

-         Não estás vendo o relógio aí na parede, bem diante de teu nariz?

-         Liga o rádio na PRG-9, quero saber hora de rádio, não hora de relógio!

-         Tu está estafermo, ó Pedonó, PRG-9 é rádia do tempo em que lingüiça era ditado de cachorro amarrado!

-         Liga o rádio, ó Bilica, quero saber as horas!

-         Imprestável!

Pedronório, ele mesmo, ergueu-se e buscou o botão largo, a roda que ligava o rádio. O aparelho deixado em riba do guarda-roupa do quarto grande. Sabia que Bilica não ia fazê-lo. Estalou o maquinismo com o regozijo de bem-estar. Embora velho, o rádio era conservado como outro nem devia haver. O estalo curto, azeitado, tudo dava ao homem a segurança de um progresso que não precisava ir além daquele que já fora conquistado. As avenidas largas e plenas de grande movimento eram exagero para seus modos pertencidos, simplórios. Gases sufocavam a sua liberdade. Precisava ir aos fundos, à beira do Pedras de Fogo e liberar alguns gases. Se o fizesse, em sonoridade, com Bilica na escuta, seria o desafeto maior. Daria a ela a oportunidade de mangar de sua saúde física, de sua empreitada moral. Para Bilica, flatos eram a desagregação de todo processo religioso, como se todos os demônios dos infernos viessem ao mundo ordenhados por grunhidos finos e grossos de todos os cus que flanam. Mania dela, como se em seu organizado, por dentro, nunca houvesse o gás para ser expelido. Escapamentos alguns, os feminis, sem direito ao livre de expurgo.     

As canções soaram em processo de metrópole, não por elas mesmas, mas por um processo de desnaturação de todas as vontades. Pedronório sentiu, todavia, grande alívio, pois que os sons de Bilica foram todos atemorizados pelo cantar repetido. As canções que as pessoas crêem que podem e querem  ouvir. Em espera de ouvir-se o locutor dizer as horas que eram, como era de ser acontecido há trinta anos passados, quando as Pedras de Fogo corriam livres em direção às ravinas de um mundo aberto. Com o crescimento alentado, exagerado de permeios, a Cidade perdera muito de seu festival de alegrias. Havia agora, no sempre que se vislumbrava, a pressa e a arrogância de um tempo que devia imitar, a preço qualquer, as bazófias de qualidade de um mundo paulista, ou coisa que tenha um valor semelhante. O estado do Triângulo pululava em suas investidas rumo a um século apregoado como milênio, como se tudo não passasse de uma continuidade de tempo, assim bem como à ramagem da mandioca nasce a raiz e cresce seu retrato branco terra abaixo, crosta adentro. Diante do espanto ante o seu mundo que era imutável, pelo menos enquanto pensado, Pedronório ouviu o assobio ligeiro de Timarco. Um sorriso tomou conta de seus lábios, tenro. Não obstante o sussurro de um desconhecimento em seus ouvidos – ante as coisas que carecem de baliza -, o homem percebeu com clareza quando a voz da mulher soou uma outra vez em seus hábitos. Vinha de repelente ironia, uma mordacidade crescida, porquanto: mais que qualquer ironia.

-         Pedonó, a Granfina está em frente à casa. Pisoteia as violetas. Vá lá e leve a égua para os fundos!

-         Cá não há violetas, somente margaridas!

-         Pois pisa as margaridas roxas!

-         Margaridas são amarelas, ó Bilica!

-         Somente de noite. De dia arroxeiam o passo da égua! Também, o que é roxo e o que é amarelo, senão uma dúvida de luz!

-         Ó caralhos!

-         Ligeiro. Cuida de ver o que há!

-         Ó Caralhos!

Diante da voz definitiva, Pedronório sentiu comichão. Bilica jamais plantara violetas ali. Se havia margaridas, nenhuma nascera a não ser por obra de parte em vento. E somente. Dálias ele mesmo plantara, porque sabia que dálias variam na cor a carga do mês em que deslumbram. E se no ano seguinte a terra relembra a festividade do ano que passara, faz outra vez a semente anunciar o rebento sempre renovado. Dálias eram a preferência de Pedronório. Se nem carecem de água em tempo de restrição, admitem uma franqueza especial em sobrevivência. O pobre animal não tinha nada a ver com a intenção absurda da mulher, a sua vantagem em causar uma provocação qualquer. Pedronório, absorto de uma moda embasbacada, ergueu-se sem estar sentado, vislumbrou a trança vermelha e branca da rédea e seguiu caminho. Granfina pastava em remoer, quase escorada ao tronco de uma árvore de canela. Com jeito ainda sossegado, o homem lançou o cabresto e sem amarrar, sem subjugar um nada, puxou a alimária para os fundos. Deixou a égua solta entre os tufos de jaraguá. Entrou em casa e percebeu a afronta pronta estampada nas faces de Bilica. Timarco olhava de esguelha para o mundo. Acabara de confeccionar uma sereia bem no centro de uma flor aberta. Assoprava os ciscos. Olhava contra a luz. queria imaginar um jeito de pôr sexo à sereia? O pai pensava que sim. Depois desistia do pensamento. Timarco era somente flor. Nenhum caule.

Entrou e ouviu a hora falada em rádio. Fossem as três e quarenta e cinco nos estúdios de nossa atividade. Com a alma lavada pelo que havia escutado, e assobiando uma guarânia dos tempos esquálidos, Pedronório sentou-se à varanda e mirou a face do cão. Desconhecia o que mais fosse de todo entretenimento, o observar da faces de um cão não é diversão para qualquer momento. Bolero não mais agitava a cauda quando tomado como referencial de um mundo. Estava velho e cansado para se converter em somente uma coisa que existe à revelia de contratempos. Era peça não mais da casa, mas de seu único e somente estado de existência.   Em um momento de sua mais estapafúrdia colisão com o mundo, olhou bem fundo, como pôde, dentro dos olhos do animal.  Ligeiramente espantado com aquele confuso estado vespertino, o cão deixou que os bagos dos olhos dançassem entre um ponto do chão e aquele onde estavam os olhos do homem. Uma espécie de desgaste tomava conta do animal, sendo que ao homem surgia o pleno desconhecimento, o alheio quase que arguto e completo da criatura que com ele convivera por larga faixa de existido. Bolero estava ali há muitas curvas, nem soubesse o somado todo, Pedronório teria as dificuldades para o cálculo. Era, na certeza de todo a almêcega, mais velho do que Timarco. Abaixou-se mesmo, o homem, na tentativa de fazer com que os olhos do cão deixassem de dançar de um ponto a outro. Queria mirar mais de perto. Bolero desgastava-se com aquele brusco intrometido em sua mais recôndita intimidade. Cães têm a sua intimidade, confidenciava-se Pedronório. Pode ser que sim. Quando percebeu que não havia como fugir daquele interlocutório bizarro, o cão ergueu as orelhas, lembrando que ainda havia nele a parte lupina de uma reação, a banda de jungle que ainda dá partes de retrato. E num gesto inesperado, fitou o homem bem mais dentro de todos os olhos que os olhos são capazes de suportar. Pedronório descobria no animal uma caverna até antes desconhecida. Os olhos do cão eram de um negro torpor, coisa de breu, espinho que mete dificuldade à travessia da luz. Por sinceridade própria daqueles que não assumem culpa, por uma nesga de segundo, o homem teve um medo bobo do cão. Pudesse ser mordido. Bolero era moça prendada, quase, se não fosse animal. Brincava valsas com Timarco, protetor. Brincara demais.

Bolero estendido à varanda deixava os colhões graúdos na sobra do quarto traseiro. O couro liso daquilo, mais brilhante e escuro do que o restante do corpo. Nem era cão que mais fosse atrás das cadelas ciosas. Não mais pulava o muro defronte da herdade em busca das aventuras. Nos tempos em que ia, voltava e arranhava o portão para que lho abrissem. Gania. Mostrava as chagas de lutas, feridas abertas nas patas, o focinho com mordeduras maiores, outras menores. Cadelas que valem a pena, somente pelo cheiro de salmoura sangüínea que emitem a favor dos lábios de vento. As delícias que demonstram que tudo gira em torno de um objetivo único: fome, sede e reprodução. De qualquer forma, diante de seu cão, Pedronório sentiu uma espécie de sedução absorta. Em seguida, quando soube que o animal podia sustentar o seu olhar, precipitou-se num abismo estapafúrdio, incontrolável, como se em tudo que se dispunha a inventariar – como num experimento – houvesse um desgosto sempre crescente e magro. Bolero media-o, bem dentro das meninas dos olhos. As orelhas pontudas, armadas. Olhos negros, sem lugar de mecha, ausentes de pavio que bem pudesse largar a deixa de um ponto onde se ateia fogo. Sem haver solução outra, agora que não mais podia recuar, fazia força de titã para não ceder ao desafio: sustentar os olhos do cão. Todavia, o caso não ia de boa continuidade. O cão vencia. Uma outra virtude apanhava-o de meada, uma vergonhazinha do tamanho de um vôo de vespa. Pedronório ia perder a batalha. E a refração, seguinte, de que teria que abaixar os seus próprios olhos. O brinquedo dava o revertério de uma resultado. Não era mais o medo de ser mordido. Era outra coisa, medo outro que ele não podia definir com sobriedade. Uma intenção absconsa de correr. Arranjar um serviço que o distraísse. Bolero tinha a força de uma imoralidade. Bicho avesso.

 Maldito cachorro. Sem haver como se confessar mais absurdez, e sem querer arquear os olhos ao chão, o homem passou o dedo à testa que suava e recolher um erário de suor. Como se faz um estilingue com o dedo, atirou o líquido rejuntado entre os olhos do animal. Houve reação e ela foi imediata. O cão rosnou e arreganhou a dentadura. Jogou o pescoço adiante e tentou morder o dono. Bolero não tolerou a forma desonesta do outro perder. Era injusto e amoral. Pedronório recuou, imediato. Fazendo-se de alheio, de indiferente, recolheu-se à cadeira, e assuntou a disposição dos sabiás na faina de alimentar filhotes, num galho de articum, bem diante de seus olhos. Fingiu não perceber  que o cão voltava a deixar a cabeça entre as patas, mas sempre com orelhas fincadas. Bolero era flácido de nascença. Se mantinha orelhas pontudas, era por novidade. Era argumento de dignidade; e somente.

Porém, de uma certa coisa podia se assegurar. Tinha muito mais intimidade com o cão do que com Bilica. Acaso não fosse assim, alguma falha a vida deixava em todos os verbos que ele não podia assegurar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A

lgum tempo se deu em que Pedronório assuntou-se dentro de uma paz reinada. Bolero adormecera de toda pedra. Timarco cantarolava suas canções numa língua indecifrável. E era fácil que se ouvisse os estalos adocicados que a égua Granfina emitia nos fundos, entre as beldroegas e o capim jaraguá, as moitas de juá bravo. Pensando nas reticências que havia visto em velhice do cão, o homem sorriu largo, como se aquela reação fosse esperada. Se o homem pode mais em inteligência do que qualquer animal, então que aquilo ficasse somente um segredo entre ele e o vazio. Nem havia com quem comentar  uma leseira assim. E pronto. Pensando, devagar matutanto, sentiu que as pálpebras pesavam-lhe um pormenor. Cochilou com o pito de palha dependurado aos dentes. Ouvia na distância o pio breve do sanhaço nas laranjeiras. O agudo tresmalhado de muita longevidade, pois que sanhaço é o rei das infâncias e o memorial das maturidades.  Foi despertado alguns minutos depois com uma buzina de carreta que atravessava a avenida. Podia ver, ao longe, o cano de descarga que subia ao longo da fuselagem. Se não fosse um cano de descarga, caralhos fosse aquilo, imaginava o homem, ainda mergulhado num sonho em que chorava, cântaros, diante de uma normalista vestida com saiazinha xadrez, da mesma marca daquelas que havia em vinte anos passados, ali mesmo, quando a avenida era somente um esboço de caos. Ou então, há quarenta anos atrás, quando a avenida era somente o embrião de terra firme, descalça, tomada de outras herdades de lado a lado e somente uma praça descambada para os lados mais além. Nem tudo longe, apenas todo o perto de tudo. Dentro das noções que são e que se consomem, o que há longe, o que se fixa perto, cada coisa em monturo de espaço e relatividade. Para a herdade: coisas perto; a Cidade: longe as coisas.

            Firmou os olhos ao longo de um gato amarelo que caminhava lento sobre o fio do muro de tapiocanga. Um gato muito pachorrento. Veio-lhe o sono, outra vez madornado. Teve, porém, que arregalá-los uma outra vez, pois que a janela abriu-se, a que dava para a varanda, e surgiu por detrás da fenestra a voz enjoativa de Bilica. Acabara-se o resumo de haver outro sonho na agulha, pronto para ser disparado. As moças que iam à escola sumiram no catavento do que estava real. Com olhos úmidos por uma lembrança tão de rendasm as alvíssaras, Pedronório escutou o que era o agora. Estivado de ser todo ouvidos, assuntou o que Bilica dizia.