A Nascente das Pedras de Fogo

Romance
A Nascente das Pedras de Fogo
A Nascente das Pedras de Fogo é oferecido ao queixo dos lagartos
prognatas
<Calor interno depende da densidade do corpo.>
Pólen
Novalis
Tudo o que conforme anda
no romance A Nascente das Pedras de
Fogo é puramente fictício. Não há noção de realidade em formato. A
Cidade escolhida para o enredo que panifica o fundo, se foi Mirablia,
somente encarrega-se a pujança do lugar como mérito e valor, já que por
lógica e divindade, nem caberia outra estagnação para melhor apreço. Pela
irrealidade – ou ficção - me responsabilizo, pelo progresso faz-se voto,
alhures.
Prefácio
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T |
odo prefácio para meus textos eu mesmo tenho feito. A razão de tal recurso já foi amplamente comentada em outros pedaços. Todavia, fazer prefácios próprios é como arriscar-se numa cegueira e comentá-la. Há cerca de tempos antigos meu trabalho tem sido o de arriscar com o espírito da palavra e o corriqueiro do espaço branco. Da reticência que nem chega a ser expressa. Entrevias, o que pode ser dito de entrelinha. Há uma sub-limidade grande na entrelinha. Se a palavra densifica, a entrelinha texturiza. Cose e relambe de um lado para outro. Houve uma invasão grande na massa do que pode ser chamado de palavra, a ponto de uma certa vulgaridade cursar com o facto. Como em quase tudo que é invadido costuma haver a confusão, a própria palavra perdeu o jaez de mina e acabou sendo um suspensório que não segura as calças. A entendida parte que ficou entre os candidatos a poetas é que, em sendo, em não sendo, tudo o mais confabula numa escorregadia enxurrada de valores. Se alguns são providenciais, melhor fica sendo o que se aproveita. Senão, quase nada se aproveita. Ou nada. Dizer-se que palavra e Mallarmé são criaturas idênticas é um fundamento de antigüidade. O que se busca resgatar em muitos poetas é a emancipação própria, portanto inteligível. Ocorre que o aluvião fica sôfrego. E a confusão grassa mais e mais entre o que é texto e o que não é. Sentir com o senso enovelado, depois disperso entre uma ponta e outra é coisa de um fundamento difícil de ser aceito, que dirá de ser explicado. Quando não se pode explicar uma coisa, melhor pode ser que uma satisfação já seja o senti-la. Houve um tempo em que saber a poesia mais qualificada era sofrer o susto dela. Caber no riso que a construção impunha e na decisão franca que a parte não dita dispunha, isto é, a entrelinha que nem existia, nunca existiu e jamais vai haver. Por ser arte e artimanha, o escumar de poesia é coisa para uma prosa muito comprida. A languidez das cisões e das junções pode ser acúmulo dela. Sofrer o susto da poesia, o objeto de uma causa. Já que cada qual se assusta de conformidade com o que o alumbra, há relatividade no encorpar a fatia da poesia. Mas a relatividade maior parece ser dependente da entranha da subjetividade, já que o objetivo – nem por certo mantenho a certeza, estou a elaborar um prefácio meu mesmo – é somente o incrustado na peça manhosa da Arte mais pura. Aliena-se assim o que demais houver. Tudo gira num novelo desmedido de cores e de alucinações. Tudo que vira nata acaba sendo o imortal. O demais entra pelo ralo e ganha as correntes do desfeito. A palavra vai junto, como se fora feita de confete sem âncora, oxalá de âncora sem confete. A entrelinha, já que nunca existiu, nem precisa de corrente rumo ao mar para se desfazer. E em espiral de alegoria, tudo que sobra acaba sendo o vigor da Estética, ainda que prato de solução difícil para as digestões mais ou menos avestruzes.
Capítulo 1
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O |
lugar assumia a cor de tempo, uma placidez de todo eternamente, sendo que coubessem eternidades em trivial do ser acontecido e do que ser para o acontecer. Dizia-se, quem visse, mas que qualidade irreparável põe o mundo em certas, por mais erradas, as circunstâncias. É que há invejas que dependuram uma insensatez no homem que já clama por ser invejoso, nem podendo se livrar da maldição de uma coisa que até que nunca o apega de conhecimento em querer, mas no dominar. Assim, muitas criaturas pensam, somente no soletrado de haver a inveja, quando replantam a vista sobre o quaquaraquaquá de um lugar. Outros que apenas falam, benza-nos Deus, que são tantos os redemoinhos de um mundo e cá, onde a vista assenta – como o pouso do gavião -, vê-se o sossego de um preservado de jeito. Mas, são muitas as arrelias do que se sabe e daquilo que mesmo é mais difícil de se balancear – ou balançar –, assim, em cada cabeça tomba uma sentença e não falta formiga sobre a terra que possa dar conta de revirar a massa em uma água de barrela. Assim sempre foi a cabeça de Pedronório Bueno de Gôveia, o conhecido apenas pelo primeiro som de estampa, por mais fácil que seja o ouvido e a língua, lá com seus brados muito sísmico de ser, mais por influência de uma personalidade sangüínea do que próprio por toda a coragem que diz atar com mãos próprias. Pedronório olhava o vento e vinha com a sopa pronta de onde ia ser a chuva. Acreditava que uma prática de sossego tem mais império para uma criatura, mesmo que mais ilusões inventadas sejam as admitidas. Se falava por via das bravatas, era com coração tênue de passarinho novo que punha as ações em acontecido. Nunca se esquecia de que mais vale a visão para a cabeça, do que um sonho de pedras debulhadas. Em outras palavras, para seu manancial de existência, quem não vai para o céu não adianta olhar para cima.
O lugar, deveras, assumia a cor do tempo. Pedronório estava sentado à varanda e assuntava a imensa sombra que mora no silêncio. Se vinha uma sonata de abelha e zumbia uma diversidade, nele sempre aquilo podia passar despercebido, por ser o seu modo, umas vezes, muito mesmo desapercebido de alguma comoção. Acostumado com a lida da forma descosturada de grandes ambições, para ele tanto valia o zumbido quanto a carga do mel. Naquela tarde, porém, ia chover antes de um bem-te-vi desconfiar que é amarelo. Antes do amarelo bispar que é ajoujo de bem-te-vi. Remoinhava o que se saber. Vento que anuncia chuva tem melado na destilaria. Era adivinho das coisas da terra. Coçou um começo de frieira doce entre os dedos maiores do pé. Olhou, somente com modo de ver se minava olho pretinho de bicho-de-pé. Ia chover, porque toda vez que a flor da goiaba assobiava a cor branca contra um instinto – mais que um desejo – nele o sofrimento de um sossego deliciava o mirar das coisas em sala de varanda. Pedronório era abrupto para tudo que fosse sensato, era muito aguçado para tudo que fosse insensato. Quando rememorava a sua história de cortes e rumas, uma espécie de ver a vida, de trás para frente, num modo ofegante, deslizava pelos seus incêndios. Boa parte de sua vida estivera a gravar estatutos vazios à varanda. E sempre concordou com o estalido do som, que uma viagem começada num canto de qualquer garrinchinha vale o dobro de uma falta de explicação. Como espiar a dança dos bate-bundas contra as águas estagnadas, os lodos. A simplicidade não acha preço de compra.
Pedronório marcou com o dedo em riste de onde vinha o
vento. Chupava a ossatura do dedo e erguia o molhado. Ventos que vinham bem da
descida das serras e dos lados do Amanhece.
Surgiam outros, no torvelinho comum de ventania é que montavam. Havia um
silêncio muito translúcido na hora do movimento: como ser a hora de vir a
entrada em cinco horas da tarde. Vésperas de toda luz revirar para lusco e
fusco. Erguia de novo o dedo molhado com saliva. Decerto era a chuva que se
denunciava em vinda. As coisas simplórias sempre nele faziam um cortejo antigo.
Todas as coisas acontecidas tiveram o seu papel amarrotado em vida. Como nem
pudesse ser a diferença, pois que o mundo sempre funcionou por tacanhas, as
suas demandas. Como para quem todo entendido sabe que é, um pingo já é chuva,
letrou-se que desandou a chover as bagas grossas que vinham com os ventos das
bandas do Amanhece. Ou de qualquer manancial de rocha escura que circunda as
beiras do Rio Paranaíba ou das Velhas. Desde que se recordava por gente que
pensa, Pedronório nunca havia arredado o pé dali, do lugar. Então, porque tudo
cresce e tudo vinga em gavinhas e molho de heras, o homem envelheceu e viu que
a cidade tomava conta e tento em torno de seu espaço. Fazia uma boca, cloacava
e envolvia seu corpo e parte de seu domínio de uma forma irrevogável. E não
havia como o ferro estalejar diferente, o concreto, o aço e o asfalto que
corriam e cresciam ligeiro. A construção vicejante de tudo que agiganta e põe motivo
a uma Cidade ser sempre grandiosa. Os progressos que não podem ser cerceados
por uma simples vida ou herdade. O homem sabia que seu limite era o estado de
uma inépcia diante do que surgia. Não havia como esbarrar o que o mundo criava,
gusa, enormidade e leva. Tudo ajuntado e formando a bandeira aberta do nomeado,
o progresso que se vê.
Mirablia era a densidade sem controle. Tudo era grande.
Tudo exuberava em mais e mais, sem nenhum óbice de maior pedra que agredisse
uma estampa de cerceio. Havia os progressos de todo céu aberto. Pedronório
nascera e fora criado ali na nascente das Pedras de Fogo. O ribeiro com as
mangas curtas da frieza que nasce com a alma da pedra. A chácara miúda, de seus
poucos hectares viu-se agredida em alças, toda a cidade grande crescera em
torno dela, a ilha que navegava solitária e entre as unhas de Pedronório. Se a
chácara era miúda, quando passou a estar urbana, crivou-se de ser um mastodonte
sem começo, sem fim quase. O mundo ali, porquanto o bulício em torno fizesse a
serpentina do grande ensurdecido, agia na qualidade de uma reserva de
passarinho plantado no meio do estouvado de urbanidade. Sentado à varanda e
tomado de um grande estupor de identidade, Pedronório confortava-se com o grito
somado do bem-te-vi e de uns passarinhos sem nome, de re-pio doce, que
esvoaçavam em buscas das aleluias do mês de novembro. Mirava a história como se
fosse dela a cabeça de uma estátua, meio infenso, mas com olhos denunciadores
de uma experimentação incontida. Havia marcos grandes nas coisas mais humildes,
disso ele não retirava a dúvida. Quando o silêncio era mais potente e que a
chuva invertia as bordas verdolengas dos sons com seu crepitado sobre as folhas
da taiobeira ou do inhame bravo, uma buzina de ônibus resplandecia na orla de seus
sentidos. Pedronório estremecia e coçava outra vez as frieiras entre os dedos.
Olhava através da luz coada pela chuva. Lembrava-se de coisas que ofegavam seu
passado: cada acontecido. Toda pressa não resume a boa chegada.
Todo envolto, Pedronório desconfiou, somente muito de
parte tardia, que seus costumes eram avessos ao antigo, eram avessos ao
moderno. Plantado em sua herdade miúda para ser rural, grande demais para ser
urbana, seu relacionamento com o mundo ficava entre o doce e o amargo, entre a língua
e o céu da boca. Estava ilhado e sem remédio. Pelo menos em aparência de
solução. Por tais referências e sendo como era, refletia as coisas como até que bastante engraçadas. A vida
valera a pena, nem outro bestunto mais o martelava. Crescera a cidade em torno de seus aviamentos mais
elementares. De cuidado em cuidado, na malsã olhada de um revertério imediato,
via-se acuado sem sê-lo, pois que morava em si a pachorra suficiente para mais
um século de sossego, acaso vida mais houvesse para tanto. Um restilo sempre
aprouve um fim de expediente, no mais era somente esperar para contar quantas
frutas a árvore vai dar. Assim. Sempre é que cuidou-se: assim. Na mesma olhada
em torno, Pedronório contava as inerências de como ficara em vida. A cidade toda
enorme. E com ele, nada demais, nunca esbarrara nenhum compromisso do mundo com
o progresso. Muito até que pelo contrário, dele adjudicara feito o cidadão que
sempre anda em doravantes. As Pedras de Fogo tornaram-se uma curiosidade, de
dizer-se a verdade. Cada cabeça que surgia por entre as paredes de edifício,
cruzada de buraco de janela, pensava que ali dentro do seu lugar de Pedronório,
o mundo fosse uma alienação.
Diante da varanda, ela meio retirada para o meio dos
abacateiros e algumas aroeiras serenas
de antigüidade, passava a grande
avenida que cortava o coração da Cidade em partes iguais. O ruído grande das
acomodações, as viaturas com buzinas longínquas. Pedronório admirava-se da
distância curta que ficava de ver-se a
torre da catedral da Cidade. Restaurantes em concatenado de hora com as pessoas
vivas. Impressos de néon de grande
bancos. O mundo é muito estouvado de bancos. Tudo fica resoluto quando se fala
de bancos. Chega dar estremecimento nas criaturas. O homem, da varanda, coçando
uma frieira entre os dedos do pé, mirava a torre moderna de uma grande
multinacional. Que coisa é o mundo. Estupidez pouca até que é alguma bobagem.
Que se diga. Pedronório considerava as questões com um forno de simplicidade. Ria-se de tudo que acontecera
até então. Fora pego desprevenido. A Cidade estava em torno dele, fazia uma
cintura de aperto e ele estava com as calças nas mãos. Grande maçada. Diante da varanda, dando tropel de um minuto
ganhava a avenida estrangeira, galuda, enorme e dona de silêncios sempre
quebrados contra a ambigüidade que é a eclosão do som. Havia, portanto, muito
afã em se considerar as coisas. Por falta de barulho é que não ia haver-se com
tristeza. Guinchos, safanões, brecadas. Barulhada diversa.
Na banda de trás da herdade, logo atrás do lugar onde
nascia a água pouca do Pedras de Fogo, num recurso de grande guirlanda de
cedros, oito deles se contados em dedo, via-se a construção herética e
moderníssima de um conjunto de apartamentos. Se bem se pensasse, as criaturas
que morassem no lugar contavam como duplo merecimento de alegria. Uma delas, o
centro da cidade – grande fortuna de conforto. A outra, haver sob o nariz a
perenidade constante dos ares puros que nasciam das folhagens dos cedros, das
aroeiras e até da pimenta-de-macaco; o frescor assíduo e asseado que se
promovia da nascente do ribeiro, a pedraria que guarnecia o minado. Pois que
nem sempre sói ser assim, comum é que aguada nasça de barro amarelo ou
cinzento, apodrecido pelo jus e repetido que vinga em coisas de paul. Nascente
em cascalho ou pedra já é requerimento de luxo, divindade que a muito poucos
pertence ou serena.
Tomando os lados e fechando o paralelepípedo que compunha
a gleba inteira, corriam fartas duas outras grandes avenidas que desabrochavam
céleres bem no cerne daquela, a maior e que urrava diante da varanda, no
retirado do minuto de marcha folgada até a porteira fechadora da posse. Pedronório fazia seus versos, seus reversos.
De tanto embevecer-se com a latitude de todos os mundos, dizia-se que um homem
é uma ilha, oxalá uma restinga cercada de automóveis por todos os lados, menos,
em caso especial dele, pela banda que a terra come: a sola dos pés. E por cima,
que todo céu é o arbítrio que tanto pertence à folga do sanhaço quanto ao
cérebro fresco das chuvas de qualquer tempo. Alegrias é que são a lucidez de
uma vida bem entabuada. O inerte mundo do sossego vale muito, não adianta caçar
chifres à cabeça das éguas, ele sempre se repetia, mesmo quando andava sozinho
entre seus arvoredos.
Quando olhava as coisas mais simplórias que demandam a
existência assim sem cálculos, Pedronório via o despencado da chuva de
novembro. As fatias sublimes do som que vinha e batia das cumeeiras, nas folhas
desdobradas do inhame bravo. O nome do Amanhece surgia no embevecido da hora.
Com os pés descalços de todo o momento, de toda a atribuição que não fosse uma
contemplada de inutilidade, o homem estirou as pernas e deixou que as folhas do
inhame bravo distribuíssem farta água de chuva entre os dedos de seus pés.
Olhou em torno. O sossego das cinco horas da tarde anunciava mais aleluias e
perucas – pássaros de pio doce como um sonho com marmelos maduros – esvoavam em
torno de cada folha, em cada resumo de angico ou goiabeira. Havia o véu cinza
contra a avenida. Tudo esfalfava de resumos e rascunhos. O mundo é assim, um
rascunho que nunca precisa ser passado a limpo. Pedronório sentia a água
espessa entre os dedos. Sorria daquele brinquedo. Merdas são outras vidas,
pensava. Homem e ilha, a queda da falta de espessura em outra matéria melhor.
Deixou as botinas debaixo do banco largo. Estirou mais e mais as pernas de cabo
fino. Viu as sardas delas. Arregaçou as barras das calças. Molhou-se mais. O
vento evertia o delgado bulício em folhas da taioba. Êta mundo denunciado,
pensava Pedronório. Oravejas! Quanta
baga de chuva, tanta: cachorro hoje bebe água em pé. Dizia. Reolhava a
imensidão que é a desnecessidade de explicar a quem vem, o porquê do orvalho,
quiçá da chuva.
As buzinas nas avenidas perdiam, ligeiro, o som entretido
da azucrinação. O homem observava o sanhaço de coqueiro no ir e vir. A ninhada
fora posta na catana da guairoba, tão logo se chegava dela o pé à porta do
terreiro. Pedronório tomado de uma atitude de ser um menino na toada da idade
que tinha, os bem ponderados cinqüenta anos na cacunda, surpreso com a euforia
daquele momento de aguaceiro, viu-se com as estrepolias bem arrumadas.
Despiu-se das calças e tomou-se tento somente em ceroulas. A cortina densa da
chuva protegia da indiscrição de todos os olhares. Estava ilhado. Por trás, nem
se preocupasse. A herdade era toda protegida de cada olho. Invejado de ver a
passarinhama na cata de aleluias, o festival enquadrado daquilo tudo, havia que
participar, por quanto e tanto tudo era somente a algazarra do nome dito. A
própria algazarra que tomava-lhe pulso. Atirou as calças sobre o banco. Bolero,
o cão cabeçudo, estirado no seco de um tapete de juta desfiada, olhava a
intempérie meio absurda que assomava em torno.
Chuvas densas vindas de lugares longos. Beleza de se estivar em olhos,
que tudo sendo, o como é, que tudo no mundo há de puxar a sua graça. Pedronório
ria-se de ser assim aprochegado numa traquinagem. Bolero olhava com finos olhos
vermelhos. O homem danava uma loucura de saracura em madrugada, pueril. Ia entrar
sob a chuvarada. Ia regar-se. Regalar-se. Um bando que lhe lavasse as almas e
as picumãs entranhadas ao espírito. Melhor que chuva nada mais limpa. A
virgindade de todos os elementos descendo das alfombras finas dos céus. Atirou
a camisa sobre a calça. Bolero gemeu e bocejou. Farejou a imensidade que dorme
com a luxúria dos homens. A simplicidade louca que advém de cada estação. Cão
sabido, preguiçoso. Os olhos rubros com pálpebras caídas, a raça cabeçuda que
nem existe mais. Bolero era relíquia.
Quando bispou de meter o dorso no umbral das grandes
goteiras que desciam, Pedronório viu que Timarco estava nu, nuzinho, que nem se
supusera ao mundo, bailando uma retreta besta diante das árvores mais para lá.
Timarco gritava, lá com seus trejeitos de dificuldade. Emitia as palavras
decepadas, aquelas das quais podia laçar em um entendimento de uso. Gritava,
trespassado de uma alegria larga, contagiada de si mesma alegre. Timarco não
podia dizer as primeiras sonoridades das palavras. Decepava sem se notar, por
vezes, mormente quem com ele jazia no costume. Dizia cavalo, dizendo avalo, dizia coqueiro dizendo oqueiro. Nascera assim o Timarco, não por nenhum susto é que ficara a
dever ao som, o som a dever a ele. Sem sestro, somente uma forma da língua
haver-se em cabresto qualquer.
-
Huva,
iva a uva!
Voz de Timarco
cruzava o arvoredo. O bailio destrambelhado. Vivas à chuva. Quando o pai viu
aquele fuzuê do filho, sorriu também à grande. E gritou igualdades. Acompanhou.
Despiu-se das ceroulas de pano grosseiro e entrou de vez na torrente. Desabava
o mundo. Timarco executava os passos que podia. Os braços curtos demais para um
corpo quase grande, o abdome descendo em aba sobre o implante do escroto. O pai
viu os cabelos ralos e meio sararás do filho. Regulado de seus vinte anos,
Timarco era diferente de protótipos de normalidade. Tinha a lucidez de ser
independente de tudo e de todos. Tinha a desfaçatez das impudências que deixam
os outros em constrangido. Por soma, Timarco era especial.
-
Ança
omigo, Ai!
-
Viva
a chuva!
Timarco queria
dançar o todo que bem fosse da hora. Agitava os braços curtos, e deixava bagas
grossas caindo sobre a língua. A língua mais longa que de tamanduá, não fosse
grossa, como bovina textura. As orelhas dobradas, de um modo muito particular,
tapavam-se com o cabelo escorrido, escorrido de mais água. Liso que fosse, como
se diz ser o escorrido de quaisquer cabelos. O dito por voz comum. Era assim
que Timarco resplandecia diante do pai. Pedronório perdia em tamanho de língua,
mas também deixava a sua para a doçura da água refrescar. Tomado de seu espanto
momentâneo para dele se esquecer em seguida, o pai dançou aos escorregões e
arrastos, num festival distinto de qualquer coisa jamais vista. Emboramente,
nunca de tocassem, somente rissem cada um da banda ridícula que tomava conta do
outro, amainada pelo contágio da alegria e da espontaneidade que acomete as
criaturas em suas horas mais inesperadas. A dança sem fôlego de ritmo, somente
os pulos anárquicos. Pai e filho recobravam a ancestralidade de uma pedra útil.
Tomada de
curiosidade repentina, Bilica saiu à janela. Abriu somente em bandas, que o
vento era espichado e fustigava de lá para cá, feito fosse um tonteira que
descesse das árvores. O que viu. Suficiente para puxar um cruzcredoemcruz
nasalado, sem temporalidade. Deu de
cara, as limpas faces com pai e filho no muxoxo repinicado daquela dança de
fantasmas. Não acreditou no que via. Não era comum, embora de tudo ninguém, em
se partindo de ambos, nada se pusesse em dúvida. A mulher coçou um verruga com
pêlos pretos no queixo e bateu a janela, esconjurada, espiando somente pela via
pequena de uma fresta de curiosidade. A bunda gorda do filho balouçava, suja de
barro devido a dois tombos que sofrera. As ilhargas do pai, igual modo,
escarificadas de seus tombos. Os dois erguiam os braços, dando a impressão de
que agora o valseado era maior que a rumba de antes. O pênis murcho do filho,
enrugado, quase uma desnecessidade de sinceridade integral, sumia-se,
entranhado para dentro das gorduras. O do pai espichava-se, nem grande fosse,
mas maior o suficiente para se dizer que ele era dono de um. A cabeça da pênis
com uma mancha cinzenta que vinha dos tempos mais antigos que fizeram presença
em existência de Pedronório. Nem Bilica
houvesse a intimidade com a cor, com a façanha do instrumento, mas o regougo de
ver que ninguém esbarra. Quem tem os olhos e não é cego, vê e de graça.
Bilica benzeu-se
três vezes. Fez o sinal da cruz no peito. Olhava de meia-esquina, que é modo
bisonho de se olhar. Desentendia aquele quiproquó de demônios pelados. Em
Timarco nem sabia totalizar o que o filho – ela dizia o menino – abalizava ser
nudez, o que não ser. Mas oravejas, Pedronório sabia muito mais que bem o que
era estar pelado. Se o menino precisava
de cartilha, o pai não a dava. Timarco nunca fora certo de modos ou de
raciocínios. Mal os pecados, ela via que agora o pai também sofria das bielas
bambas. Nem houvesse em toda Mirablia uma alguém, que se contado, fosse
acreditar numa patacoada daquele calibre. Solipsismos de vento furado. Que
integridade cabe num homem, senão a espelhada dança de seu filho? Bilica punha
interrogações mais brandas ao manancial do que via. Pedronório, diante do visgo
sobre o qual escorregava seus passos de bailarino tangencial, fora outra vez ao
solo. Apenas rebentou-se – qual jaca podre, Timarco gritou, possesso de
vantagens alegres. O tombo devia, tinha de fazer parte da grande festa
iniciada. Bem com as bundas com placas de barro. Pedronório caía e abria a boca
arriba, as gotas que vinham, espessas.
-
Iiii,
ombo ó u ai!
-
Fica
firme, Timarco, o mundo vai ser água só.
-
É
esmo, ai!
-
No
olho, nas orelhas, nos bagos, no fiofó: tudo água, agua-só!
-
Iva u ai!
E ambos riram. O
filho estendeu o braço para auxiliar a levantada do pai. Com um upa, o homem ergueu-se.
A lama do quintal ficava amassada, rubra, mais escorregadia. Quando viu o seu
homem erguer-se e sacolejar mais entusiasmo, Bilica deu de ombros e deixou a
janela aberta aos ventos. Que cada um se entendesse com as suas próprias dores
moídas em aguaceiro. E pronto. Ignorou o que mais fosse. Foi ao fogão e atiçou
os paus de lenha em brasa firme. Nada estava desconforme. Já vira de ambos
manifestações mais primitivas que um simples bailio de chuvarada. Se mesmo a ela, tão marsúpia de
considerações, a dança parecia simiesca, nem por tal deveria causar um impacto
afora de um assentado de olhos. Pois que sabia a quem criava, aos dois latagões
lá com seus preâmbulos de inocência. Se fechava os moldes da janela, porém,
Bilica não podia deixar de se contagiar por aquele reflexo de alegria que
cruzava o cortinado de chuva. As faces de Timarco agitavam um modo vespertino
de ser. Se em Timarco tudo era o esperado, mesmo aquilo que jamais soía ser
esperado, em Pedronório ficava mais difícil se aquilatar o que parecia ser um
desequilíbrio. De qualquer modo, era mais fácil saber de um bailado do que de
uma dança fúnebre, sempre se dizia, sempre se confirmava. Temendo enfrentar a
ira do marido, se acaso fizesse um comentário besta qualquer, Bilica franziu os
lábios, mordeu na carranca que surgia e silenciou-se. Pedronório era o chamado
muito bom. Mas tinha desavenças de estopim encurtado. Explodia. Por vezes, mais
calado ficava, deixando o lábio franzido de intolerância.
-
Mete
a ripa, Timarco...! Mete a lasca...! Vamos dar aquele passo de compasso três
por um... feito fosse três por conta de um...! Quem cair primeiro é filhote de
passupreto!
-
Ete
a ipa Ai!
-
Não
perca o ritmo. Larga o pau!
-
Arga u au ai!
Num jeito muito
avantajado de todas as sobras, num estranho de momento, Timarco ia arroxeando
os beiços enquanto o pai ruborizava as faces. Jeito de cada um saber-se sob a
chuva de novembro. Bolero saiu de onde estava e veio assumir um compromisso de
averiguar as peças do acontecido. O cão focinhou, bebeu ares e depois foi
ignorar o facto deitado em sua laje quente. Para ele, toda loucura não devia
fazer parte em bedelhos de cachorro. Somente ganiu espichado, um ganido de quem
pudesse participar, mas estava velho em demasia para frio e barro. Da janela,
com ares de uma banda megera, Bilica cofiava os pêlos sobre a berruga e dizia
baixo, somente para si mesma, que o cachorro tinha mais juízo que pai, que
filho.
O bailado
parecia não achar uma meada de fim. Para Pedronório, a graça toda estava na
contrapartida de poder ignorar o que mais mundo fosse. As parecências de todas
as coisas para ele agora soavam simplesmente como uma barca que não naufraga
porque nunca foi talhada. Se ventos nascidos de qualquer alegoria buliam com as
grimpas de um dos cedros dos fundos, com uma quaresmeira, nele vinha um assobio
de pele, um arrepiaço desconforme, como há muito tempo não surgia sentir. Para
Timarco, porém, a festa tinha uma outra forma de ser encarada. Tudo parecia ser
somente um resumido de alegria forjada por chuva, nada que pudesse ser mudado
de senso. E para Bilica, tudo parecia
ser uma soma de disposição exagerada que a meia normalidade do pai metia à meia
loucura do filho; oxalá coisa outra não fosse que subjugasse menos que as meias
falsetas que a cada um deles cabiam. Os ventos vinham de distância, desde o
Calixtrato. Vento de viagem, lacerado, esfrioso, por vezes e muito. O cão
ficava longe dos argumentos da festejança. Timarco mudava os passos para um
dança afegã.
Um bufo rompeu
para os fundos, num ermo rente ao caudal das Pedras de Fogo, o riacho nascido.
Uma moita de jaraguá crescia ali. No torpor cálido da hora, a égua Granfina
agitava as crinas e despeidorrava os gases de acúmulo. Longos rompontes.
Peidarrões imponentes. Mesmo já velhusca, Granfina ainda tinha apertos no
registro que bem regulassem o sonoro do trombone. E, tudo se confundia com os
guinchos dos pneumáticos sobre asfalto e buzinas rompiam a graduação do dia,
coletivos raspavam o asfalto e tudo era a azáfama que destoava das beiras do
ribeiro. Timarco era a solidão em retrato, Pedronório era o caso de uma
alienação. A égua liberava os gases, descansando uma das patas traseiras ao
peito, quase. De longe, quem a visse pensaria, pudesse, que ela era passarinho,
em dois pés é que se sustentava.
Mirablia crescia a olhos vistos. Como a cinta apertada é que faz os bofes saltarem, não havia outro jeito: a herdade confinava-se num mutirão de esfinge. Esfinge é a coisa que gera a angústia. E toda a toada da chuva era a indiferença mais primitiva que pode auferir um pensamento de algo sólido. Chuva costuma ambientar a maior solidez que se tem notícia. Dá cargo de coisa promissora, de fartura. Águas de bênção, a grandeza dos lugares que nunca perdem o teor úmido, as cabeceiras e as mangas rompantes que descem nas estações que são delas.
As queresmeiras
com roxas, as flores empapuçadas de beleza. Passava uma libélula – de vulgar
corpo e nome: o bate-bunda -, arrancava um impossibilidade contacto com a
imaginação de Timarco. Ziguezagueava e punha corpo de letras ao mundo. Sinais.
Signos de vai e de vem. Havia flores
nascidas dos elementos mais transparentes, todavia. Bebe-se o que o copo
absinta!
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T |
inha os dias, que em todo devidamente nem sendo o certo, Bilica punha doida a cabeça do marido. Não por tudo dava a cabeça de Timarco no perceber-se do que ia acontecido. Depois dos dias da chuvarada e do bailado com foxes e trotes, Bilica deu de estranhar e olhar de banda para os lados do homem. Passava por ele e deixava vir ao mouco dos lábios um risinho meio troncho, como se quisesse bem entender que a loucura também tem o seu lugar para ser cultivada. E que se bem entendida, até que pode render umas poucas palavras de deboche. Bilica não era um defeito ambulante, tinha lá as suas mazelas, bem dito de toda a cepa da verdade, mas por mais qualidades é que sobressaía nas delgaças do mundo. Se punha doida a cabeça do marido, fosse somente por nem isso, do acontecido, mas por coisas que ia somando e que se acamadavam, ficando a cada minuto difíceis de serem aturadas. No dizer-se comum, tanto que uma hora a gota pode expelirse, de transbordo completo. Ninguém atura o tempo todo o mesmo disco furado, diga-se-o.
Timarco tinha a vera habilidade para reproduzir sons, a música nele era um dom de nascida. Porém, em Timarco o que mais exuberava era a cadência de fazer com as mãos qualquer forma que desejasse. Bulia com pequenos gravetos, com pedaços de lasca atirada aos monturos. Surgiam os bois, os cavalos, um automóvel, uma face qualquer. Nunca houvera aprendido em professorado, mas somente apreendido de uma espécie de desequilíbrio fortuito que pode reger cada alma. Enquanto Timarco, sentado à soleira da porta da cozinha dava forma a um cavaco de angico, Pedronório andou ao rabo do fogão para um café, tipo boca de pito. No dia anterior acontecera a festa entre pai e filho, a dança desengonçada no quintal. Bilica estava convencida de que poderia provocar ao homem com seus muxoxos e sonsonetes de avesso molde. Fazia-o agora mais e mais, consciente da marca que provocava. Pedronório era vulcão manso, mas ainda podia deixar as lavas ao descambado do morro.
- Pedonó, acreditei que tu estavas leso, ontem. Mas hoje vejo que estás somente meio normalizado de leseira, nem tanto hás de divagar! Viram-te pelado, lá das janelas dos prédios!
- Sempre se dá o que se dá, independente do verbo todo doado! Olho não padece de cerca, como desejo de rumo desviado não padece nunca!
- Tu me crês, ó Pedonó, uma zagaia quebrada para querer me embromar com esse me dá cá o que lá está? Não me confundes com a lábia. Grande símio, dançando pelado!
- Bilica, em cada alma a chuva atura um azougue, lava outros. Quê que te dói menos que em mim? Estou cá a sossegar o facho, feito uma lagarta que enrola casulo e tu a me engodar!
- Ah, cuá!
Serviu-se do café e observou o mole passo de Bilica em direção ao quarto maior. Timarco assobiava uma Quarta Sinfonia, como se aquilo fosse uma desinência retirada do ar. Bebia com beiço espichado o café grosso, de passado recente. Café ainda com aleluias saídas do louvor imediato do coador. Timarco dava uma gargalhada repentina. Para ele, tudo andava em normativas composições. Com os olhos apertados Pedronório lembrou-se, de chofre de seu enlace com Bilica. Uma assinada de papéis e tudo estava consumado. Sem mesmo entender direito o que movera a sua susceptibilidade em retardar a andada de toda a sua liberdade, recordava-se com jeito inerte do modo como fora tomado em bodas com Bilica. Como muito tempo era passado, calculava sem fazer muita força as somas que angariam certas tristuras em olhos de qualquer homem sincero. Se Timarco fizera seus vinte anos no mês de outubro que passara, se a prenhez gastara tempo de seis anos para se consumar, por certo que havia vinte e seis anos, para mais, que estava engastalhado na teia viperina de Bilica. E não havia como retroceder nem andar avante, pois que há coisas que se supõem por si mesmas em vida das criaturas. Algo que fica unido pelo inexorável, pois em sua vida jamais poderia supor que há enlaces que usam tesouras, facas ou navalhas para o arredar o rumo.
O crescimento da metrópole não deixava diferenças muito pronunciadas em vida do homem e da mulher, em prática sempre, refratários é que se contavam. Permanecidos. Timarco vindo ao mundo não estimulara em nada a mudança em um, em outro. Quando retornou do quarto grande, Bilica abriu os braços para obter maior espaço, oxalá para esbarrar às costelas do homem, no intuito de uma provocação. Era quinze anos mais erada que ele. Por ser um tanto mais avantajada em tempo, nascera-lhe nos últimos atilhos de anos, uma barbicha meio caprina ao queixo, com fiapos de pêlos mais encorpados, dois deles e que ladeavam uma berruga do tamanho sincero de uma ervilha. O conjunto dava um aspecto muito vassourado à mulher. Pedronório, todavia, não se ria daquilo, achava até que o charme da distinção numa trapizonga escurecida como lhe vingava ser aquela. E para Timarco, o sinal tanto fazia-lhe ser um mamilo quanto uma berruga, dava na mesma. De modo que, coisa e outra sendo dita, Bilica não se incomodava com os rolos de varizes que lhe brandiam às pernas, tampouco com a berruga que enfeava o seu cabedal de faceirismo. Coisas que são e o mundo não muda, também não. Meio arqueada e com os pés grosseiros arrastados ao chão, ela arengou diante do homem. Não conseguiu riçar as costelas, nem nada. Como a conversa do bailado não surtira o efeito desejado, Bilica tomou-se de novas armas. Havia que provocar, custasse o que fosse o custado. Ouviu o bufado calmo e inocente da égua Granfina diante da casa. O animal pacificado pela falta de montaria. Velhusca, balouçava o rabo contra as pragas de moscas. Bufava e sacodia-se. A anca já menor, somente o sexo permanecido em fruta.
- Pedonó, homem de Deus, a minha égua está na frente da casa. Masca meus gerânios. Vá lá e leve a Granfina para as partes de trás, lá no meio do capim e dos cedros. Ande ligeiro! Agora mesmo vai estrumear em riba das lajes, em qualquer lata de flor.
Pedronório deixou de lado o afoito de acender um pito, sem nada responder, lançou mão da rédea dependurada à varanda e marchou. A égua Granfina era cria da casa, um presente que fora dado à Bilica por parentes seus dos lados do Rio Tijuco. Viera potrinha. Nunca dera cria. Com o tempo seus humores secaram, foram-se os cios e a égua tornou-se tão mansa, quão desdentada, quanto inútil. Em cidade grande não se vai servir de montaria. Mirablia era em dias de ano 2002 a era de estado e capital. No passado Granfina tivera a sua serventia. O silhão pequeno, tipo sulino, estava esquecido no escuro do quarto da sala. Bilica não mais montara na égua Granfina depois que a grande avenida foi aberta e envolveu a herdade. Pedronório ergueu a rédea e o animal olhou com seus olhos doces. Refestelava-se em um canteiro de madressilvas, um floral descuidado, pois que nunca fora do traquejo de Bilica a ordem nas coisas assim vindas ao luminoso do mundo. Sem meter o freio à boca do animal, sem outro recurso que não fosse somente o tacto, para que a égua percebesse a intenção, o homem puxou-a para os fundos. Soltou a rédea apenas a viu entre as barbas do jaraguá. Depois, atento ao nada que assoberba as direções, voltou sobre os passos e dependurou a rédea torcida em vermelho e branco, daquelas que nem se fazem mais, tal a felpa que orienta a distribuição das fibras e dos nós. Rédea grossa, de encher a mão, boa de contacto, quando se é cavaleiro em toda arreata. Macia de algodoal. Andou ao bule de café e serviu-se. Na distância de uma mirada de olhos, podia perceber com clara evidência o rumor grande que viscerava de cada carro que passava. As buzinas, o matraquear constante de um bulício. Cada coisa assumindo uma composição de fagote doido. Embora ilhado, tinha os dias em que Pedronório Gouvêa punha-se numa espécie absurda de alienação, numa gastura que ele se dizia, algo mais que não fosse uma depressividade de momentos, como se seu mundo agora sofresse de cinta por demais apertada. Tudo ficava esquisito. Nem havia com quem dividir a modesta forma de seus sentidos, pois que Bilica era avessa a cada uma das sensações que supusessem qualquer tipo de delicadeza. Na verdade, que seja toda dita, Bilica esperava somente que as entrevadas formas do destino viessem inaugurar-lhe os fins. Timarco, dele nem se dizer o mais, não se devia ou se podia, porque Timarco estava sempre alegre em seus atavios, sempre alheio ao que fosse, pois que as dores para ele eram o somenos do sentir, mas apenas uma palavra que arruma consideração para ser pequena. Timarco jamais sentira as dores, aquelas que suprem a alma de solução, dão alento a uma melhoria de destino, se busca há e quando.
Quando passou
com a rédea à mão, o pai percebeu que o filho esculpia um quinteto de flores.
Entalhava numa peça maior de madeiro. Algum pedaço de pau que encontrou jogado
por ali. Com seus olhos repuxados nos cantos, ele, numa vesgueira insolúvel,
aproximava o cavaco dos olhos e verificava a posição das corolas e das pétalas,
assoprava para retirar os excessos de cisco. Se Timarco aprendera a meter a sua
quicé aos veios de pau seco, aprendera com Tião Neneco, um amulatado que vivera
na herdade até os tempos em que viver ali era considerado possível. Sempre
novidadeiro de consideratas, Tião Neneco andara para outros rumos quando deu-se
conta de que havia decibéis demais em sua vida. Percebera que as tardes estavam
muito estranhas para serem vívidas. Atirava a fumaça de seu pito de palha para
os ares e sentia uma estranheza absurda dentro do que ele dizia serem as veias.
Queria ir embora dali. Voltar em busca dos chifres que os cavalos carregam à
cabeça. Assim dizia, de caçoada. Timarco via o ofício de passatempo do mulato.
Via seu esmero em polir pequenos objetos. Assuntava devagar, sem nunca meter-se
à distração. Timarco tinha a força de aprendiz. Olhava, revirava os olhos
vesgos. Aprendia. Em pouco tempo já agia de melhor qualidade que o mestre.
Depois, foi que as coisas mudaram e Tião Neneco foi embora para o Bom Jardim,
reviver os seus tempos de mais descontração. Se tinha a cintura por demais
apertada, atribuía um tanto do que estava a sentir ao corpanzil das quatro avenidas
que cercavam a herdade. Porém, para Timarco ficou a facilidade e o gosto pelo
cinzel miúdo: a pequena quicé. Aprendia com facilidade, nem mesmo o mestre
entendendo o como ser assim fácil. O gosto que Timarco tinha de fazer somente a
coisa bonita.
Enquanto o pai
dependurava a rédea, espiava com o canto do olho a língua do filho que parecia
não caber dentro da boca. A forma dele respirar – como se sempre sufocado por
antiga gripe estivesse. Um fio de catarro sobrando nariz afora, a tilanga em
direção à queda. Pedronório suspirou fundo e entrou na cozinha. A égua fora
levada para as bandas de trás, tal e qual a mulher queria que o fosse. Não ia
mais mastigar as madressilvas. Não ia mais babar ou estrumear sobre as lajes da
varanda.
Quando entrou na
cozinha, Pedronório cruzou com a imagem da
mulher. De seu poder e persona, lembrava-se de sentir pena das mulheres
mais jovens, por um nada é que sentia dó. Via uma rapariga na avenida, uma que
podia estar esperando transporte coletivo, outra que comia um daqueles
sanduíches com uma salsicha feia enfiada num pão desconfioso, por qualquer uma
delas que fosse, sentia os olhos cheios d’água. Se não se cuidasse, o excesso
de ternura embotava-lhe os sentidos e estava sujeito ao choro mais extravagante
do mundo. Observava por longo tempo, concluía nada. Somente sabia que aquelas
raparigas fortes, saudáveis, enfiadas em seus paramentos de jeans apertados
causavam-lhe a comoção de um dilúvio nunca estanque. Sofria por elas,
pobrezinhas, tão desamparadas no meio do mundo que se espezinha a cada dia,
mais e mais, em tudo que se considere. Todavia, quando olhava para os rolos de
varizes que toldavam as batatas das pernas de qualquer senhora mais idosa, pois
que fosse mesmo por Bilica, não sentia a menor pena. De uma forma que também
não podia explicar, sentia um tipo de revolvimento dentro das entranhas e uma
necessidade comprometida de afagar o que pudesse num corpo daqueles. Em algumas
vezes pensadas, chegava a crer-se amante das coisas que andam em decomposição.
Se tudo tinha um comportamento que vinha de tempo mais antigo, os alicerces das
coisas terrenas, mesmo que simplórias, alguma coisa dizia ao homem que seu
entendimento podia ser acurado, se acaso fizesse dele uma aceitação. Pedronório
não era nenhum paspalho. Sabia por quais as cargas de um universo as formigas
podem carregar trinta vezes o seu peso. Sabia o tamanho de um buraco e qual a
agulha capaz do cerzimento. Se sabia a razão de apreciar as anciãs, nunca podia
se dignar a compreender por que razão mantinha-se infenso à beleza fresca das
jovens que caminhavam em uma das quatro avenidas. Via as jaquetas estufadas
pelos seios novos da dureza, a mocidade em si estancada. Tinha mais pena ainda.
A inocência delas, ele se dizia. Sentia os olhos plenos de lágrimas. As
coitadinhas.
Era raro que
saísse de casa para uma coisa qualquer, mas por muitas vezes era obrigado a
fazê-lo. Por seu exemplo mais claro, era preciso buscar óleo para as frituras,
fósforos, querosene, sal, lata de extrato de tomate – pois que Bilica tinha
verdadeiro amor por tudo que fosse enlatado, mormente os cremes de tomate
extraídos. Na facilitação que impregna qualquer sistema de consumo, Pedronório
atravessava a avenida e entrava em algum supermercado. Voltava com seus
pacotes. Se acaso via uma dessas belas mulheres em suas andanças comuns,
triviais, estagnava-se a mirar o comportamento de cada uma delas, ou de
qualquer que fosse. Sentia, de imediato, os olhos repletos de choro. As grossas
coxas metidas em moletons, em tecidos mais anárquicos. As nádegas destemperadas
de jovialidade. Os olhos em maciça desordem. As bocas pintadas de batons
escuros – coisa que podia fazê-lo chorar feito bebê, mormente se se atinasse a
pensar em que bafo mora o cheiro mais profundo de uma boca limpíssima e
invadida de saliva escorrida. Pedronório não sabia de certas coisas, mas bem
podia imaginar com quantas canoas se deduz o pau do feitio. Os batons escuros
em lábios quase descarnados. Pensava no impaludismo do conjunto. A sensação que haveria em poder tocar aquilo
com dedos, oxalá com lábios seus mesmos. O pecado fica grande em demasia, tem
hora que sim. Podia chorar mais se forçasse o pensado sobre uma nudez
daquelas.
Serviu-se de boa
talagada de café, o bule esquecido ao rabo do fogão. Timarco no assobio das
sinfonias. Depois das chuvas despencadas, como era o acontecido de um dia
antes, o tempo vigiava com um olho de sol despendurado. Fosse chover outra vez
quando repingasse a tarde seguinte. Os olhos de Pedronório estavam desconfiados
de que alguma coisa boa estava para acontecer na vida. Nem tinha daqueles calos
no dedão do pé, daqueles anunciadores de boasvindas, de boas idéias. Somente um
relevo de desatino, algo que punha nele uma vontade de comer algo que não podia
ser definido. Assim como antojos, assim como desejos que emanam da saliva
venenosa das mulheres prenhes. Bilica passou por ele, as tetas molengas fazendo
a vírgula sob o pano puído do vestido. Uma pinta escurecida ao lado do murcho.
Nada belo, nada demais, no porém. Com um risonho mordaz dentro dos lábios, a
mulher lembrou-se uma outra vez do bailado do dia anterior. Iria dar mais uma
agulhada ao homem, mas lembrou-se de que Pedronório tinha argumentos
irritantes, capazes de desmoronar a sua vontade. Um ódio pequeno crescia em
virtude dele, de sua notória necessidade de humilhá-la. Era assim que pensava.
Se tinha os seus dias de docilidade exagerada, também os tinha de
maquiavelismo. Podia defender-se. Acreditava que de uns tempos para cá o marido
remoçava, enquanto ela simplesmente amargurava o tempo de seu esquecimento
vivaz. Ia-se em boa medida, se bem o dissesse, em rumo da cova. Era assim,
negar era o mesmo que assumir um acontecido de toda fantasia, os impossíveis
que muitas vezes são. Lembrou-se de Granfina deixada aos fundos da herdade. Era
um bom espinho a sua égua. Um modo repentino de levar avante a sua indigestão
diante do homem posudo. Pedronório andava agora a chorar lágrimas de bagas
pequenas quando mirava as moças que cruzavam as avenidas em busca dos colégios,
mormente quando era hora do escurecido. Em joelhos, quando pousava olhos,
escandalizava-se com sua emoção à superfície mais flor da pele. Pobrezinhas,
donas de seus joelhos de vidro, quase que uma virtude de jóia.
-
Pedonó,
homem de Deus, a égua vai derrubar as tapiocangas que seguram a aguada do
Pedras de Fogo. Vai lá e traz a Granfina para diante da casa, longe dos
canteiros. Ligeiro...! Se deixas em relento dos canteiros, pior fica sendo, que
come até as raízes!
Num gesto seu,
muito antigo de tempo, Pedronório coçou a cabeça, sob o chapéu, sem haver
chapéu no lugar de uso. Coçou com quatro dedos. Andou à varanda e apanhou a
rédea de trançado vermelho e branco. Assobiou em chamariz. A égua relinchou,
percebendo um côvado de sal, de milho, qualquer agrado. Granfina estava metida
ao meio do jaraguá. A cabeça sobrando para fora das alturas. Entre as falhas
dos folhais dos cedros, viam-se as janelas preclaras dos prédios de
apartamentos. Viam-se os raios de sol atravessados. Com o passo miúdo e
mordendo a palha do cigarro, Pedronório atirou a rédea sobre o talo do pescoço
do animal. Sem atar, como sempre fazia, somente para um obedecimento ao tacto,
o homem fez a rédea cumprir a volta ao pescoço liso da égua. Puxou e sentiu os
passos envolventes de Granfina. Em bufos pequenos, a égua caminhou até ser
retirada da volta da rédea e deixada diante da varanda. Por ser hora de sol
muito alto e o calor puxar para mais lado sufocante, viu-se a égua recostar-se
à sombra de mangueiras fechadas, diante da casa. Alguns passos adiante dela a
grande avenida regougava. Regurgitava de todos os ruídos. Granfina, um minuto
depois, cochilava a bem merecido sossego. Estava sossegada, somente espanava
ligeiro os bandos de moscardos que vinham de todos os cantoas do mundo. Usava a
planura da vassoura do rabo. Lesc-risc. Sempre. Depois, dormia.
Pedronório
dependurou outra vez a rédea. Viu a guirlanda de flores esculpidas à mão de
Timarco. O formato inconfundível, aquele que era o registro final do rapaz.
Sentiu uma certa paz ao ver o madeiro transformado. O silêncio pleno que vinha
do filho. Se havia apenas um dia estivera nas euforias de chuvarada e bailado,
agora estava sóbrio. Mesmo se fosse questionado, por certo Timarco manter-se-ia
dentro de seu conchavo de silêncio. Era difícil fazê-lo incorporar-se aos sons
da cidade. Sentou-se à varanda e esperou. Se tivesse sono, largar-se-ia a um
cochilo. Depois, lembrou-se do que fazer. Um nada de importância. Precisava
urdir, mas não sabia o que era. Tinha uma coisa para afzer. Esquecia-se da
importância. Queria comer uma lgo diferente. Não sabia que gosto do que era, o
que fosse. Perdia a vez de uma solução.
-
Bilica,
quantas horas são no momento?
-
Não
estás vendo o relógio aí na parede, bem diante de teu nariz?
-
Liga
o rádio na PRG-9, quero saber hora de rádio, não hora de relógio!
-
Tu
está estafermo, ó Pedonó, PRG-9 é rádia do tempo em que lingüiça era ditado de
cachorro amarrado!
-
Liga
o rádio, ó Bilica, quero saber as horas!
-
Imprestável!
Pedronório, ele
mesmo, ergueu-se e buscou o botão largo, a roda que ligava o rádio. O aparelho
deixado em riba do guarda-roupa do quarto grande. Sabia que Bilica não ia
fazê-lo. Estalou o maquinismo com o regozijo de bem-estar. Embora velho, o
rádio era conservado como outro nem devia haver. O estalo curto, azeitado, tudo
dava ao homem a segurança de um progresso que não precisava ir além daquele que
já fora conquistado. As avenidas largas e plenas de grande movimento eram
exagero para seus modos pertencidos, simplórios. Gases sufocavam a sua
liberdade. Precisava ir aos fundos, à beira do Pedras de Fogo e liberar alguns
gases. Se o fizesse, em sonoridade, com Bilica na escuta, seria o desafeto
maior. Daria a ela a oportunidade de mangar de sua saúde física, de sua
empreitada moral. Para Bilica, flatos eram a desagregação de todo processo religioso,
como se todos os demônios dos infernos viessem ao mundo ordenhados por
grunhidos finos e grossos de todos os cus que flanam. Mania dela, como se em
seu organizado, por dentro, nunca houvesse o gás para ser expelido.
Escapamentos alguns, os feminis, sem direito ao livre de expurgo.
As canções
soaram em processo de metrópole, não por elas mesmas, mas por um processo de
desnaturação de todas as vontades. Pedronório sentiu, todavia, grande alívio,
pois que os sons de Bilica foram todos atemorizados pelo cantar repetido. As
canções que as pessoas crêem que podem e querem ouvir. Em espera de ouvir-se o locutor dizer as horas que eram,
como era de ser acontecido há trinta anos passados, quando as Pedras de Fogo
corriam livres em direção às ravinas de um mundo aberto. Com o crescimento
alentado, exagerado de permeios, a Cidade perdera muito de seu festival de
alegrias. Havia agora, no sempre que se vislumbrava, a pressa e a arrogância de
um tempo que devia imitar, a preço qualquer, as bazófias de qualidade de um
mundo paulista, ou coisa que tenha um valor semelhante. O estado do Triângulo
pululava em suas investidas rumo a um século apregoado como milênio, como se
tudo não passasse de uma continuidade de tempo, assim bem como à ramagem da
mandioca nasce a raiz e cresce seu retrato branco terra abaixo, crosta adentro.
Diante do espanto ante o seu mundo que era imutável, pelo menos enquanto
pensado, Pedronório ouviu o assobio ligeiro de Timarco. Um sorriso tomou conta
de seus lábios, tenro. Não obstante o sussurro de um desconhecimento em seus
ouvidos – ante as coisas que carecem de baliza -, o homem percebeu com clareza
quando a voz da mulher soou uma outra vez em seus hábitos. Vinha de repelente
ironia, uma mordacidade crescida, porquanto: mais que qualquer ironia.
-
Pedonó,
a Granfina está em frente à casa. Pisoteia as violetas. Vá lá e leve a égua
para os fundos!
-
Cá
não há violetas, somente margaridas!
-
Pois
pisa as margaridas roxas!
-
Margaridas
são amarelas, ó Bilica!
-
Somente
de noite. De dia arroxeiam o passo da égua! Também, o que é roxo e o que é
amarelo, senão uma dúvida de luz!
-
Ó
caralhos!
-
Ligeiro.
Cuida de ver o que há!
-
Ó
Caralhos!
Diante da voz
definitiva, Pedronório sentiu comichão. Bilica jamais plantara violetas ali. Se
havia margaridas, nenhuma nascera a não ser por obra de parte em vento. E
somente. Dálias ele mesmo plantara, porque sabia que dálias variam na cor a
carga do mês em que deslumbram. E se no ano seguinte a terra relembra a
festividade do ano que passara, faz outra vez a semente anunciar o rebento
sempre renovado. Dálias eram a preferência de Pedronório. Se nem carecem de
água em tempo de restrição, admitem uma franqueza especial em sobrevivência. O
pobre animal não tinha nada a ver com a intenção absurda da mulher, a sua
vantagem em causar uma provocação qualquer. Pedronório, absorto de uma moda
embasbacada, ergueu-se sem estar sentado, vislumbrou a trança vermelha e branca
da rédea e seguiu caminho. Granfina pastava em remoer, quase escorada ao tronco
de uma árvore de canela. Com jeito ainda sossegado, o homem lançou o cabresto e
sem amarrar, sem subjugar um nada, puxou a alimária para os fundos. Deixou a
égua solta entre os tufos de jaraguá. Entrou em casa e percebeu a afronta
pronta estampada nas faces de Bilica. Timarco olhava de esguelha para o mundo.
Acabara de confeccionar uma sereia bem no centro de uma flor aberta. Assoprava
os ciscos. Olhava contra a luz. queria imaginar um jeito de pôr sexo à sereia?
O pai pensava que sim. Depois desistia do pensamento. Timarco era somente flor.
Nenhum caule.
Entrou e ouviu a
hora falada em rádio. Fossem as três e quarenta e cinco nos estúdios de nossa
atividade. Com a alma lavada pelo que havia escutado, e assobiando uma guarânia
dos tempos esquálidos, Pedronório sentou-se à varanda e mirou a face do cão.
Desconhecia o que mais fosse de todo entretenimento, o observar da faces de um
cão não é diversão para qualquer momento. Bolero não mais agitava a cauda
quando tomado como referencial de um mundo. Estava velho e cansado para se
converter em somente uma coisa que existe à revelia de contratempos. Era peça
não mais da casa, mas de seu único e somente estado de existência. Em um momento de sua mais estapafúrdia
colisão com o mundo, olhou bem fundo, como pôde, dentro dos olhos do
animal. Ligeiramente espantado com
aquele confuso estado vespertino, o cão deixou que os bagos dos olhos dançassem
entre um ponto do chão e aquele onde estavam os olhos do homem. Uma espécie de
desgaste tomava conta do animal, sendo que ao homem surgia o pleno desconhecimento,
o alheio quase que arguto e completo da criatura que com ele convivera por
larga faixa de existido. Bolero estava ali há muitas curvas, nem soubesse o
somado todo, Pedronório teria as dificuldades para o cálculo. Era, na certeza
de todo a almêcega, mais velho do que Timarco. Abaixou-se mesmo, o homem, na
tentativa de fazer com que os olhos do cão deixassem de dançar de um ponto a
outro. Queria mirar mais de perto. Bolero desgastava-se com aquele brusco
intrometido em sua mais recôndita intimidade. Cães têm a sua intimidade,
confidenciava-se Pedronório. Pode ser que sim. Quando percebeu que não havia
como fugir daquele interlocutório bizarro, o cão ergueu as orelhas, lembrando
que ainda havia nele a parte lupina de uma reação, a banda de jungle que ainda dá partes de retrato. E
num gesto inesperado, fitou o homem bem mais dentro de todos os olhos que os
olhos são capazes de suportar. Pedronório descobria no animal uma caverna até
antes desconhecida. Os olhos do cão eram de um negro torpor, coisa de breu,
espinho que mete dificuldade à travessia da luz. Por sinceridade própria
daqueles que não assumem culpa, por uma nesga de segundo, o homem teve um medo
bobo do cão. Pudesse ser mordido. Bolero era moça prendada, quase, se não fosse
animal. Brincava valsas com Timarco, protetor. Brincara demais.
Bolero estendido
à varanda deixava os colhões graúdos na sobra do quarto traseiro. O couro liso
daquilo, mais brilhante e escuro do que o restante do corpo. Nem era cão que
mais fosse atrás das cadelas ciosas. Não mais pulava o muro defronte da herdade
em busca das aventuras. Nos tempos em que ia, voltava e arranhava o portão para
que lho abrissem. Gania. Mostrava as chagas de lutas, feridas abertas nas
patas, o focinho com mordeduras maiores, outras menores. Cadelas que valem a
pena, somente pelo cheiro de salmoura sangüínea que emitem a favor dos lábios
de vento. As delícias que demonstram que tudo gira em torno de um objetivo
único: fome, sede e reprodução. De qualquer forma, diante de seu cão,
Pedronório sentiu uma espécie de sedução absorta. Em seguida, quando soube que
o animal podia sustentar o seu olhar, precipitou-se num abismo estapafúrdio,
incontrolável, como se em tudo que se dispunha a inventariar – como num
experimento – houvesse um desgosto sempre crescente e magro. Bolero media-o,
bem dentro das meninas dos olhos. As orelhas pontudas, armadas. Olhos negros,
sem lugar de mecha, ausentes de pavio que bem pudesse largar a deixa de um
ponto onde se ateia fogo. Sem haver solução outra, agora que não mais podia
recuar, fazia força de titã para não ceder ao desafio: sustentar os olhos do
cão. Todavia, o caso não ia de boa continuidade. O cão vencia. Uma outra
virtude apanhava-o de meada, uma vergonhazinha do tamanho de um vôo de vespa.
Pedronório ia perder a batalha. E a refração, seguinte, de que teria que
abaixar os seus próprios olhos. O brinquedo dava o revertério de uma resultado.
Não era mais o medo de ser mordido. Era outra coisa, medo outro que ele não
podia definir com sobriedade. Uma intenção absconsa de correr. Arranjar um
serviço que o distraísse. Bolero tinha a força de uma imoralidade. Bicho
avesso.
Maldito cachorro. Sem haver como se confessar
mais absurdez, e sem querer arquear os olhos ao chão, o homem passou o dedo à
testa que suava e recolher um erário de suor. Como se faz um estilingue com o
dedo, atirou o líquido rejuntado entre os olhos do animal. Houve reação e ela
foi imediata. O cão rosnou e arreganhou a dentadura. Jogou o pescoço adiante e
tentou morder o dono. Bolero não tolerou a forma desonesta do outro perder. Era
injusto e amoral. Pedronório recuou, imediato. Fazendo-se de alheio, de
indiferente, recolheu-se à cadeira, e assuntou a disposição dos sabiás na faina
de alimentar filhotes, num galho de articum, bem diante de seus olhos. Fingiu
não perceber que o cão voltava a deixar
a cabeça entre as patas, mas sempre com orelhas fincadas. Bolero era flácido de
nascença. Se mantinha orelhas pontudas, era por novidade. Era argumento de
dignidade; e somente.
Porém, de uma
certa coisa podia se assegurar. Tinha muito mais intimidade com o cão do que
com Bilica. Acaso não fosse assim, alguma falha a vida deixava em todos os
verbos que ele não podia assegurar.
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A |
lgum tempo se deu em que
Pedronório assuntou-se dentro de uma paz reinada. Bolero adormecera de toda
pedra. Timarco cantarolava suas canções numa língua indecifrável. E era fácil
que se ouvisse os estalos adocicados que a égua Granfina emitia nos fundos,
entre as beldroegas e o capim jaraguá, as moitas de juá bravo. Pensando nas
reticências que havia visto em velhice do cão, o homem sorriu largo, como se
aquela reação fosse esperada. Se o homem pode mais em inteligência do que
qualquer animal, então que aquilo ficasse somente um segredo entre ele e o
vazio. Nem havia com quem comentar uma
leseira assim. E pronto. Pensando, devagar matutanto, sentiu que as pálpebras
pesavam-lhe um pormenor. Cochilou com o pito de palha dependurado aos dentes.
Ouvia na distância o pio breve do sanhaço nas laranjeiras. O agudo tresmalhado
de muita longevidade, pois que sanhaço é o rei das infâncias e o memorial das
maturidades. Foi despertado alguns
minutos depois com uma buzina de carreta que atravessava a avenida. Podia ver,
ao longe, o cano de descarga que subia ao longo da fuselagem. Se não fosse um
cano de descarga, caralhos fosse aquilo, imaginava o homem, ainda mergulhado
num sonho em que chorava, cântaros, diante de uma normalista vestida com
saiazinha xadrez, da mesma marca daquelas que havia em vinte anos passados, ali
mesmo, quando a avenida era somente um esboço de caos. Ou então, há quarenta
anos atrás, quando a avenida era somente o embrião de terra firme, descalça,
tomada de outras herdades de lado a lado e somente uma praça descambada para os
lados mais além. Nem tudo longe, apenas todo o perto de tudo. Dentro das noções
que são e que se consomem, o que há longe, o que se fixa perto, cada coisa em
monturo de espaço e relatividade. Para a herdade: coisas perto; a Cidade: longe
as coisas.
Firmou os olhos ao longo de um gato amarelo que caminhava
lento sobre o fio do muro de tapiocanga. Um gato muito pachorrento. Veio-lhe o
sono, outra vez madornado. Teve, porém, que arregalá-los uma outra vez, pois
que a janela abriu-se, a que dava para a varanda, e surgiu por detrás da
fenestra a voz enjoativa de Bilica. Acabara-se o resumo de haver outro sonho na
agulha, pronto para ser disparado. As moças que iam à escola sumiram no
catavento do que estava real. Com olhos úmidos por uma lembrança tão de rendasm
as alvíssaras, Pedronório escutou o que era o agora. Estivado de ser todo
ouvidos, assuntou o que Bilica dizia.
-
Pedonó,
a égua está nos fundos. É capaz de sair por qualquer vazado de cerca e andar
por entre os apartamentos de condomínio e parque. Tu sabes como é esse povo
moderno. Sabem que a égua é nossa. Anda ligeiro, vá lá e traga a égua para
diante da casa!
-
Virgem
que me proteja!
-
Ligeiro!
-
Meu
Sagrado Coração...!
Pedronório saiu.
Olhou o gato amarelo deitado à sombra de um cipoal de erva de passarinho que se
esgueirava pela tapiocanga afora. Apanhou a rédea de trança rubra e branca,
andou firme à decisão de trazer o animal. Bilica abusava de sua paciência.
Nunca fora assim, absconsa de seus modos. O que acontecia à Bilica. Seria a
caduquice, a coisa decantada em tempos mais antigos. Velhos caducavam e ficavam
sonolentos. Para ele, entretanto, a caduquice de Bilica vinha em surpresa de
demônios, difícil de ser suportada. Pensou outras vezes, será que a mulher
sempre fora assim, somente ele agora atinava para a situação? Com tais pensares
amuados, meio vagos, o homem andou aos fundos e com um gesto de ternura que
nunca se supusera, abraçou o pescoço do animal e trouxe-se de volta para onde
devia ser posto. Nem precisou usar a rédea. Mirava os olhos tenros à luz da
tarde. Qual fizera aos olhos do cão. Encontrou neles uma doçura ruminada. A
égua arrotava e os gases eram o solilóquio de um espesso mel de capim misturado
com essência de flor. Granfina comia de tudo que encontrava. Fora criada assim,
em mamadeira, pois que viera cedo, desmamada antes da melhor hora. Toda poldra.
E havia muita correspondência de silêncio na forma dela deslizar o modo entre o
homem e seu corpo eqüino. Pedronório sentiu a fartura de estranho sentimento
que nutria por uma animal que não pensa, não age nem reaciona. Deu dois tapas,
de modo antigo, sinceros, à tábua firme do pescoço de Granfina. A égua fechou
os olhos, obnubilada pela doçura franquíssima da carícia. Deixou o estrume
vazar. Quais, as saúdes.
Andou ligeiro –
à sua passagem aproveitou para podar uma galhos de jurubeba que sobravam num
trilho estreito, usava o canivete – e deixou o animal solto diante da casa,
entre os canteiros pobres de maria-sem-vergonha, as brancas, as arroxeadas. Viu
o animal buscar um lugar para pastar. Numa vasta urinada, Granfina deixou
patente as vísceras que eram as suas, as ilhargas de rins perfeitos, embora
velhusca como o cão Bolero. Vendo aquilo escorrer e deixar exaurir o cheiro
áspero, Pedronório desconfiou de qual seria o próximo passo de Bilica. Reclamaria
da vertida. Era como se antecipasse em tudo a meada do próximo passo. Num
descompasso de peito, sentindo como a vida tem lá as suas matronas amargas,
Pedronório viu-se dentro de uma redoma inexorável, sem outra resultância,
enfim, que não fosse o funil de uma ação. Esperou pela mulher. E cochilou outra
vez enquanto Timarco buscava mais gravetos para as esculturas primitivas.
Bilica não vinha. Adivinhando o estado de como seriam os acontecimentos,
Pedronório dormiu mais profundamente. O cão ao seu lado, somente atinado para o
passeio das moscas entre os olhos. Tremeluzir de couro, como em cão é comum de
ser. Em cócegas quaisquer, o espanto
com o tremusco. Tomado de uma vereda anterior de agressividade, o homem deixava
ao animal um respeito graduado. Não pensara uma segunda vez em encará-lo como
se faz a um garoto que se quer dominar. Bolero, suas salvaguardas. Um animal
pensativeiro, entre os da casa.
Sem entender
direito como é que despertava, viu diante do nariz uma xícara das grandes,
replena de café novo, fumegado. Bilica estendia-lhe a beberagem, sem olhos de
nenhuma maldade, somente aferindo um gosto do homem, como ele preferia que
fosse, o café grosso, encorpado, negro ao grau mais afetuoso de amargo. Afinal, sabia com quem vivia, esquecera-se já das picuinhas da mulher. Afável
de jeitos, ela vinha toda solícita. Pedronório sentiu os pés sobre o piso frio
da varanda. Descalço como ao mundo viera. Apanhou a xícara na ponta dos dedos
estendidos e sorveu devagar. A mulher agachou-se rente à varanda e desbastou
molhes de antúrios que vingavam ali, soberbos, junto às taiobeiras. Atirava os
pendões murchos e as hastes secas ao léu. Pedronório ouvia o silêncio
cadenciado dela. Granfina estava dormitando, por certo, seu passo era somente o
estático, pelo menos naquele momento de sol descendo. Quando soou o fim do
bebericado, que a xícara fez dedéim sobre o plácido do pires, Bilica voltou-se
do desbaste e sem olhar para o homem, apanhou a xícara e fez que se ia, rumo à
cozinha. Timarco urinava ali, diante deles, com dificuldades para encontrar o
canudo entre os panos e os pêlos ralos, quebrados por um vermelho queimado.
Olhava para o embutido e o dedo podia não puxar a tilanga com couro mole.
Timarco gemia baixo, sufocado por parte da língua que não lhe cabia dentro da
boca. Verteu, lúcido e claro.
Apenas havendo
caminhado a mecha de alguns poucos passos, Bilica voltou-se sobre os rastros e
emitiu a voz de antes, uma onomatopéia escarificada, a mesma que o homem já
havia decorado entre-linhas, a voz de provocação – todavia inteligente e mordaz
o suficiente para fingir não sê-lo.
-
Pedonó...
tu não estás vendo a égua aí, diante da casa? Vai comer o reboco, que já cai de
velho. Cria tipo, homem, leva a Granfina para os fundos, lá onde ela pode se
coçar sem medo, nos cascorões dos cedros! Tu só ages debaixo de conversa, homem
de Deus!
-
Tu
não estás bem, ó mulher. Seria o caso de achar um doutor que cuida dos sistemas
mais nervosos, não achas? Daqui a pouco estarás implicando com a lua, com a
noite, com orangotangos!
-
Estou
bem demais, nunca o estive tão bem! Tu é que envileces! Se me comparas com
orangotangos, perdes o teu tempo!
Pedronório percebeu que de facto, a mulher exuberava, a saúde. Não ia bater beiço por uma coisa tão insignificante. Aquilo não era, nunca fora, de seu princípio aferrado em sossego. Apreciava demais o silêncio que se gera da inércia, aquele que faz um homem beber e engordar às pamparras, suinado dentro das acomodações de um mundo e família. Inocentes, os silêncios gerados da inércia.
Tendo deixado a égua Granfina nos fundos, Pedronório sentou-se outra vez à varanda e sorveu largas baforadas de seu cigarro de palha. Sabia o que estava para acontecer e antecipava o estádio das coisas, a ruma de certas náuseas que vinham fortes. Bilica brincava com fogo. Era o que se dizia. Num único dia, e somente dentro de uma tarde, já mudara a égua de lugar uma meia dúzia de vezes. Timarco era feliz, lá do seu jeito, ignorava as dores, a não ser aquelas que tinham litígio puramente físico, como a queimadura de uma taturana bezerra, oxalá uma ruptura de canto de unha quando o dedão fazia-se ao tropeção. Estando o mal resolvido, a égua solta nos fundos, conforme queria Bilica que fosse, Pedronório sentiu um peso enorme nas panturrilhas, como se chumbo derretido fosse calcado ali. Era o seu dia um desgosto que não ia haver fim. Sofria de um modo estranho, as picuinhas de um mundo absurdo. Se tudo em vida não era o desgosto, o melhor era aproveitar certos sossegos que advêm da simples tonalidade de uma estação, de um gorgotar de ave que passa, quiçá de um paralelepípedo que se deduz do vôo das grandes borboletas azuis, as que apreciam o meio fresco das bananeiras para a lambida de doçura. Sentado à varanda, o homem observava a banda anciã do cão. Bolero, os testículos descomunais sobrando feito a matalotagem que pesa na distribuição de uma viagem. Moscas zumbindo em torno da peça viril. Mais náusea. A decisão que teria que assumir quando descortinasse diante de si o próximo passo que viria, a voz escaramuçada da mulher pedindo – na exigência toda – que mudasse a pobre égua de lugar. Pensou sem lamúria, em quantos filhos Bolero deixara a sua genética de cão cabeçudo, todos espalhados por aí, pela Cidade descomunal? Depois deu um suspiro e esqueceu-se por um segundo do nome que tinha. Artimanha, pensava, é esquecer o nome que se tem, como dissera uma certa vez Tião do Neneco. Tião do neneco, enfurnado em nunca mais ser visto, os campos verdes do Bom Jardim. Com quantos gestos é que um mundo curto é construído? E com quanto tempo a descompostura de um arrepender remói a alça das realidades?
Pedronório cumpria a parte de sina que lhe era reservada. Ergueu-se de onde estava, deixou o cão e ouviu o fino ganido que saía de sua goela, o bocejo canino. Bocejo de cão é a esboçada de uma preguiça sem culpa. Somente quem já sopesou o som que imagina o acto pode dar-se ao revés de perceber outra vez. Com a alma apertada entre as duas faces da garganta, Pedronório entrou no quarto grande. Meteu a mão ao interruptor – graves modernidades de um mundo estranho – e viu o guarda-roupa enorme, preto, surgir na alma anterior da peroba. Subiu ao tamborete e uma lividez de suor invadia a sua alma. Suava a testa, sentia a ziguizira de um espaço cada vez mais absurdo. Sobre o tamborete de couro de novilho, suspendeu o braço e apanhou a carabina. Ao lado dela o saco de balas. Um remoço de tempo, um bem-estar esquisito invadiu seu meneio de corpo. O conforto que uma arma sempre dá a qualquer homem que sabe do que ela é capaz. A náusea que aflorava incontinenti, retinta, deu de vir às melhorias. Saiu outra vez à varanda e untou o metal da arma. Limpava. Da cozinha, através da janela que dava para a varanda, Bilica viu o que o homem empreendia. A lida fora de hora, coisa que ele jamais fazia em tempo comum: a limpeza de arma, qualquer uma que fosse. Por conhecimento e sensibilidade feminina, Bilica orientou-se sob um susto. Algo muito do estranho estava sucedendo. Pedronório aguçava um tormento em olhos, em movimento. Tomava expediente. Era isso: Pedronório tomava expediente.
Na verdade, o
que vinha ao bestunto esquivo do homem era a honestidade, a clareza que desejava deixar de modo
transparecido aos olhos da mulher. A arma poderia servir de sobreaviso, de
certa ameaça de futuro. Porém, Bilica não se dava ao nada que tresandava no ar
das coisas, mesmo aquelas mais simplórias. Arma na mão de um homem que baila na
chuva, qual a diferença em estar esquecida sobre o guarda-roupa? Um nada, a
diferença. Pode ser que sim. Pedronório mastigava a palha do cigarro, no gesto
seu de grave conhecimento. Mirava as partes da carabina, meio de esguelha. A
mulher cuidava das panelas na cozinha, mudava as estações do rádio. Quando
apercebia-se de uma canção que agradasse, dava-se a mirar as distâncias, depois
girava sobre os calcanhares próprios e voltava à ação. Como fosse um acto
esperado, via os olhos tortos, Pedronório apercebeu-se quando a mulher
aproximou-se dele, os pés descalços e roxos pelos novelos de veias
arrebentadas, com um gesto vago murmurou. Como se houvesse na situação toda uma
ação de biblos, algo que jamais pudesse ser mudado ou nutrido de outra forma.
Via-se na mulher um jeito de poder correr a um esonderijo seguro.
-
Pedonó,
a égua está nos fundos. Traga a égua outra vez para diante da casa, ó homem. A
égua vai atravessar a cerca, tu bem o sabes! Se ages agora, evitas o mal maior!
Sem dizer um sim, tampouco um não minúsculo, Pedronório apanhou de dentro do saco uma das balas. Velhas cápsulas enferrujadas de lado, as espoletas já com degeneração de segurança, a ponta do estanho comida de um modo esboçado. Mirou contra a luz o objeto, como se nele houvesse sinal de transparência. Feito não fosse somente o peso de uma solidez momentânea. Calçou a bala ao tambor da carabina e sentiu a hierarquia dos sons contra as molas, o estalido que domina o ouvido de um instante já nascido posterior. Belos os tempos em que atirava contra cabaças dependuradas, ali junto ao domínio do ribeiro, o Pedras de Fogo, mirando e achando o rumo de onde existe no atual estado de mundo o parque dos edifícios de apartamentos. Assessorava-se por presença de Tião do Neneco, ele solícito no mostrar como é que uma arma pode ser melhor regida. O cheiro veloz e terrivelmente doce das cápsulas deflagradas entranhava-lhe aos sensos, agudo, memorioso.
A mulher ao seu lado cutucava uma casca de pipoca que ficara presa à dentadura. Incomodasse deveras. Usava um palito tosco feito com lenha que já ardera os cabeços. Olhava com certo desdém o acto começado de limpar a arma e depois calçar a bala à agulha. Como olhara o bailado no dia anterior, quando a chuva amassava barros no terreiro da casa. Desconfiava que o estranhismo do homem vinha em flor, à tona toda. Tinha uma curiosidade ferina, escusa, de saber como é que aquele entrave estava por acabar. Malsã, tremida de sinceridades.
- Ainda estás aí, o que se assa, frita-se. Vá buscar a Granfina, ó homem de Deus! Em nome do santo maior! O que pensas que é o mundo? Enquanto uma mosca come um boi tu não sais do lugar!
Pedronório atravessou a arma ao ombro depois de manobrar a queda da bala ao pinguelo imediato. Travou no descanso, somente para o exato tempo de uma espera inteirada. Olhava as distâncias e sentia uma lágrima do tamanho de uma alucinação tomar conta de seus olhos. Podia enxergar os dias que já eram passados. Vociferava em silêncio, debandado de alternativas. O mundo sofria de um gargalo mais que meio pesado. Pudesse, fosse possível, deixava a arma encostada a uma das laranjeiras e ia dançar outra vez ao som de Timarco e ao ensaio da chuvarada. Iriantes os universos que sobejam dentro de uma redoma absurda, mais absurda que desconhecida. Sem entender direito o que maquina uma alma entre espinhos de ponta aguçada, o homem caminhou com a rédea à mão e buscou com os olhos agitados a figura – rotundas clarezas - da égua. Entre o jaraguá e uma moita de espora-de-galo que vicejava ali, avistou o rabo erguido do animal. O chuá sadio emanado da urinada vertente naquele momento. Como quem vai caçar, marchou teso. Timarco obrava seus formatos na madeira. Todo sossego daquele minuto era dele, de Timarco. Aliviado da língua que não podia ser contida. A grande atenção dispersava a crescida da língua. Atravessou a rédea ao pescoço do animal e tracionou. Fez beijos pequenos com os beiços, depois saiu da guanxuma e tomou rajadas espessas de sol no lombo. Sua figura ficou íntegra como um totem esquecido ao relento. Determinado ao que antes fora um suposto, o homem passou entre as pimenteiras e as ervas de macaco, o capim espevitado. Espantou papa-capins enquanto trafegava. A égua vinha à presença da terra, bufava para lufos, folhas de capim caíam das ventas.
Sem força alguma ao cabresto, Granfina seguiu avante. Diante da obstinação que lhe moía o peito, a tarde entrava de vareta romba. Pedronório assim se retinha, dono de uma coisa difícil de ser explicada. Caminhava devagar, com um impulso besta de abrir a cancela diante da herdade e soltar o animal à avenida. Todavia, sabia que tal acto seria a condenação, o requinte de toda a crueldade. Um automóvel qualquer iria atropelá-la, fazê-lo em aleijumes. Então, estacou entre dois galhos espessos de carambolas, olhou para os céus e para a terra, em seguida. Mediu os vôos que cabem em um, os rastros que em outro são. Retirou a rédea, devagar. Sentia o cano da arma ultrapassando com certa sobra o nível de seu pescoço. Todo o peso que a carabina nem tinha almecegava o seu semblante, um sofrimento até então jamais experimentado. Timarco cantarolava e era impossível que se avisasse um único som dele, nada podia ser entendido. A língua de reis antigos, antes de serem mesmo egípcios. Um amalgamado que poderia, porém, fazer um bailado de insetos em quem ouvisse.
Pedronório olhou a égua dentro dos olhos. Mediu a diferença que havia entre ela e os modos do cão. Achou distinções. Enquanto um desafiava, a outra era somente a ruminada de um tempo que parecia nunca ser fadado a fim. Nenhum finalmente via ali. Com um gesto de animal manso, Granfina ergueu o pescoço e quis cheirar o queixo do homem. Seu sopro quente chegou aos olhos dele. O cheiro sempre adocicado que destila cada eqüino. Num espanto consigo mesmo, trêmulo como pendão de arrozal ao vento, o homem sentiu a invasão grande de seu domínio. A inocência concebida fazia nele a dimensão de uma culpa que não tinha, mas que havia de ser cumprida. Uma espécie de pecado pleno de cores escuras e alguma treva. O sol daquele instante entre a caramboleira não era suficiente para desmanchar a sensação do que o oprimia. Abraçado à tábua do pescoço do animal, Pedronório afagava o seu pêlo de distribuição amarga. Deixava que a égua cochilasse entre os seus braços. E sem poder se conter, feito fosse um sofredor de tempos de estigma, chorou junto ao animal. Calado, a tarde fazia-o sentir as rimas da boca ressecadas. Quão pequenos são os desígnios de um homem, pensava o caçador, quão desígnios são os sestros pequenos de um homem, repensava. Viver é uma coisa em vida e espécie, afora as contas que já vêm gastas. Diante de um destino que tinha cura, ou curva, seja lá que diachos fosse, Pedronório ergueu a calça que cismava de cair, feito fosse ele ainda o menino dos tempos em que o Pedras de Fogo ainda era leito de todo lambari e cascudinho e girino. Segurou a calça, sabido que ventos do Amanhece, do Brilhante, do Calixtrato, ventos de lugares quaisquer cismavam de refrescar o rego que sobrava ao relento. Perderia a vestimenta.
Emagrecia a dedos vistos. A qualquer momento havia que erguer a calça contra a queda. O rego que ficava aparecendo. Timarco engordava, pois que o filho tinha as sabedorias de saber ouvir o lado surdo de uma vida. Timarco era sábio. Sem mais usar a rédea de trança vermelha e branca, o homem subiu a leve rampa que levava à varanda. Havia muito estampido de modernidade no ar daquela hora, as buzinas, os ululos das avenidas. Gritos de homens que vendiam as suas especiarias ambulantes. De certo que sim, a vida continuava e muito inteira nas partes de fora de seu vislumbre. Com um olho doído de ação, Pedronório viu que a égua o seguia, seu passo lento, em cadência de espantar moscas com a vassoura do rabo. Sem a rédea, não carecia mais da rédea. Timarco estava sentado ao vão de um pilão antigo, lavrava os cepos e formava imagens de pequenos animais. Um tatu, uma capivara, tudo surgia das mãos do rapaz. As flores que nem normais eram, mas uma mistura super-real de ilusionismo com vôo de mariposa. Diante da varanda, ouviu-se o pigarro de Pedronório. A égua parou , deixando meio pescoço para dentro do avarandado. Da boca sobrava um fiapo de capim verde. Olhava para o lado do homem, a intervalos regulares. Soube uma ternura pequena, maior, quando Bolero veio às festas com ela, o rabo em balanço. Pedronório acendeu um pito e depôs a carabina ao colo. Aguardou enquanto algum tempo mais houvesse. Esperou, chegou a madornar dois átimos, somente assuntando um tempo que jamais foi o seu. Espíritos vagam o mundo, rompem os condicionais de conjugação. Bolero lambeu o focinho da égua. Depois foi outra vez deitar-se, deixando a marca vistosa dos grandes colhões sobrando entre as coxas. O líquido e certo, bagos enormes e pretos.
Não havia nem vinte anos, era possível se pescar o lambari nas nascentes do ribeiro. Era comum o canto do sapo boi e da rã-pimenta. Mas com uma melodia mais violina. Era fácil se ver o martim-pescador no mergulho e na subida. As penas brilhantes de todas as suas cores. Em dias de hoje, remoía o chacareiro, somente o puído poluído das cores mais chegadas a uma comparação de caldo pneumático. A Cidade crescera em demasia. Cercara tudo. Olvidara as respostas de espaço. Em maior perigo, sufocasse agora as estranhas de cada um. Em retorno ao seu mundo de varanda, Pedronório esperou a voz da mulher. Timarco, percebido de algumas condolências, deixara os instrumentos de polimento e corte, observava feito calango a curiosidade de que alguma coisa desandava em casa. O pai estava muito estranho de comportados. Sem precisar esperar mais que o absurdo que sempre norteia a realidade, a voz de Bilica ressoou outra vez. Pedronório assumiu que tinha nas mãos um instrumento de morte. A carabina pesava sobre suas coxas. E o cheiro de um disparo anterior cumpria dores doces em seus dedos. Se bem que muito fosse andado, as águas debaixo da ponte, pode ser que fosse ao lado de Tião do Neneco que a arma disparara pela última vez, em treinos sobre cabaças oscilantes que dependuravam às margens do Pedras de Fogo.
- Pedonó, doido é que tu estás. A Granfina vai babujar na lajota da varanda. Leve a égua para os fundos e já. Ligeiro, ó homem...! Se ela estrumear aqui, tu vais limpar a encomenda!
Pedronório sentiu o fuzil dos olhos e um jeito da boca contorcer-se. Formigam-lhe as mãos. O pé direito adormecido. Estava junto de sofrer a convulusão. Convulusão que os antigos falavam, a proximidade de um derramado de sistema mais que nervoso. Sem saber mais o que decidir, olhou a mulher com olhos de um riso sardônico. Apanhou a arma e destravou, deixou o descanso do cão para o que antes seria uma necessidade. Bilica recuou dois passos, os modos de um susto, escorregou em coisa que nem era escorregadia: seus próprios lajedos de sola de pé. Pois não era que o homem estava pletórico, consumido de um jeito muito dolorido, trêmulo e sem astúcia. Entretanto, ela se pensava, totalmente sem qualquer astúcia.
A égua descansava o quarto traseiro, desengonçada, um lado mais pendente do que o outro. Um murmúrio de silêncio acometia o denso da hora. Se os bem-te-vis estrilavam, somente o silêncio avermelhado, de uma confusão estivada, tomava conta dos impulsos do homem. Pedronório desconhecia a palavra que fosse uma malvadez. Mas havia dias em que o lúdico das questões é somente estômago apodrecido. Não podia crer em infelicidade, jamais. Quando muito, obtemperava entre um mal-estar e uma viseira, irisão de cólera. Algo que sempre fosse efêmero. E não há encontro de paralelas, mesmo que muitos horizontes singrem os orientes. Muita conversa até que atrapalha o boi dormir.
Capítulo 4
|
C |
om as ventas pálidas e um conchavo de susto maior nas medidas, Bilica olhou com ares de certa estupidez para o marido. Os olhos na cainheza de que a loucura anda no campeio, toda dentro da casa. Sem haver como mais recuar, os pés descalços pareciam sofrer do peso desmedido que surge da obstinação de um segundo. Viu com um brado silencioso dentro da alma quando Pedronório ergueu a carabina e fez menção em direção nenhuma, nem fosse nela que mirasse, nela não fosse: pois que o cano assumia a boca de outro ponto cardeal. Pois que não fosse nela, tanta loucura desatina, o que desanda, a dor de ver o medo estampar. Não fosse mesmo nela, e a arma fez-se ao disparo e aquilo quase não houvera tempo para mira, nada, somente não era no rumo dela que o dedo untava banda, e estampido. Um ribombo seco, como em arma que há demais não subordina eco, e foi mais susto e não era nela que o homem atirava. Granfina recebeu o impacto e sem entender que noções é que regem as margens de um fagote, de uma doidura, inocente, casqueou o prumo ali entre os antúrios e babujou grosso e sem relincho, sem nada que não fosse um tremer de todo o corpo, quão pobrezinha, oscilou e deixou as quatro patas para os ares. Uma égua virgem, que diabos é mais que uma égua virgem? Bilica pensava e teve ímpetos de dirigir-se ao homem e esbofeteá-lo, de esquartejá-lo, mas o peso nas panturrilhas era ainda maior do que qualquer coragem que fosse. Se havia tremido na hora de disparar, Pedronório assegurava-se que sim e o arrependimento existiu de uma forma muito precoce, pois que logo depois que o som se fez sólido, a besteira que havia feito sobrepujou todo o seu mantido de estar vivo sobre a terra. Choveria, foi que viu, logo uma brisa balançou as folhas com respingos. Cada choro mais absurdo que surge, feito fosse passarinho que chora. Chove. Tudo dá na mesma, o sofrimento que não se adia por não haver o como, nunca um quando.
Atingida entre os olhos, mas muito sem comodidade de morte – morte por vezes auxilia na resolução das coisas, sem outro sentido que não seja, no absoluto, todo o fim que se quer -, a bala entrando mais para a direita do que para a esquerda, e saindo na ossatura, então, entrada que foi no termo sincero da esguelha. Portanto, agonizava sem recurso de maioridade integral, a limpeza da morte não vinha. Escoiceava e o homem teve tempo de pensar em chorar como nunca antes fizera. Sabia que a dimensão das coisas muitas vezes revela a inocência inocente. O que o animal tinha a ver com aquilo tudo? Com aqueles nadas? Num rompante de força, com as tetas virgens reviradas para o céu, a eguazinha esforçou-se e fez prumo sobre as patas. Erguida, bufou uma maior suada, e Pedronório viu que o rombo na testa não sangrava, a não ser por um fiapo de alguma debilidade que manchava a pelama pedrês. O olho estava estourado da banda atingida. O animal ficava humano de ser notado. Tudo sempre dá na mesma, ele se pensava com modelos de uma coisa que parecia sentida antes. O sofrer que não se adia por não haver o quando, nunca um como.
Entre o aperceber-se do que acontecia e o tempo pingado já de víscera, Bilica ficou estática. Seu bem maior, o apego que tinha era à égua. Quando uma maldita Cidade cresce demais e cinge a idéia das pessoas, seu corpo, não é de haver uma mudança de comportamento no mundo? Pois que ali estavam, e nem tinha ela ainda um tempo de esboçar um raciocínio, que o crescer da cidade não devia de relacionar-se em nada com o que acontecia. Perdida, como um galo que se sangra ao tufo de veias do pescoço, Granfina não podia suster-se de pé. Dava passos de lado, totalmente desprovida de seu equilíbrio. Mais cainheza do mundo. Se não morria, agora também agonizava em querer viver. Já vinha a Pedronório o espelho de um pensamento, quase que sem elaboração, ele mesmo estava pregado ao fundo da cadeira. As mais personagens, Bolero saiu dali e foi meter-se ao canto oposto da varanda. E Timarco, tomado pelo eco do estampido, veio com sua marcha estranha, os braços curtos, assim como quem segura uma taça de preciosidade, olhou as beiras das tragédias. A mãe fincada no chão com muitos pregos. O pai sentado sobre a inércia de um momento. A arma deixada ao lado. Timarco viu o animal oscilar. Andou até ele. E, viu a queda inevitável outra vez. Agora, Granfina caída sobre as patas e exibindo uma respiração muito cansada. O rapaz examinou o buraco. Depois abraçou-se à egua e afagou-lhe a crina, o pescoço. Viu as bolhas diáfanas que surgiam das ventas e explodiam focinho abaixo. Cheio de pena, todavia, manteve-se em silêncio. Olhava somente com o olho direito para o pai, ora com o esquerdo para a mãe. Chovia de um respingo miúdo e adornado, frio, choro de passarinho. Nos ares que vinham de lugares, o que não se recompõe passa a ser a realidade de um depois.
Timarco, pudesse expressar, parecia querer dizer que a culpa não é dona das pessoas e as pessoas não são donas delas, mas somente atinge as nuvens o foguete que mais alto sobe e assim-assim, pois que nuvem nem é coisa que admite visagem, mas somente a passagem de um estado para outro. Que tudo é simples, que tudo nem tão simples é. Quando houve a presença do filho, Pedronório jogou a carabina sobre a cama, através da janela aberta. E caminhou para os fundos, lugar onde poderia deixar um ar mais limpo e fresco tomar conta de seus fundamentos. A vida era a encruzilhada, entendimento era o mal que a necessidade nem sempre fazia ser o melhor. As piores dores nem suprem a questão, dores prescindem de razão. Como voltar atrás, se a necessidade de um gesto intespetivo justificava o que não se justifica. Como um ser a troco de outro, nas imagens de santos e procissões. Toda seta atravessada à coxa. A dor.
Sentado ao lado da ramaria, sobre as tapiocangas que faziam leito para os borbotões do nascedouro das Pedras de Fogo, Pedronório examinou o mundo em torno. Via os montes de estrume deixados pela égua, o frescor das entranhas. Sem saber se medir, em sua cabeça ficava sempre a artimanha da falta de equilíbrio que presenciara. Os olhos inundados de lágrimas absurdas, cria que o animal pusera-se a chorar. De um modo clarividente, deixava-se a desejar que nele esboroasse a mesma dor que a atingira à testa. Outra desexplicação, que Bilica jamais entrava em suas imagens: como se a mulher não existisse, como se Timarco não existisse. Se pensava em coisas terríveis por si mesmo terríveis, como a inexistência comum de uma égua, a parte sua que colaborara para o desgaste de um dia, a imagem de Bilica em tudo ficava externa. Bilica não contava, nem mesmo para fazer as dores? Mirando os borbotões que pulavam das pedras, solitário como jamais estivera em toda a sua vida, Pedronório enxugou duas bagas grossas que escorriam pela barba arruivada. Lá em cima, onde estava acontecendo o tangencial de tudo, havia mais silêncio que bulício. Era momento em que Timarco, crendo que panacéias acorrentam o princípio das coisas, banhava o ferimento com arnica fermentada em diluição de álcool. O rapaz encharcava um trapo com a infusão, esperava a cor dar alicerce de escurecido castanho, depois esfregava sobre o pêlo pedrês. O animal deixava a cabeça entre as patas, decidido na aceitação plena daquilo que jamais poderia entender. Timarco via que o resultado do remédio era apoucado, porém. Com olhos fechados, feito cão, a eguazinha respirava com um custo pesado. Bolero olhava para tudo com modos de entender. A artimanha que cativa os lemes do mundo. Os caminhos.
Bilica retirou a mão da boca, apalermada. Caminhou retro, até que pôde fazer a curva sobre os calcanhares. Atravessou a cozinha sem saber em que direção seguir, ou que seguimento dava à vida. Esbarrando em tudo que estivesse ao lado de seus passos, finalmente entrou no quarto e pôs-se a observar o que o filho urdia junto ao animal. Outra vez tapava a boca, entre um soluço e uma surpresa. O marido era por demais tapado para fazer uma coisa daquelas. Bem que ela andara divisando absurdos em Pedronório nos últimos tempos. A dança sob a chuva, o acompanhar Timarco nas aventuras mais estapafúrdias. A nudez de ambos. Nunca que aquilo podia ser coisa entendível, sequer fosse coisa santa. Demônios andavam soltos dentro da herdade, tomavam conta do homem. Pode ser que Timarco nem houvesse regra para receber um demônio. Mas o marido tinha cancha. Ela tinha certeza. Com tais pensares desenrolados dentro da cabeça, Bilica mirava através da janela a disposição do filho, seu critério de cuidado ao girar em torno do animal ferido. Os jeitos que Timarco tinha de fungar, de limpar os catarros do nariz com o braço. Olhava e a égua era-lhe uma figura estranha, desconhecida. Parecia-lhe jamais haver posto os olhos sobre aquela forma. Enquanto mirava, sabia-se a um desejo irrefreável de esvaziar a bexiga. Como se por dentro a pressão viesse sufocadora. Com seu modo de reter, apertou as coxas contra as coxas e ficou somente com aquele pueril sentido de espinhos entre o sexo e a ponta da espinha. Estava longe de tudo, longe de casa. Estranhava-se. Pode ser – imaginava – que sofresse mesmo da caduquice antecipada, como em últimos dias viera apregoando o marido. Dó em demasia da égua com o olho estripado. Pedronório não fora bastante e suficiente para dar cabo de vez com um sofrer. Ela tinha a certeza, conhecia o marido com quem vivia, sabia ao certinho que ele atirara para matar. Não era malino o suficiente para deixar um bicho do terreiro nas agonias sem fim. Agora, ainda vinha uma chuva chamada distinta, apaziguadora de todo céu e toda terra, caía sem ser pedida, supria todas as noções de bênçãos que uma criatura precisa para viver.
Quando pôde retirar a mão da boca apalermada, em golfadas de guincho, Bilica jogou-se na cama e chorou por todos os seus anos que já tinham sido vividos. Nem sabia mais quando chorara pela última vez. Acreditava que – se bem houvesse uma ponta de lembrança – que fora no dia em que tratara casório com Pedronório. Soluçava muito, num abandono sofrido. As pontas do destino apareciam sob manta fina. Onde andava o marido. Por certo estava eviscerando fantasmas desconhecidos no meio das bananeiras, quiçá sentado às beiras da nascente, como era seu costume quando estava embasbacado com qualquer coisa. Timarco chegou-se à janela, verificava que diachos estava a acontecer. Viu a mãe com as mãos enfiadas entre os cabelos. Sentiu por ela, embora parcamente, a dor menor, seja a dor da sua dor. Somava mais o enjambrado da dor do animal. Timarco tinha apego, sabia como uma inocência, mesmo diminuta como numa égua, não deve nunca ser conspurcada. As manias dele. As mãos entre os cabelos e o corpo sacolejado por soluços sem tamanho. Para Timarco, tratar de quem mais necessitava era a prioridade. Como jamais soubesse sentir pena ou remorso, culpa ou dor de alma, o rapaz – nunca o aprendera – saiu dali com seus passos de ator sem a peça e dirigiu-se com um riso absurdo para os lados do animal. Granfina estava destruída, por certo que sim. Ao rapaz, sempre havia um estrado de esperança. Ria, e se ria era somente para deixar bem entendido que para toda tragédia existe uma face de concerto.
No princípio do fusco do
escurecer, quando os pirilampos davam seu sinal de vida, as árvores todas
repletas de um clarão imaginário, Pedronório veio para dentro de casa. Olhou
para a égua moribunda e tinha a certeza de que ia encontrá-la morta de
integridade. Porém, seu ingrato enxergado, viu somente Timarco a esfregar água
ao focinho, pois que Granfina não mais queria engolir. Com um pedaço de rosca
coberta de açúcar à outra mão, o rapaz tentava fazê-la comer. Entornado de todo torpor
desorganizado que pode caber dentro de um modo, Pedronório entrou na casa com
as focinheiras mal enfiadas. Para se dizer de modo distinto, desconhecia o que
havia entre razão e percepção das coisas em torno, igual modo quando se tem uma
dormência muito dolorosa em alguma parte do corpo, mas dela não se tem a
certeza do sítio. Viu a mulher composta dentro de um orgulho obstinado, as
lágrimas já secas, mas com nitidez de antes, viu que ela havia caído no choro.
Antes de cometer qualquer acto que tivesse algum sentido, serviu-se do café e
acendeu um pito. O silêncio entre eles era um notório objeto que podia ser
cortado com faca. Recordava-se o homem das colegiais com as saias de tom xadrez
em vinho e branco, em azul e azul mais claro, a marcha delas em direção às outras
que fluíam de todas as ruas da grande Cidade. Qual formigas em torno do morundu
pisado, a lava-pé ouriçada por qualquer estímulo de peso ou massa. Quando se
encontravam, as gárrulas de um mundo, tudo que fosse à parte, mas que depusesse
uma missão onírica aos estados do seu sonhado: porém, viril. Se a ele vinha uma
imagem de chiclete de bola rosado
fazendo uma redoma em torno de uma boca, Pedronório sonhava com a lucidez das
cores, debandava em direção a um estrebucho de hálito cristalino, toda a pureza
esquecida entre os dentes de um afã. Quão, sabedoria da natureza, quando fica
para trás o estômago e fica para diante o caminho traçado pela brisa de um bafo
quente, juvenil. Num estado de desânimo, pois que sempre preferira as anciãs,
confessava-se de passagem, Pedronório
reafirmava a sua grande pena pela inocência daquelas criaturas que tinham toda
uma vida pela frente. Pobrezinhas, ele se dizia, com voz meio mofina, toda
saída de seu próprio nariz, portanto, mais uma respirada do que propriamente um
arcabouço de voz. Nem sabiam o que era a existência, nem sabiam o que é crescer
ou o que é murchar, que dirá o que é ser envolvido pelo concreto cinzento e
megatérico da grande Cidade. Faziam parte de uma colmeia sem endereço certo,
era assim que podia delas se aperceber. E sem endereço, não tinham lugar no
mundo e o mundo não achava de dar lugar para elas, mas somente a plataforma do
vôo sem anúncio, ativado a qualquer momento. Andorinhas. Simples andorinhas sem
têmpera de sofrimento. Pedronório sofria por elas, tão esmiuçadas de sem
detalhes, de parecência em uma, de semelhança em outra. As saiazinhas tocadas
de vento, fazendo o boião da forma. Uma a uma, o tráfego pelas três avenidas
que recorrem em torno de seu mundo, porém, a distância que nenhuma podia encurtar
entre o real e todo o imaginário em sua cabeça de idéias. Se pensavam, somente
em seus amores atracados, em beijos sonoros e meio nojentos, como se a vida
somente se resumisse na reunião dessa ação cupulada. As pobres, se há coisa que
peca por nem existir.
Quando percebeu que a égua caíra numa espécie de sono pesado, Timarco saiu de perto dela e deixou o coité de água junto a uma facilidade. Para Timarco, beber era a coisa mais importante para evitar o sofrimento. Não podia deixar que o animal sofresse a sede, a sua determinação de participar do bem-estar de Granfina. Foi recolher-se ao seu leito, como de hábito, pois que sempre era quase depois das galinhas que se deitava. Dormia com as galinhas, como era o dito luso. Podia-se ouvir por toda a casa a sua fungada comprida, seu assoar de nariz, os chupões que dava de volta contra a queda espessa das melecas. A noite estava pesada. Ares de chuva vinham outra vez dos lados do Brilhante, pode ser que sim. O pequeno Brilhante podia ser gerador de massa de ares, todo sendo vesperal de alguma pureza. Era o Brilhante. O ar fresco que cortava as grimpas dos angicos natos na herdade amenizavam em grande quantia o peso do mormaço. Timarco, sem o hábito de estar às dianteiras de programas de televisão, dormia apenas houvesse tocado o travesseiro de penas moles de pato. Todavia, o pai não podia conciliar o sono, uma espécie de covardia sem compreensão – pois que se julgava honesto o suficiente para cuidar das coisas todas que soem existir em torno de seus passos – aninhava-se dentro do mundo de Pedronório e nele não vinha um como andar a ver a quantas andava a agonia da égua, se nela havia recurso de conserto, se não havia. Sentia um destempero grande ao relatar-se, mesmo em seu silêncio, que diachos havia cometido e quantos errados em um único erro. Dentro de seu íntimo, por outra via dos factos, nunca via erro. Estava de comum acordo com o acerto, que sequer abria mão de duas rugas que lhe surgiram no cenho. E pronto. No mais, deixar a vida andar em caminho simples. Quase que de abandono, como as gurias que andam em busca de suas escolas, os seios estufados dentro das malhas. Cada uma sem saber que a dor é o lugar iniciado onde desova o que pode ser o tal amor.
A noite atravessava as amarras do escuro com uma pouca dificuldade. Bilica ficara nos entretidos de seus divertimentos, a novelama de televisão. Enquanto isso, o homem dormia. Ouvia-se o ronco pesado de Timarco no outro quarto. Grilos e sapos que compõem a seresta de um mundo particular refestelavam os pontos cardeais. A Pedronório não vinha o sono. Ouvia todo o gemido das rãs, percebia com clara definição o rapar de cuia das pererecas de beira-pote, o croacado espesso e acinzentado dos grandes sapos, os mais pronunciados. As risadas de televisão entremeavam-se com o sonoro do mundo. Era o sinal da cinta que a Cidade depunha em pescoço da herdade. A rapidez com que o dito progresso andava ligeiro, tomando conta de tudo, desvirginando as possibilidades de haver silêncio na vida que se guia. Depois, num susto de certo prazer, Pedronório escutava o som de quero-queros atravessando o ar em viagem, outro som que era de paturis, os irerês que vinham para uma saudação antiga, como se nos lajedos onde nascia o ribeiro das Pedras de Fogo ainda fosse lugar de descer para o curtido da madrugada. Podendo viajar de noite alta, em somente rubro de lua, irerê é patinho com todos os seus privilégios. Igual nem sempre pode ser enxergado em outros, através do lusco-fusco que conjuga a densidade de noites dentro de noites adentro. Também, simples por simples, era capaz que a lua lá fora estivesse estralando o seu princípio de manter-se plena. A beleza que excomunga as diferenças. Se as luzes dos prédios de apartamento e a iluminação das avenidas vilipendiava o perceber-se da lua cheia, em Pedronório sempre havia um motivo a mais de grande riso quando dava-se conta de que entre os arvoredos da herdade sempre opalecia a nitidez da lua mais amarela do país central. Em estando sem movimentos, envidraçado por seu sossego, Pedronório gozava a plenitude de um existido. ali, sem avenidas e sem vôos maiores que um coice de porco, ele bababa na virtude de querer escafeder-se do rumo de uma acto anterior. Sem dor vive-se mais, melhor.
Embora mergulhado em um minuto de esquecimento, o homem voltava sempre a buscar a presença do animal ferido. Com esses entremeios de modos, acabou por conciliar um sono sem força, abusivo de composição. Não sonharia. Para ele o apego ao real fustigava para longe a artimanha do sonho. Era ruim. Sonos bons regam-se das virtudes do onírico. Bendizia-se Pedronório. Viu quando Bilica estendeu-se ao seu lado, veio arrastando os pés descalços e sem haver se dado ao banho, sem haver se despojado das vestes, a mulher esgueirou-se sob as cobertas de lã, já que era muito dominada por repentes de grande frio. Virado para o lado que mais lhe sugerisse uma solidão, ele abriu os olhos e através da cumeeira pôde argüir com clareza a mistura de luz de néon com luz de lua. Um morcego abanou as postas do ar. Escureceu mais quando o vento abanado interpôs-se entre som e movimento. Coisa era esquisita, escurecer mais quando apenas o movimento regala o que regula. Quanto mais som, quanto mais nada transparece o toldo da treva. A mulher em pouco tempo pegara no sono. Chegava a roncar, rapado de cuia muito pior, mais desagradável do que o das pequenas pererecas. O das pererecas era suave, musicado de delírio sonífero. O da mulher entristecia. Bastava para que o som que vinha dela fosse inferior à têmpera de um batráquio. Pedronório comparava sem maldade, sem nenhum sinal de mordaz força, somente por deixar um sinal de estar desperto. Deixava muitos delírios, depois, entremearem-se aos seus sinais.
O que o homem não compreendia era a delegada atitude que lhe vinha. Se preferia as anciãs, agora um distúrbio de entretido tomava conta de seus amores. Quase o trivial mais assombra que mesmo uma coisa muito exagerada. A imagem das colegiais surgia. Se Pedronório sentia lá os seus desejos quando reparava numa curva de peitos meio molambentos, quando imaginava, em solução de um então, a sobresselência rude de um par de outros peitos juvenis, mais pena de si mesmo sentia. Um alvorecer besta podia estar tomando-lhe tentos em hora errada. Num cortejo de ovelhas decepadas da cabeça, sem sonho, enquanto impossível de sonos, contava todas que passagem na avenida. A marcha serelepe que envernizava a alegria de cada uma. Recordava-se da conversa banal delas quando passavam rente ao grande muro da herdade. Teve uma vez que colhia ervas inúteis, o quebra-pedra e qualquer outra beldroega amarga, agachado à sombra do muro, passaram duas delas. Sobraçavam seus livros e cadernos cheios de rabiscos. Vinham, ambas no desgosto de seus amores logrados, oxalá furtivos de nós. Falavam as coisas que eram comuns. Estacionaram ali à espera de uma outra que deveria chegar no atraso que compõe sempre o mundo juvenil. Pedronório, não visto, sem ver a face de uma ou de outra, aprumou seus ouvidos de cachorro-do-mato. Escutava. Seu coração batia descompassado. Secava-lhe a boca. Sentia um leve desespero, algo estranho, uma vontade esmiuçada de chorar. Uma outra vontade de correr até onde estavam, abraçá-las entre as filhas e as mães, protegê-las de toda esta escória voraz que cresce junto com a Cidade. Tinha pena, pudesse, convidaria para uma vivência debaixo de seu teto. A proteção que somente a caverna segura pode conferir. Falavam de seus enamorados, mas usavam muitos nomes, muitos sinônimos interessantes. Quando a conversa descambou para a banda da bocarra, do sexo, Pedronório exuberou a atenção. Falavam de coisas inusitadas para ele. Um homem com cinqüenta anos na cacunda e perdendo em assunto de conhecimento íntimo para aquelas pirralhas ainda com veias azuladas na crescida dos peitinhos. De repente, quase no momento da outra chegar, a esperada, uma segredou com sua voz de pachorra doce. Pedronório via as faces da duas. Tentou deduzir o hálito que sobressaía daqueles dois lábios retintos de batom claro.
- O dono desta chácara deve ser um tremendo milionário, terras grandes dentro do centro da Cidade. Se fosse tua essa terra, o quê é que tu fazias, hem, Mar’angélica?
- Vendia – sem pena de choro - e ia dormir as noites dentro do cabeçalho que ainda nem foi escrito...!
- Melhor ser dormida do que dormir, não é?!
- Sei-o, Vânia, ocorre que entre um e outro, regateia a minha alegria de viva! Nem sempre abuso de minhas sobras!
- Ahh!
Ouviu-se um estouro de chiclete de bola. A outra chegava. Gárrulas, todas acorreram aos seu caminho, o mesmo em uma, em outra. Pedronório ficou ali, agachado enquanto a tarde durou, a noite vinda. Não entendeu direito as misérias de algumas palavras ouvidas. Mas diante da palavra milionário, sorriu de inconveniência. Sentiu-se um grande comedor de feijão preto com farinha e toda a dimensão de um mundo particular fê-lo mais ataviado de elementos. Pobre como era, reviu as cores dos laços de veias escuras que ornavam as pernas de Bilica. As calças puídas de Timarco. Percebeu que o mundo é somente um balangandã que carece de vento para ser balançado. Toda ilusão revela a textura de uma ourivesaria sem nenhuma utilidade. Nada conjura mais importância, em certas opiniões, do que uma tintura rubra de condecoração. Foi uma noite esquiva em seus modos, depois de ouvir a opinião das garotas. Dormiu como quem se engasga com mingau ralo, meio abestalhado. Queria apanhar as palavras delas, pelas pernas, como se palavra tivesse perna para sofrer agarrão.
Dormiu afinal, e se não muito estivesse em seus enganos, Bilica sofria dos gases, não fazia a menor questão de deixar que algum estourasse enquanto, no disfarce fundamental, raspava a goela para dizer que não fora ela a dona da sangria. Pedronório acreditava que traques debaixo de cobertas são privilégios masculinos, e sempre desde que seu sangue corria lusitano. Traques femininos são coisas que não podem sequer sair de uma imaginação, que dirá de realidade integral. Apesar de tudo, dormiu. E acordou durante a madrugada de uma forma estúpida, sem entender direito o que acontecia com seus instintos e com seu corpo. Não despertava de uma maneira impune, cordata. Ou que fosse suave. Não era assim. Despertava feito um corte íngreme de faca. Um talhe abrupto na rocha mais magma. De chofre, o que para seu corpo e sua mente representava uma espécie de agonia difícil de ser explicada. Despertava de um sono que não havia, como se fosse assim. Seguida forma, cingia-se de uma angústia inexorável, maledicente, toda composta de um viés entre ente fantasma e vigília em decomposição. De fato, em primeira instância em sua vida, Pedronório soube dirimir a linha divisória que a loucura não possui. Olhava o teto e não podia saber nada que fosse além da agonia de um raio de lua que riscava seus olhos. Não dava àquilo o nome de angústia, mas dizia ser tomado de uma gastura besta, que não tinha ponta nem fim, somente a meada com laivos de espaventos. O ar do quarto necessitava de ser renovado. Os traques depsejados deixavam pesado e roxo o ambiente respirado. Toda angústia não passas nas ampulhetas que se tecem. A vida é irrisória, sem ser ríspida. Coisa acumulada.
Noites longas requerem a decisão de tempo indefinido. Arrastava-se aquela como uma mortalha sobre sopa quente. Sem ermo, sem vizinhança. Bilica era uma desconhecida que não carecia de explicação. Timarco era o coração puro, como os ventos que desciam das serras, do Amanhece, das beiras dos mundos de Goiás, da Emborcação e dos Três Ranchos. Tudo quanto era lugar merecedor de ventos dar as cambalhotas redivivas, o nascimento sem dor em parto, do vento em vento e moinho dele mesmo. O arraial do Ouvidor é bonito, todo plano de medidas. Temendo encontrar-se com o hálito que vinha da mulher, o odor de travesseiro velho e escumado, Pedronório manteve-se a noite inteira deitado sobre as costelas de um lado apenas. Chegava a orelha daquele lado a sobrepor-se, sobrepujado em uma quentura que irritava a alma inteira. Queimava, feito nos antigamentes alguém estivesse a maldar mal dele. Para aliviar um pouco o despejo daquela calorama de infernos, ele erguia a cabeça da paina do travesseiro e esperava um átimo de alívio. A recordação da égua era somente uma coisa de somenor importância. Apenas um travessão pequeno no dia que estava em elisão. Fosse outra coisa qualquer, ele se dizia, senão as sabedorias da natureza nem mote susteriam em sua razão. Outra coisa qualquer: uma besteira de maior naipe. Com seu corpo virado para os lados diversos da mulher, todavia ele recebia os gases que vinham da parte dela, que também evitava o seu defronte. De qualquer modo era a ilação do angustiado, a coisa ruim que ficava sem determinação. Timarco era rei, dono de todas as defesas necessárias ao calço de um homem, o rapaz ronronava feito num desperdício de paz. Nada atingia Timarco. Quase nada, pressupunha. Ouros, nem piches. Timarco ignorava.
Começavam a cantar as aves da composição em madrugada. As corujas desagoniavam seu cérebro. Nas beiras do Pedras de Fogo, avultava toda a gritaria de um universo próprio. Pássaro e ronco, gorgotar e cricrilo, monstros que não se vêem. Os paturis outra vez no recruzar do céu. Cidade grande empurra passarinho para onde ainda haja possibilidade, um lugar de mais invenção em sossego. Toda cinta comprimia o estado do lugar. Pedronório não sabia mais o que inventar para dispor-se sobre o mundo. Era um espinho debaixo da unha que lhe comia o ânimo, bem devagar. Por desconhecimento, chamava sempre aquilo de gastura. Nem sabia direito o que era, se a dor vinha de dentro ou se queria vir somente à furo, feito o carnegão; oxalá viesse de fora, feito a entranha que é invadida.
As dificuldades tinham, então, uma expressão de desconhecimento. Cada dúvida punha crise. Pedronório sofria e não sabia como e de quê, porquanto nenhum mais remédio houvesse para os sinais.
|
Q |
uando a manhã fez a barra e
o canto dos galos ciscou fundo nas têmporas do homem da casa, houve que
Pedronório encrespar-se de novo em real de coisa e mundo. Pelas cinco horas da
manhã. Fugidia ficava a moda de um despertar, pois que uma outra vez o
acontecido em coisas patenteava-se. Com um esforço de cadeiras, ele se ergueu
sem querer acordar a mulher. Em
ceroulas como estava, caminhou em buscas de janelas que pudessem ser abertas.
Num instinto de todos os dias – que instinto é coisa que consuma o todos os
dias -, dirigiu-se ao fogão e pôs-se a assoprar umas brasas de ontem. A Cidade
principiava o seu banzeiro de sons, crescida, inchume grande. As buzinas nas
tarjas das avenidas. Num assopro mais denso, cinzas revolutearam e encheram em
Pedronório os olhos de ardor. Fumaça brotou, regalias de atochado gosto, o
verde que renasce daquilo, mesmo que aquilo esteja seco. Foi que teve um susto
pequeno, como se o despertado anunciasse um fragmento mais de depois. Meio de
atraso. Veio-lhe a imagem de Granfina. Se estivesse mais sossegado de trâmites,
por certo que iria ajuntar-se ao fio do muro e espiar o movimento das colegiais
e das operárias em busca de suas células. A pressa de cada uma. A égua já
deveria estar morta. Era certo que sim. Aprumado de ouvidos, ergueu-se na
fumaça e ouviu a voz carinhosa de Timarco no azambôo da manhã que tingia já o
rosa de laranjões. As cores todas para as distâncias, para o Tijuco e os Pratas
que se acomodam sobre a terra.
Saiu porta afora, circundou a varanda e ciscos de
ninhadas de andorinhas e cascas de pau de pororoca caíram-lhe sobre o dorso nu.
Urinou cornadas. Mas já em mira tinha a imagem do filho que circundava o
pescoço do animal com um abraço justo. Quando a égua percebeu o seu cheiro,
pôde suster a cabeça e fitá-lo com a mesma doçura de antes, somente mais
apagada de cores e brilho. Pedronório sentia um nó absurdo dentro da garganta e
outro fora dela. Descontrole de todo o seu ser. Timarco tentava fazê-la beber outra vez, em vão, que o líquido
virava uma baba de pingo escorrido focinho afora. Bolero estirava-se em lugar
mais quente, suspirando sobre aniagens esquecidas a um canto da varanda. E quando o pai se aproximou, a voz do rapaz
anunciou.
-
Ai,
ela ofre. Precisa acrificá-la!
De início, um
silêncio, quase que um estupor ficava em cima do homem. Havia que sacrificar o
animal. Timarco sabia de umas decisões em boas palavras, em certas medidas. Mas
com que forças, agora que tudo descambava para o desconhecido mais pleno, com
que forças ajuntar conteúdos e acabar de matar? Com o pigarro esclarecido, em
rebôo curto, Pedronório achou jeito de responder ao sábio conselho do filho.
Não tinha dúvidas, se não fosse sacrificada, levaria ainda uma boa semana
dentro do sofrer continuado. Viriam as varejas inevitáveis, os putrefatos de
destino, tudo agiria em decompor o que mesmo ainda vivo está. Mais sofrer e
mais dor para o animal. Outra bala cumpriria a eficiência que a primeira não
tivera. Se mirasse bem, em acerto, era um tampo só, um furo único. Adeus daria
aos ares, à luz, a égua.
Bilica abriu
ligeiramente a janela e olhou na direção da confabulação silenciosa dos dois
homens. Um esgar veio ao espírito de Pedronório, mas fingiu que aquilo era
somente uma brandura de ventos que desciam as serras. Lembrou-se que respirava
ares novos, longe do escatol da noite atravessada.
-
Ai,
o ai precisa esolver o caso da oprebezinha!
-
Como,
com que apertrecho?
-
U tiro do ado do uraco da esta, bem pendido!
-
Tem
razão! Se é o jeito que se pode dar...!
-
Melhor
ara o seu alívio, Ai!
-
É
facto... é facto...!
-
Toda
culpa é o fardo esculpido em geléia!
-
Hem?
-
Ulpa
oda ardo culpido im eléia!
-
Ah!
Com a alma
imersa num profundo desconforto, Pedronório revelou-se numa surpresa que nem
mais era tão surpreendente. Sabia que em alguns momentos o filho deixava a
gagueira ou a falha de sons. E sabia que o filho dizia coisas de uma
temporalidade difícil de ser aquilatada. Sem desdizer-se, porém, sem alarde de
obtusa demonstração, fingia que se apercebia de todo o conteúdo contido nas
palavras reveladas. Em seguida, andou a buscar recurso outra vez na carabina.
Calçou a bala única por vez segunda. De haver-se em como, chegaria o cano bem
perto do alvo, faria um único disparo e depois iria respirar os ares puros de
sua libertação e do animal. Timarco usava, naquele instante, sabugos de milho
em crespo pente. Passava e passava sobre a crina de Granfina. A égua parecia
não mais sentir aquele afago. Mais parecia um cão à espera de um golpe de
finalmente. Todo tempo, esguelhada em fissura de janela, Bilica observava tudo
que acontecia. Acabara-se em seus solavancos de choro. E, não tinha mais uma
única lágrima que pudesse ser derramada, em especial caso, pelo seu animal
predileto, mesmo que fosse ele um santuário de predileção. Olhava para Bolero,
fazia cálculos. Por que o estafermo do homem não atirara ao cachorro? Seria
mais fácil jogar o cachorro ao lixo. Urubus vinham e capinavam. Pronto.
Havendo
percebido que uma segunda vez o homem fazia-se ao fuzil, a mulher deixou de
espiar pelas frestas e foi cuidar de oferendas ao nada. De longe, somente
embarafustando o que podia bem espiar, deixava os olhos compridos na medida de
uma mínima averiguação. Viu, nítido e preclaro, o momento em que Pedronório
enfiou a bala à agulha, depois de mirá-la contra a opacidade de um mundo cerúleo. A ponta romba daquilo, mas suficiente
para declarar a morte imediata. Bilica recuou. O homem não estava a regular bem
dos parafusos e arruelas. Sabia lá se ele não se virava e disparava contra ela.
Nem tanto fosse, mas sempre o possível.
A respiração da égua era pausada naquele instante, comum, como se não
sofresse de mal algum. Quando Timarco passava o pente de sabugo sobre e entre
as felpas da crina, nem mesmo assim ela se dava por inteirada de tudo aquilo.
Maior mágoa, a traição contra a minha inocência disponível, assim dizia o homem
lá com seus momentos de calçar bala em carabina. Se amanhecera uma manhã
lavada, depois da chuva mansa do dia que passara, toldava-se outra vez seu
mundo de uns relampejos de coisa ruim.
-
Ai,
não é ecado des-sofrer...! Ajuda na iberdade quase empre!
-
Hem?
-
Ão
é ecado!
-
Ah,
bom!
Então, o pânico
começou a invadir o peito do atirador.
Com a bala jogada à agulha, Pedronório ergueu a arma e fez a mira.
Enxergava trambolhos esparsos entre as duas orelhas, o vê formado por elas,
embora meio murchas de ostentação. Timarco recuou dez passos. Tapou os ouvidos
com ambas as mãos, como soem fazer as crianças diante de um estampido que vai
acontecer. Fechou os olhos e mordeu a língua enorme que sobrava para fora dos
lábios. Gárgula, a figura de Timarco agora era. As calças amarradas com um
cordão ordinário cismavam em cair. Ficava o rego escurecido à mostra, como se a
trivialidade do caso não sugerisse a menor diferença entre um pensamento e uma
agonia de centro lúcido. Tomando a posição de tiro, outra esguelha soube nele a
fresta por onde Bilica observava o movimento. No balanço de ir e submergir,
feito onda, o pânico invadia a alma do homem. Suores surgiram na testa e um
desejo seco de urinar. Feito fosse preciso fazê-lo, mas não houvesse urina
suficiente para ser vertida. Timarco estático, à espera do estampido. E nada.
Oscilava a mira de ponta fresca entre o vê das orelhas. Um fracote, pensava
Bilica, mas prudente o suficiente para afastar-se do marido. Sabe-se lá, ela
repetia a pentear-se diante do espelho.
De alívio que
sempre se precisa, Pedronório sentiu que mais uma vez os ventos que eram de
chuva cravejavam os ares de sua passagem.
À sua passagem. A carapinha arruivada percebeu a diferença entre um
antes e um agora. Todos os depois já semelhavam uma espessura de outro tempo.
Bastava. Nada mais temeroso que o pânico. Desafivelando já o cinto, Pedronório
correu para o centro das moitas de jaraguá. Não era vertida de súbita
arrancada. Era a obra que jus descia. E nem, num instante como aquele, havia
como registrar o seguro dela não lhe encher as calças. De facto, estava nas necessidades de
livrar-se de um empanzinado. Deixou a carabina recostada a uma laranjeira seca
e supriu-se em alívio. Acima de sua cabeça, somente então, na densidade úmida
da manhã, os vidros da luz atirados uns contra os outros, na reles dobra das
refrações, Pedronório deu-se conta da azul complacência da redoma do céu. A
imensa volição de um mundo que cativava, como sempre alguns dias antes, fosse
de sua tenência a observação daquele universo de simplicidade arreganhada. A
carabina parecia-lhe um objeto de meias verdades, mas de dureza extrema. Nem
mais se dava ao embalo de um som de disparo, havia quanto tempo? Nem soubesse,
mas apenas aquele que fizera à cabeça da égua havia uma coisa de doze horas.
Deixou o alívio descer, protegido das janelas dos prédios pelas copas fechadas
de todo o arvoredo. Acima de sua cabeça, não apenas a redoma da amplitude, mas
o bando de anus pretos que agourava a cor de ser ave. Nas gargantas das aves, o
grogotar meio mamífero, meio fescenino. Assim estando, principalmente pela
posição em que se encontrava. Pedronório, esquecido de que o mundo era mundo,
debulhava um torrão de terra branca nas mãos, um cascabulho endurecido pela
regra do sol. De cócoras, independente de tudo quanto era regalia e de qualquer
outro esmero que exalasse uma distinção, ele exultou em ouvir o gargantear dos
anus. As coscuvilhices que os velhos mais antigos diziam que eles tinham,
somente pela devida feiúra escura que era a de cada um, qual um chapéu-de-sol
esquecido nas drapejadas de relento. Com os tentos alongados e capangueados a
roçar a superfície da terra, o homem escorava o queixo apoiado à palma das
mãos. Esteve perdido em suas considerações vazias até que a dormência tomou
conta das coxas. Sentiu a subida das formigas pretas pelo embornal acima. Deu
dois passos adiante, mesmo sem erguer-se, como faz o sapo quando quer aluir-se.
Então, quebrou mais torrões entre os dedos e sujou debaixo das unhas com os
fiapos da terra. Pares de maracanãs cortaram o vazio dos elementos e pousaram
nas mangueiras frutificadas. O grasnar sem fim das aves. Mais desperto,
Pedronório, cagalhudo em final já de expediente, experimentou o som continuado
das avenidas, o rumor entre alto e tom, entre estado e adiante. O sapatear
regular dos carros nas mudanças de marcha. As tarraxas de zunidos que eram
pressentidos, mas jamais vistos. Como estalar de vidros partidos anunciando um
incidente em avenida. Estranhamente sentiu-se em casa. Como se houvesse uma
hierarquia inequívoca entre o seu momento e um dia de morte. Coisas de seu
bestunto. Impossibilidades nem tão assim.
A nascente do
Pedras de Fogo borbulhava na grande licença de todos os silêncios. Bem ali
rente. Se acaso desse certos passos para trás,
daria com os calcanhares nela. Por certo, era o lugar mais puro dentro
da grande Cidade. O que permanecera intocado, bem como a cercania interiorada
da herdade. Bilica era também pura, lá ao seu modo, infensa aos porquês de um
mundo externo. Se apreciava as novelas de televisão, aquelas mais vazias,
quando via os galãs nos beijos mais comestíveis que beijáveis, arregalava os
olhos e revirava um desejo que não era seu, mas advindo da licenciosidade, da
luxúria de que desejo dela fosse
despertar o desejo de um homem daquele calibre. Ficava à mercê de todas as
aventuras que nascem do aluguel das mentes sem privilégio. As porcarias
descartáveis que navegam nos ares das coisas magnéticas. De Timarco nem era
preciso requerer o pensado, pois que o rapaz era por si o des-elemento de uma
conjuntura estranha, mesmo sendo ele o pensado em-todo. Sábio, Timarco aprendia
depressa as coisas que via. As tarefas que exigem talhe e cinzel. As canções
mais exóticas. Calado, Timarco num riso desmontava uma vergonha em face alheia.
Lágrimas
escorriam agradecidas em sua face. Era o final do finalmente. As últimas listas
que se cumpriam. Enxugando uma lágrima esquiva com o braço, uma que teimava em
rolar pelo seu rosto sem dor, Pedronório saiu da posição de cócoras e ouviu
nítida voz de Timarco no chamado.
-
Ai,
em ‘m home aqui que quer alar com o nhor!
-
Já
vou. Mas que hora! Nem se pode mais obrar em temência a Deus, em paz e com a
carga toda esquecida!
-
Ai,
‘m home procura o nhor!
-
Já
vou, estás surdo ó Timarco?
-
Alei
que o nhor passava um taligrama e ele não acreditou!
-
Volta
lá e fala que já vou...! Que já desocupei o telégrafo e o telegrafista!
Timarco descia
em direção à moita de jaraguá. O pai erguido, passava as presilhas ao cinto.
Diante da laranjeira seca, o rapaz estacou e proferiu seu discurso. Irritadiço,
como sempre fora ao ser interrompido em suas mais nobres funções, Pedronório,
proclamou uma série de palavrões do tempo do império, proferiu outros mais
novos que ia aprendendo aqui e acolá, pelas ruas afora. Tudo vinha sobre ele.
sempre aborrecimento. Ninguém vinha dar-lhe uma rosa. Era somente bucha.
-
Ai,
e a égua? Que ora a ente uida ela?
-
Depois,
deixa eu resolver o imundo que esse homem deve querer comigo! Depois se pensa
na Granfina!
-
Á
bom!
Subiram, ambos
em sua mole dança de pernas. Um, magriço e espevitado, o outro enorme, as
nádegas sobrando para fora do cós das calças. Bilica, sentindo a presença de
novidade dentro de casa, correu a socorrer-se de certa simpatia. Atiçava o fogo
para passar café fresco. Levando o café aos homens, haveria de aproveitar
alguma palavra a mais, em vez de somente escutar por detrás das janelas,
agachada rente aos batentes. Preferência dela era assim, se ouvisse sem ser
vista, o gosto pelo proveito era sempre redobrado. Um vício que trazia desde os
tempos de solteira. Pedronório argumentou consigo mesmo, que as vitualhas plenas de Bilica eram a regra de
um reconhecimento muito antigo, nem mais fosse defeito, mas uma escoriação da
alma. Uma coisa que aceita fosse, embora esconsa, como uma cancela quebrada que
ninguém conserta. Como sempre as
qualidades encobrem as desgraças do defeituoso, a complacência de um elástico
estica até onde o tempo permite o esquecimento de um estado anterior às custas
da proeminência de um que acaba de surgir, novo em folha. Havia trovões para os
lados do Amanhece. Para mais distâncias. Para o Bom Jardim do mulato Tião do
Neneco. Muitas distâncias põem saudades lusas daquilo que sequer se conhece.
Acabando de
subir o trilho batido até a varanda, Pedronório avistou o homem. À sua
passagem, apanhou uma mão de pilão que estorvava o caminho e meteu-lha na
cumbuca do madeiro. Caminhou resoluto, as botinas chiando à cada passo, um dos
dedos saindo para fora do couro, um buraco que ele mesmo fizera ao calçado
velho para facilitar a respiração de um calo de estima grande. Estava diante do
sujeito. Um homem de olhos claros e barriga proeminente, se se fosse considerar
a estatura pouca. Sem ser retaco, porém com bons ares de honestidade, como
deveria ser cada cidadão – assim pensava Pedronório -, a muito menos que dele se comprove o
contrário. As bochechas vermelhas, a fala amansada pela lida das conveniências
urbanas. A Cidade crescera em demasia, acatara tudo quanto é tipo de gentes. O
cinto em torno das pessoas, a herdade perdida no meio do concreto. Pedronório
sabia, nem adivinhando, mas desconfiasse da razão da vinda do homem. Não era o
primeiro, nunca seria o último. Bilica punha olhos de tilanga na direção deles,
assoprando a fornalha com força redobrada. O estalejar das lascas de canela
rachadas a machado empunhavam o doméstico aos ouvidos de um, o estranho ao
ouvido daquele que acabava de entrar num mundo sub. Os ares de chuva anunciavam mais, as amenidades que
sempre se destilam de uma chuva.
-
Bom
dia, Seu Pedronório. Que faz o dia mais bonito do que a despenumbra, não é de
ser o estado?
-
Dia
bom, Siô. Todo dia é bonito entre a sola das botinas e a cumeeira do chapéu,
para quem agraça a engraça do sossego!
-
Minha
Nossa Senhora do Desterro, o senhor é poeta. Bem mo disseram...bem mo disseram...
o senhor sabe pontear o verso e a palavra!
Sei a cor da chita. O senhor verseja!
-
P’ro
gasto. Se nem vingo o avesso das bugigangas. Somente aliso o vento quando ele
bole com a minha divindade. Vento é carente das alisadas, quase que gane fino
em viajem!
-
Minha
Nos’Senhor’Dester... O senhor acha fundamento na loucura, é o que vejo. Benza
Deus a louvação do estúrdio!
-
Pr’o
gasto! Qual é a graça da sua participação!
-
José
Catavão! Guimo para os mais achegados, como está o senhor nesse momento de
fraternismo! Sei a cor da chita!
-
Então,
Siô Catavão, arreda o banco e ache o descanso. Em casa o Siô sempre está. Um
café sempre se bebe!
-
Cortesia
dispensada chega a ser agravo! Respeito e aceito o que for de coração. Sei a
cor da chita!
-
Do
mesmo tamanho que eu penso!
O homem José
Catavão puxou uma das cadeiras pesadas da varanda e abancou-se. Olhou em torno
como se medisse as glebas. As mangueiras silenciosas e as cajazeiras, um pé de
caqui que frutificava. Olhou os ramos baixos, as ervas sem nome, as beldroegas.
Chegou a erguer-se da cadeira para apreciar a distância por onde escorregava o
muro que separava a herdade da avenida maior. Com a mão em pala estudou a graça
amarela dos prédios que muravam o fundo. Ouviu muito pio de sanhaço entrançado
com buzina de caminhão. Uma espécie de desafio tinha diante de si, nada que
pensava não ser solúvel. Comichão na palma da mão reza a chegada do dinheiro,
assim qualquer homem sabe desde os tempos das verdades integrais. Mirou depois,
num giro em que a barriga ficou maior sob a camisa de listas azuis claras, o
dedão do caipira a sair por um buraco feito ao couro da botina. Nem tinha
vontade de rir daquilo, mas somente um desejo esquisito de admoestá-lo com
nomes acintosos, como palhaço, vagabundo, caipira ou avaro. Dono de uma das
partes mais poderosas de uma Cidade do porte de Mirablia, e sem dela poder
desfrutar um único e mísero centavo, somente pela causa de uma imbecilidade
difícil de ser ultrapassada. Com os olhinhos azuis plenos de uma sabedoria
escorregadia, o homem Catavão voltou a sentar-se e depôs os olhos na égua
Granfina que respirava ares pequenos, ali estirada, entre um tronco de ipê e a
varanda. Milho disperso perto da boca, a cuia d’água, tudo que Timarco houvera
deixado. Uma curiosidade maior que o desejo de agredir supunha agora as maiores
intrigas nele. Que diachos era aquilo. Dois homens sem fronteiras – pai e filho
-, um cavalo sem asas. Riu-se, despretencioso enquanto coçava a pança e olhava
mais terreno em volta. As fortunas que caem de todo canto. Muitos dela não
sabem uma única migalha de proveito. Ele era o Guima, sabia a cor da chita.
Viera para conversar, explicar as coisas como é que eram. Podia ajudar, somente
deixar pressuposto que seus cinco por cento de comissariado eram a parte que
falava em bolso.
-
Sô
Pedronório, o que é que o cavalo tem... Doente?
-
Cavalo
não, Siô. É égua!
-
O
que é que a égua tem?
-
Gogo!
-
Sou
nascido em lugar de lá da divida do estado,
aqui quase perto, nas beiras do Marimbondo, mais somente que uma
cusparada de tamanduá - a distância -, entendo de banda roceira, portanto, como
o senhor. Sei que gogo é doença de galinha! Animal de sela sofre outras coisas.
Vejo um buraco na testa dela, um rompão parecido com esfolado de bala!
-
A
égua tem gogo. As coisas aqui estão meio estabanadas. Nem é pior o senhor saber
que as galinhas dessem leite? Pois então...! Ou que porco pode equilibrar-se em corda bamba? Pois então...!
-
É...
de fato! Bem mais atabalhôo!
Sabendo, no
desconfioso, o que o tal Guimo viera fazer ali, Pedronório esperou que o homem
mesmo dissesse, sem perguntar nada. Sem ser requisitada, Bilica surgiu de
repente com uma bandeja trejeitosa às mãos. Vinha descalça, o vestido puído
sobre os peitos bambos, uma mancha ordinária de carvão e óleo do outro lado.
Pedronório olhou a borda dos peitos e sentiu leve fogacho nas partes. Diabos
fosse aquilo. Bilica era amarga, ele sem-vergonha. Assim é que se pensava, em
si; ela, em si. Em xicrinhas bordadas com desenhos de pintainhos – daqueles que
não se fazem mais -, em porcelana fina, a mulher serviu o café tirado de bule
velho. O longo bico do bule dava ao homem Catavão uma sensação de raiz que
nunca viria à tona. Sorveu-se em silêncio e chuspo quente, o assuvro frio, o
café todo que cabia na xicrinha. Guimo aceitou mais uma leva, tão bom, dizia
ele, o espesso diferente da cocção. O que se leva do mundo, até sabor em
sabedoria de língua, ele dizia, em seus refloreios de querer fazer a palavra
marcar. Estava ali, perseverava em consciência, somente para ajudar. Ninguém
trabalha de graça, as percentagens de reajuste, o seu quinhão.
-
Marca
tem esse café, qual?
-
Eu
mesmo planto, eu mesmo colho, eu mesmo espalho, moo eu mesmo, eu mesmo passo,
eu mesmo assopro e bebo! Eu mesmo acho defeito, avessos, acho dádivas!
-
Então
a marca é eu mesmo!
-
Bem
sendo, nem se carece de mais outra ironia!
-
O
senhor é bem traquinas! Sei a cor da chita!
-
A
herdade é grande, ainda conservo uns cem pés de café, somente para uso nosso.
Bilica torra, gosta do serviço. Timarco é nêgo teso na colheita. Timarco é
aquele rapaz ali, meu filho... aquele que assopra a flauta de talo de folha de
mamão. O parrudo. Jeito dele é meio inocente, mas Timarco é supimpa. Espia o
amargo deixar o canudo do talo de mamão enquanto Timarco assopra!
-
O
que me atendeu ao portão! Vi nele que fala muito pouco. Mais olha que espera,
mais espera que muge! Vi logo a cor da chita!
-
Justinho
o mesmo! Calado como pássaro bonito demais. Tem penas de beleza, não precisa da
prosa!
Bilica recolheu
as xicrinhas e afastou-se, em silêncio. Pedronório achou jeito educado na
mulher. Saída sem ser preciso ser mandada. Sabida. Ativa. Aproveitou a deixa de
ser maioral – e pensava, não dever nada a ninguém – e coçou a protuberância
amarela do calo que sobrava à botina.
Se tinha um tudo, as cartas boas para um trucado de depois, esperava
para ver até onde o Guimo queria chegar. Guardava as manilhas dentro do trivial
do silêncio. Uma hora qualquer o homem ia dizer a que vinha, ia falsear o passo
e tomar um seis de vertente sem jeito. Se corresse da vaza, era atirar nas
popas e pronto. Esperaria. De engodo, devagar, deixaria a arapuca armada com
envergadeira leve, tipo um graveto de marmeleiro. A conversa mole do homem até
que teria um fundamento de passatempo, acaso não tivesse arremedo de coisa
pior, o engana trouxa. O famoso canga-macaco. Pedronório via, rabo de olho, a
imagem de Bilica entre os aparatos de cozinha. De um ressentido, teve uma
pontinha de dó da solidão que ela argamassava. Vontade súbita de dizer duas
conchas de palavras a ela. Afagar, falar que impostor era ele. que ela tinha s
permanências de bom estar. Todavias. Bilicia iria recusar a palavra, que dirá o
gesto que fica afronta em descostume.
-
Sô
Pedronório, venho de boa representação. Não sou dono de nada. Somente cá estou
em urdimento de negociar. Dar conselhos, se quem precisa fosse bom, acaso nem
seria de graça, mas do preço que as coisas andam...! Sei a cor da chita, quem
não vai para o céu não adianta olhar arriba!
-
É.
Quebra-se o machado no mato onde se lenha!
-
Então...
Sou da S&S Imóveis, a mesma que deixa o impresso cá em minha pasta, ó...
aqui. Ó o S&S! Bem grande que é para ninguém achar que a gente não é do
ramo das negociações!
-
Que
muitos os parabéns para o senhor Catavão!
-
É
isso. Sei que houve ofertas para o seu negócio, nenhuma de seu agrado. O que é
que te adianta haver essa imensidão aqui
no seio da Cidade grande? A barulheira, as poluições. As desavenças,
desagravos, desgraceiras, despirocadas, desbandeirolas! Sei a cor da chita. Em
uma semana faço do senhor o mais novo bilionário da Cidade!
-
Escuto
como escutei todas as outras proposições. Pode falar sem o medo do enguiço. Sou
da paz!
-
Sinto
a cor da chita. A S&S – que represento – age de boa fé. Paga bom preço por
tudo. Cá está o projeto novo para o que chamamos de Real S&S Park. Um
conjunto novo de luxo antigo. Coisa finíssima. Espia só o projeto...! A maquete
que chamam de maquete!
Com olhos de
sapo que dorme em paz, saciado de bundas enormes de tanajuras, Pedronório viu a
maquete que o homem abria diante de seus olhos. As cores ocres, azuis e verdes
que avisavam a presença de construções gigantescas. Examinou aquilo e achou
bonito. Calado, sentia irisão entre a calça da alma e a camisa do corpo. Um
mal-estar mais súbito enviesou-lhe o estado de como ser. Refletiu-se em um
instante. Bilica era pura diante daquele homem. Quem diabos era Bilica? Quem
diabos era aquele sujeito, o Catavão? Imposição de intimidade, ele ser o
Guima. Um homem que projetava prédios
sobre as nascentes das Pedras de Fogo, um lugar que nem dono direito tinha, mas
somente a propriedade de uma proteção que até então ele nem sabia mais como
soubera – ou pudera conservar. Seria a vigésima vez, sem contas, que delas
estava perdido, Pedronório recebia as visitas. E sempre com a mesma batida de
tecla. Nem merecia tanta consideração. Um pobre infeliz, matuto, visitado por
tudo quanto era tipo de gente graúda,
entendida dos modos e das legalidades. Com olhinhos de esperteza, o Guimo
esperava uma resposta. Punha o dedo sobre as obras desenhadas. Mostrava onde
seria o pleigraunde. Pelo que pudera entender, mais ou menos, o pleigraunde
ficaria exatamente onde estava fincado o círculo dos grandes cedros. Cada
árvore podia contar seus setecentos anos? Pode ser que sim, embora ao homem
Pedronório ficasse muito difícil averiguar a demência ou a sapiência das coisas
medidas em tempo. Idade de árvore é lobo que não se vê. Quam sabe mais do que
aquilo que é mudo, o que não fala porque não carece de ser acreditado, mas
somente sentido.
-
Então,
não vale a pena? A cor da chita. Não é bonito?
-
Que
é bonito, é. Que vale a pena, nem sei se tanto vale! Há muito que calejei o
espírito, como calo em pé de burro!
-
Nossa
oferta não é pequena, dá para o senhor comprar um belíssimo sítio em Monte
Alegre e cultivar abacaxis pelo resto de sua existência. O senhor é moço novo,
há que viver a fortuna do sossego, adquirir um automóvel, visitar os parentes
que estão espalhados aí pelo Goiás afora! Ou ir embora para Pirapora, comprar
um barco com motor e arribar pelo São Francisco, até limites de onde existe a
Januária.
-
Não
tenho parentes em Goiás adentro! Januária é longe como a entrada dos infernos!
-
Na
mexida é que se acha o ouro! A Chita que eu sei!
-
Cuá!
-
O
ouro!
-
Cuááá!
-
Ninguém
nega o doce do ouro! O que apregoa a calma, não faz a felicidade, mas comove a
alma. Sei...!
-
Cuá...!
Diante da
irreverência do homem, o outro tamborilou sobre a pasta. Gotículas de suor
surgiram na testa. Um imenso prazer surgia nos lábios de Pedronório quando ele
mais se dedicava ao calo. Retirando o canivete do bolsilho, aparou a nojeira
esbranquiçada que caía sobre a laje do chão. Catavão olhou aquilo e deu um
suspiro de desespero puro. Olhou a égua moribunda, a que sofria de gogo.
Depois, viu o caipira bater a binga e acender um pito. O chapinhado do cheiro
nas orlas do ar, fumo especial. Incenso da hora. Deu de perguntar coisas sem
importância. Perdido do assunto de antes, talvez quisesse entrar em banda de
alguma intimidade. Poderia quebrar a resistência, a couraça do outro, a coisa
que a ele surgia como pura avareza.
-
O
senhor também cultiva fumo?
-
Somente
para o gasto, conforme cheira. O almíscar O senhor aprecia o meu fumo, assim?
Tomado de
espanto, o assunto de fumo era desagradável. Diachos, apreciar fumo. Para o
inferno, pensava ligeiro. Catavão guardou seus papéis e diante de um passar bem,
pense no assunto que volto depois, saiu portão afora e pôde muito bem estar de
novo em casa – oxalá não -, quando misturou-se ao grande bulício da
modernidade. A Cidade crescera em demasia.
Com suas listras de conceito azul e branco – camisa e mangas -, sumiu-se
entre as faixas e os pedestres. Pedronório ficou observando o seu passo até que
atravessou a avenida. Seus passos miúdos e a pasta perdida entre os dois
braços, em pinça. Um desgosto estranho tomou conta de seu fim de dia. Ainda
mais a égua moribunda, como um grande cravo debaixo de suas unhas. O homem
Catavão, abelhudo de modos, impressionado com o caso do animal ali, coisa de
família. Coisa que somente cabe a dissolução a quem quer fazer-se consorte. Não
para estranhos.
Caminhou sobre
seus rastros e ganhou novamente o espaço da varanda. Admirou com sinceridade e
conforto os pés de cedro, todos os oito. Cada um, de tão grosso, no tronco não
permitia que cinco homens abarcassem. Velhismos de um mundo que não existe
mais. Catavão veria jeito de ganhar lucros com as árvores derribadas, por certo
que sim. Todavia, para Pedronório as coisas eram mais sutis do que uma cagada
de sanhaço e mais fervilhantes do que um amanhecer com cantata de sabiá.
Tomando de parte as coisas, muito mais lhe era resto. Somente.
|
Q |
uando o homem Catavão partiu
dali, de alguma forma uma arrelia mesquinha assomava-se ao estado de existência
de Pedronório. Um vazio grande, porém, varado de uma paz muito delicada. À
varanda, pôde outra vez dar conhecimento do sofrimento da égua. Mirava-se na
oportunidade de todos os seus mais íntimos louvores domésticos. Quando passava
pelo animal, percebia as ventas abertas na continuidade de um cheiro
reconhecido. Sentado ao lado do pilão, Timarco esfregava pau contra pau, no
sentido de dar um polimento àquilo que enjambrava. Para o rapaz, a égua
encontrara algum conforto, a dor pudesse ser menor. Já era alguma coisa. Para
Timarco, sempre a dor era coisa sem merecimento. Ninguém merece sofrer dela,
ele se dizia, cheio de voz própria. Balançava a cabeça e deixava ares sérios em
torno de sua pessoa. Timarco tinha as razões, quase que sempre as tinha. E
nunca media um conhecimento, nunca comparava. Quando afirmava qualquer coisa,
se acaso alguém dele discordasse, ficava o dito por não dito. Dava de ombros,
pouco importava-lhe o tamanho de cada opinião, a sua, cada um a tinha. Pronto,
não se discutia.
De suas recordações mais burlescas, Pedronório sabia-se a
um mundo muito diferenciado. Nascera na herdade e fora criado nela. Saía para
fora de casa, fizera o curso primário na grande Cidade, na época em que ela
ainda rastejava em nome de ser metrópole. Estudara até onde fora-lhe possível,
pois que os pais, no depois do frigir bem dos ovos, acreditavam que nem tanta
sabedoria assim fosse necessária a um homem para que ele sobrevivesse a
contento. O seu mundo foi afastado da escola. Labutou nas hordas da terra, sem
tirar dela nada além do sustento, sem pôr nela nada além da semente e do
remédio preciso ao seu arejo. A herdade sempre fora daquele porte. Não crescera
e não minguara. A nascente do Pedras de Fogo nunca se descompusera dali.
Porquanto mais se entendesse como gente, sempre ali fora o reduto de suas
artimanhas e de sua longevidade. Uma coisa que ficava inerme em seu pensado,
por mais que nisso afagasse as estranhezas, como foi que Bilica surgiu em sua
vida assim de uma forma peremptória e aguçada, mas de tal forma irrevogável,
que dela jamais pôde manter a distância de mais que um avesso. Coisas que são,
e que nunca serão o contrário. O que fica como pensado. O que esboroa e nunca
pode voltar atrás. Ele, mesmo com certas intempéries, dizia-se que não qeria
outra vida, se acaso pudesse haver nele recomeço.
Quando Pedronório veio à luz do mundo, Bilica já era
moçoila com cabelos grossos às canelas. Devia contar seus dezenpve, vinte anos.
E vivia na herdade vizinha, aquela que dividia as cercas com a que então se
preservara. Ambas, de lugar somado, tomavam o batismo do lugar do Camaplegr’. A
outra, onde nascera Bilica, fora engolida pelo redemoinho de todo o progresso.
Era o ano de cinqüenta. A cidade ainda engatinhava em seus premonitórios de ser
a grande de um dia. Onde estava riscada uma das avenidas, bem cerceado de mato
de são caetano, estirava-se a cerca da outra chácara, lugar onde Bilica
crescera. Engrossara as panturrilhas no refogado de abóbora madura com farinha
de mandioca, afora os leites de qualidade integral. Tudo às beiras da nascente
das Pedras de Fogo. Como a água de uma das herdades fosse bastante, suficiente
e limpa, dividia-se a fartura com quem dela precisasse, sem que isso fosse
alarde de usura, tampouco motivo de qualquer desafeto. Eram os tempos em que a palavra valia mais que um embornal
cheio de dividendos. Abria-se uma porteira e o gado de um lado bebia no
manancial que era do outro. Via da paz. Nada sem regras. Era assim desde tempos
imemoriais, quando nem conta mais se podia dar de quem chegou primeiro, a
ravina, o vento ou os transgressores que vieram ocupar lugar entre os elementos
da terra. Bilica, rapariga inteira, nutrida com a força da terra, crescera
assim, fina em baixo, muito de ombros grossos em cima. Sertaneja, poder-se-ia
dizer.
Por haver entre os dois jovens uma diferença grande de
idade, nem era sempre de se vê-los nos folguedos comuns de tais lugares. Quando
Bilica tinha trinta anos, Pedronório encorpava mal e mal os dez. A moça,
todavia, mantinha-se incólume em seus enredos de donzela. Criada na lida do
campo, na espera de ver a Cidade crescer, era fácil ver-se nela as qualidades
das duas estações. De uma forma gutural mantivera-se pura, de outra forma
providencial – embora nem tanto -, adquirira o semblante consumista. Devido à
curta distância que separava as duas residências, era comum haver-se as visitas
entre as criaturas. Foi assim que Bilica pode embalar o menino quando ele ainda
estava sujando cueiros e fraldas. Via graça naqueles seus modos avermelhados.
Mas nunca poderia imaginar que um dia fosse viver com aquele pirralho
esquisito. A vida sofreria de seus tropeções. O destino que não se comanda, de
forma nenhuma se pode comandar. As reviravoltas inevitáveis. E a Cidade tomando
devagar o porte de muitas alucinações, ficando grande, navegando no rumo de
outras nascentes, de outros morros, as esplanadas estiradas que compõem a luz
diáfana de Mirablia. A beleza que vem de longe, comanda as vistas de qualquer
viajor. Diáfana, é certa a palavra para os vitrais do lugar, as veredas que
aceitam ventos de distância maior. Bonito de se ver.
Bilica nunca fora aquilo que se pode dizer uma mulher
dona das belezas. O nariz adunco destoava de motivo, de fascinação. Mas tinha
as pernas fortes, os seios aptos a amamentar uma ribalta de cordeiros. O corpo
era bem feito, embora a cintura sofresse de alguma falta de cintilação. Quando
Pedronório já galinho encorpado ia aos pastos para recolher um bezerro,
verificar uma vaca parida de novo, se se encontrava com a moça – que ia aos
mesmos delegares – trocava um dedo de boa prosa. Falavam de coisas que não tinham muito fundamento. Ele era um
fedelho, ela já na espera dos homens que lhe propusessem a fortuna de um
enlace. Achava que a arrogância da rapariga em nada podia a ele ser de
utilidade. Era assim que a via. Arrogante. Dela tinha um certo receio. O que em
verdade havia, nem era a arrogância, mas a pertinência da diferença das idades.
Tão e somente, fosse mesmo o caso. Os assuntos pautados na algaravia de mais
nada que não fosse um campânula de labor. Ouvia reparos, palavras de Tião do
Neneco sobre ela. Carecida de tutano de homem, ele dizia. Fina em baixo, larga
em cima. Acrescentava o mulato, convicto. Seu conhecimento.
Um dia,
Pedronório, o menino apareceu, vinha montado num cavalo trotão. Naquele tempo,
a Cidade espichava as ruas em direção a modernidades, porém, as duas herdades
mantinham-se como área de alguma distância. Surgiam sobrados, que eram aqueles
de encher olhos. Surgiu Pedronório
enquanto a rapariga vigiava para que os urubus e os caranchos não comessem o
umbigo de um bezerro novo. Quando
aproximou-se, foi saudado mais pelo mugido da mãe do que propriamente
pelo saudar da rapariga. Via nela um desejo, alguma coisa estranha, porém
cabal. Sentia os bagos contra o liso do arreio e a pequena virilidade
crescendo. Os seios enormes sobrando para fora dos panos incapazes de
contenção. Se não era bonita, era um exemplo de fartura, assim reclamava-se o
menino, em pensado esperto. Aprendera já a verificar certos bordados, o acto de
libidinagem dos animais mais encorpados. Os garanhões no assumir da posição. Se
nada a natureza esconde, nele a invenção viera no prazo certo dos olhos poderem
ver. Não fora diferente. Mais vestida como homem do que mesmo uma coisa
feminina, Bilica olhou-o atravessado, como quem desafia uma imbecilidade. O
Campalegr’ era bonito em demasia. Somente não via quem não quisesse. Os planos
que somente descambavam para os lados da nascente do Pedras de Fogo.
-
O
quê que tu procuras de cá, ó menino?
-
Uma
das nossas reses, já que porcas não se campeiam!
-
Estás
com a língua afiada! Dê a volta nessa égua despelada, senão agora mesmo tu vais
pisotear o bezerrinho aí, diante de teu focinho!
-
Não
tem perigo. O cavalo não é refugão, nem nada!
-
Ah!
Sei!
Não foi, de
natural substância em coisa, a primeira vez que se haviam encontrado no só de
uma chapada. Pois mesmo o menino sabia que havia sido embalado por ela em dias
de festa de Santos Reis, em janeiros de um tempo mais esquecido. Em cueiros
tinha sido embalado. Todavia, do que não podia se lembrar, de uma maneira
clara, era das dimensões de encontros entre eles que aconteceram até aquela
data, tempo grande em que Pedronório aprendera a pensar, em seguida a refazer
memória. Nunca requisitara beleza nela. Nunca se lembrara de coisa assim, ver
beleza nas pernas robustas da rapariga. Podia, isso sim, ver nela a ousadia de
uma amizade esquisita, coisa que ele jamais poderia imaginar que fosse
descambar para uma colisão. Se naquele instante pudesse aquilatar, veria nela
apenas um convite, pois que a agressividade era aparente apenas. Pedronório não
ajustava valores para compreensão, com a era que tinha.
-
Tem
pagode em casa no sábado que entra. Vem gente até de mais longe, já se sabe.
Falam. Pai esticou varanda, cobriu com palha de buriti. Tu também bem que
podias estar na dança! Já tens buço. Tua avó te deixa ir? Deixa sim! O
Campalegr’ alegra-se mais!
-
Não
sei se vou. Se Avó Semira deixa. Se Avó vai.
-
Para
tu nem é baile de dança. Não tens sofrimento de sossego, tu és menino...! Mas
bem que podias aprender!
-
A
dança só começa depois da reza. A novena.
Não tem quem não vá, de usufruto. Tião do Neneco é quem diz. Tenho
sofrimento de sossego, sim. Dançar é o argumento que já nasce, as cinturas!
-
Ajudei
em todo reparo. Subi nas ripas para o esticado da palha do buriti....! Fiz o
tudo!
-
Então
é o certo que vamos todos, mesmo na perrengueza que facilita dentro da vida de
avó Semira...!
Desprovido de
qualquer argumento maior, Pedronório calou-se e deixou o cavalo pastar capim
novo, o em torno. A rédea solta e o conforto muscular de uma mudança de passo.
Sentia a virilidade firmada no couro do arreio. O movimento de rotação,
amebóide, torcido que em primeiras vezes principiava a sentir nos tentos, como
se eles sozinhos tivessem vida. Lembrava-se de parar sempre a uma sombra, sacar
para fora dos panos o pequeno escroto e examinar os pseudópodos lançados aqui e
ali pelo torcido dos tentos. Achava novidade. Porque, para ele, jovem como
estava, movimento de colhões era distinto de movimento de olho. O olho, par
deles, tão provido de sua nudez particular, a ponto de qualquer um poder
examinar a procedência de uma piscadela, por exemplo, de uma arremedo de
afetação, da brabeza reptilina do pai, quando ele se desgastava com qualquer
enguiço, uma rês que era sofrida de desmando, vaca que escondia o bezerro ou
que escoiceava na hora da peia. Em todo
bem pensado, colhão era magma de mais sabedoria, o objeto de uma regalia sempre
mesurada, cheia de conveniências e proteções. A coisa mantida no segredo e na
sombra por quase toda a eternidade que dura a relativa existência de um homem
qualquer. O segredo potente. E aquilo tinha movimento, o que não se descobre
quando mais se cresce e cresce. Teve vontade besta de comunicar aquilo com a
rapariga. Somente vontade, pois que entre vontade e ação desliza a taxa do que
se chama de sensatez. No comparar de textura, o mais próximo do que ser e como,
imaginava o frio da água de fim de maio, princípio de junho, mesmo água das
Pedras de Fogo, escorrendo sobre suas tetas – quase que duas manchas de nódoa
de romã -, fazendo com que a pele chupasse um encolhido imediato, deixando as
marcas do arrepio. Esgrouviando em premência de um arrocho ora vago, ora
agradável, ora extremamente desagradável, feito gastura de dor de dente. Assim,
Pedronório imagina o deslizar continuado e cuneiforme dos tentos. Se movimento
possuíam, sozinhos e sem máquina que os movesse, por certo que uma alma crescente – feito lua – sempre haviam de
se-mostrar. Nunca é à toa que os naturais pontos de um homem convergem. Assim
pensava o argumento do menino enquanto deixava o cavalo pastar a erva rente.
Via o silêncio da rapariga, ela também desviada de assunto, esgotada.
Era assim que
Pedronório lembrava-se de Bilica. Os cantactos primeiros, de meória assestada.
Ela era a Maria Mariana, do Camapelgr’. Não atendia ainda para o apelido de
Bilica. Coisas como são. O convite para dança em sua casa. A varanda com palha
de buriti. Pedronório vergava-se ao lembrado.
Maria Mariana
vestia calças de homem e sobre elas a saia que era a marca da chita, o feminino
arqueado que desconfunde o balanço de uma mulher. O eterno pano na cabeça.
Botinões de couro cru. Quando se virava com rapidez de gesto, o rosto exibia a
grande berruga. O nariz supunha uma feiúra além da conta. Mascava um talo de
grama, e com olhos enviesados, de interesse comedido, mirava o cavalo e o
menino escarranchado sobre ele. Não sabia, mesmo dona de uma disposição arguta
de proeminências, que o menino fosse exercer um papel continuado em sua vida. E
jamais poderia supor que Bilica seria sua graça de conhecimento, doravante a um
tempo que ainda deslizava muito sem as medidas. Ourives de futuro, passados que
são.
Depois daquele
encontro, Pedronório deu-se conta de que as lembranças de outros, mais futuros,
tornavam-se claras, a ponto dele poder recordar em dedos. Se nenhum teve importância,
foi somente com muito mais tempo, num desenrolar de banda espontânea que a
situação chegou a ficar, de somente em somente, um tanto diferente em vida dos
dois. A Cidade crescia a olhos vistos. Surgiu uma rua tortuosa diante das duas
herdades. Criaram-se cercas que mais definitivas fossem, que as posses ficassem
mais designadas. Cada um enxergando o seu nariz e dele fazendo conta, se em
muito embora, entre as duas glebas jamais houvesse um único desafeto que
pudesse ser enfiado em rosário de coação, de desavença parlamentosa ou mesmo de
actos. Surgiu um armazém de boa imponência na rua e retirado dele, a vulturina
figura de um boteco. Não era raro se contar cavalo enfeitado com peiteira de
prata diante de um, de outro. Eram as modas que regulavam os tempos. Chiques.
Pedronório, lá com seus pendões já encabelados, perto de sua chamada aventura
adulta – podia haver os seus quinze anos -, descobriu que a vida buscava mais
refúgios que refugos. Havia coisa viva por de fora da herdade. A parte boa era
descobrir em qual buraco se esconde o tatu.
Todavia, por ser muito ataviado com coisas de intimidade, preferia a
companhia de Avó Semira a qualquer outra futilidade. Tanto, que a Senhora por vezes atribuía-lhe conselhos.
Que fosse em debandada, buscar um diversão longe da casa. Voltasse mais leve.
Sem jamais se
dar ao feitiço que escorrega das reuniões de bar, antes dos dezoito anos jamais
esticou o braço para um taco de sinuca, que era a moda mais festejada em
tempos, aqueles que vigoravam de moderna virtude. Pedronório descobria a
afeição diferenciada por certas coisas. Se ia ao lugar onde havia a grande mesa
da sinuca, de espevito em olhos, esboçava o susto perfeito que mora nas coisas
redondas, uma bola chicoteando a outra. Mormente, em palas macias, o choque
vespertino da rosa, que era de todas a que mais maravilhava. Um rosa clarinho,
de flor em nascente nova, mais puxado para talco que mesmo para imagem. Por ser
dado aos enfeites assim simplórios, o rapazote admirava-se daquele enredo de
começo sem fim. Era capaz de fixar o carambolado das bolas, uma contra a outra,
a busca das caçapas, até que o sono maior tomasse conta de seus elementos. Com
um lampião grande dependurado sobre a mesa de pano verde, os besouros a
circular em torno do brilho e formando o exército lá deles em torno das bolas,
era comum que o jogador viesse com a escova de cerda mediana e retirasse o
acúmulo de aleluias queimadas e demais quejandos. Todo cálculo de Pedronório
era somente a diversão. Meava a hora de uma lua cheia começar a subir no céu.
Aí, ele sem haver um tostão para beber qualquer coisa, descia o trilho e
cortava caminho até em casa. Avistava a cumeeira da casa de Maria Mariana – a
Bilica -, e marchava, num rente de braço esquerdo, em rumo direto de sua casa
mesma. Escutava o suspiro da nascente do Pedras de Fogo e um assunto muito
íntimo, familiar – como o ninho é familiar ao bem-te-vi -, tomava o limpo que
beirava o ribeiro até que subia, cerce, virado todo para as laranjeiras e os
oito grandes cedros que ornavam a praça do lugar. Quando Tião do Neneco ia
junto, ele tomava um refrigerante, uma água adoçada qualquer. Mas com seus
dezoito anos, Tião já voltara ao Bom Jardim. Felicitava-se por lá.
Se a vida tinha
a besta rotinada, para ele nem havia mais como comparar melhor. Mais taludo, a
independência vinha ligeira, que como dizia a avó, a responsabilidade a cada um
cabe. E ela, falava, sabia a quem estavam criando. Quando entrava em casa, pela
porta dos fundos, já de si capenga de sono, encontrava em mão primeira, a figura clara e diáfana da avó Semira sentada
no rabo do fogão. Grandalhuço como havia de estar, não como no passado era mais
tratado, quando a senhora metia-lhe a mão aos cabelos e fazia ligeiro cafuné,
depois, num acto de supremacia deliciosa, buscava massagear as suas coxas de
menino rijo. A senhora apenas esboçava um sorriso de meia taça, alisava o coque
e erguia-se no rompante de um querer saber como ia o seu garoto. Servia-lhe
leite de cumbuca, o azedado inconfundível, despejava três colheres bastas de farinha
de milho em riba daquilo e via o rapaz tomar o leite em colheradas fungadas.
Voltava Avó Semira ao rabo do fogão e
aguardava o momento de recolher o prato e metê-lo numa água que oscilava dentro
da bacia das lavadeiras. Via, notória, que com o leite tomado, o rapaz não mais
suportaria o sono. Via-o recolher-se quase sem barulho, acalantado de uma
segurança muito larga. Avó semira era bonita como um deleite de luz.
Pedronório
crescia com os ossos firmes, as estacas bem posicionadas em todo o seu trejeito.
Embora não fosse encorpado, tinha a lucidez na força da carne magra. Siá Semira
mirava o neto e orgulhava-se sobremaneira do que via. Rígida como sempre fora,
mulher ainda jovem, dona de todas as honestidades que uma criatura pode
aperceber. Não admitia senões ou bravatas de qualquer um que fosse, mesmo dos
filhos, das noras, quem quer ousasse. Dona de um temperamento irascível, por
vezes, era em outras dona de uma doçura irreparável. Dizia as coisas, somente as necessárias e seria raridade que
o arroz deixasse de estar pronto, junto com o feijão e qualquer regalia de
mistura, para depois das nove horas de alguma manhã. Acontecesse uma coisa
assim, era de ser a confusão, só poderia ser explicada dentro da certeza de uma
doença. As perrenguezas que podem tomar conta de um alguém. Pedronório via na
avó as belezas que jamais pôde assomar em outra mulher. Confessava-se e não
havia, mesmo querendo meter força ao pensado, refutar uma realidade tão dona de
seu coração. Ele mesmo se dizia, entranhado em seu coração feito raiz de taiuiá
na fundura de um chapadão. Quando chegava em casa, bocejando as sonolência
adquiridas diante da mesa de sinuca – quando a verde atracava-se no ribombo da
rosa, a amarela no casqueio do fino mais finório -, o rapaz deparava-se com a
imagem silenciosa da avó. Porém, em se lembrar dos tempos como foram, não mais
o nunca mais, pois que era já o suficiente para deixar a gala subir rente ao
pequeno esforço de uma sensação. Como naquele tempo de dizia: a sensação. Sensação era gozo antecipado.
Falavam que era a sensação, uma pavra que devagar foi deixando o crédito
somente aos mais ilustrados de tempo, aqueles que dela fizeram uso um dia.
Já com o dobro da idade em que tomou conhecimento das primeiras palavras de Maria Mariana, Pedronório acabou por haver-se num mundo que abria novidades. Como o fogo novo que vem ao pavio depois da binga batida, o fuzil na pedra boa. A faísca rompendo com a saúde mesma da luz. Sem poder entender muito bem o que move os destinos, deles nem podendo querer exercer domínio – o rapaz descobria a desavença entre querer e haver -, de repente Pedronório estava de todo envolto com a figura de Maria Mariana. A moça, com as tetas sempre e cada vez mais encorpadas, agora bem junto de seu estado de trintona mantida íntegra para as aventuranças de marido único. A rapariga era dona de um repertório de conversa meio esquálido. Era fácil que a sua repetição ornasse frases e frases. As mesmas de antes. Para o garoto era fácil haver-se assim, porque ficava mais reles raciocinar sobre a repetição que sobre a surpresa de uma inteligência. Numa festa de dança, no dia em que fizeram varanda de lona, Pedronório viu-se, nem por haver mais quem lhe coubesse, envolto com as desinências da rapariga. Sentado a cepos dispostos por ali, viu quando ela se aproximou, as tetas grandes na gangorra do peito, a corcunda dando de aparecer, os braços roliços, engrossados. O vestido até que ornando com a sua física de mulher tratada com esforço de lida. Afinava em baixo, crescia em cima. Bilica era assim, as nádegas chupadas na saúde de nunca estufamento. Batidas, tudo porém, boas para a garantia de uma boa função. Vinha com bons modos, esquecida de que havia sido agressiva – por modos – com o menino, ele montado sobre cavalo, ela a olhar as vias do bezerro novo.
Pedronório
apreciava a fresca que descia das serras, das bandas que eram a do rio das
Velhas. Ouvia o fuimfuim da sanfona e admirava-se dos pares na dança. A alegria
deles. O lugar deveras virara uma Cidade. Foi naquele minuto de atenção por um
triz de nada, tomado de um esquentamento de gosto, que viu a rapariga
aproximar-se. A avó Semira, de um jeito esquivo, dizendo como quem não quer
dizer, já havia chamado a sua atenção para os dotes, as prendas que eram as
dela. Que era moça de distinção,a té que meio aparentada. Conhecia Bertolimeu,
bom pai, conhecia Fiota, a mãe. Gente do Campalegr’. Dizia a avó:
-
Com
tanta horda moderna, as coisas desandando por aí, ainda fica difícil de se
arranjar uma moça de boa estirpe, como fica sendo a Mariana. Há de se ver que
beleza nem sempre ata a diferença principal!
O fato de a
beleza não atar ou desatar a diferença principal sempre arrogou na cabeça do
rapaz alguma coisa de difícil percepção, oxalá de mais difícil entendimento.
Para seu modo de ver as coisas, a avó tinha as suas razões, mas também não as
tinha em tanta compleição. Havia um hiato dentro da frase dela, coisa fácil de
ser sentida, embora com acato ele ouvisse tudo que a Senhora dizia. Se sabia
que algo claudicava, era em silêncio
que se punha acordado em tudo que ouvia. Somente havia uma diferença grande de
idade, detalhe que poderia afastar a mulher de suas mãos, senão num instante,
fosse para sempre de forma eterna. Todavia, o que se deu foi muito o contrário.
Maria Mariana tinha uma certa dificuldade de palestrar. Parecia apreciar a
companhia das criaturas mais jovens. E tinha uma preponderância esquisita para
desafiar o rapaz, ora para afiançá-lo com palavras até certo ponto carinhosas.
Como parecessem a ambos uma inibição
para os bailados, foi assim que estiveram um diante do outro. Um menino
desafiado, a mulher que queria mostrar deferências. Nem tudo estivesse normal,
porém, para os dias pensados, era assim que tudo tresandava. Numa outra festa,
se havia dança, falavam-se com mais argumentos do que no dia em que um era
apenas um fedelho.
-
Por
que é que tu não danças, ó Pedonó?
-
Alguém
que me contradanceie... espero aqui!
-
Receio
um pouco o lépido dessas sanfonas!
-
Receio
o acompanhar com harmonia. Sou danado para deixar calo em pé feminino!
-
Ora,
já serve. Sinal que também tens pé para ser pisado!
-
Então...
nada que uma dose de aguardente não arrume solução!
-
Se
Vó Semira me apanha com pinga na boca, tenho certeza da tragédia!
-
Dou
jeito no caso!
Como seu passo
de gansa adulta e sem que o rapaz entendesse tudo direito, Maria Mariana andou
rumo ao varandão de lona. Voltou com uma cuia rasa de cachaça e passou às mãos
do rapaz. Fê-lo beber. O esquentado das orelhas começou a contar estrelas em
seu semblante, tão logo nem mais tempo houvesse de buscar mais. Nem precisou.
Um enjôo pequeno veio de imediato e em seguida um bem estar antigo, amornado de
maneira muito nítida. Voltava à razão nunca perdida o rapaz Pedronório. Uma
excitação cigana, uma vontade de variar, nem somente ater-se sempre ao
barranquear ou ao alívio de recosto em sarandi, às beiras da nascente do Pedras
de Fogo. Do jeito que a coisa ia, era fácil estender a mão e atingir a
obscenidade das tetas enormes da rapariga. Sem jeito para aquilo, no porém do
todo, via que ela estava estranha em demasia. Ria muito e deixava o corpo pender para a banda que
era a dele. Olhava se não tinha ninguém olhando e punha-se a fazer conta de
somar e dividir com o uso dos dedos do rapaz. Pedronório sentia a calça
estufada e um ornamento diverso em sua vida. A pinga era remedião. Deixava-o em
ornado, um modo completo de sentir as varandas da existência. Achava razão em
tudo. Contracenava com uma alegria moderada.
-
Podemos
dançar num canto do lugar, se tu quiseres!
-
O
que há de ser não assa, o que se frita!
-
Então
vamos!
-
Agora!
-
Tu
estás determinado. Tomo cuidado, contigo não brinco. Sinto cheiro de que me
atacas!
-
Ora,
nem o tanto!
Tomado de
exuberância e fatuidade, mais coragem do que pensava dispor em toda a sua vida,
Pedronório andou em marcha picada, a rapariga adiante, ele atrás com os olhos
de haver perdido um pouco de discernimento das coisas mais claras. Ora o
lampião parecia-lhe muito claro, ora meio escuro. E dançou como um inveterado.
Maria Mariana estava totalmente envolvida na têmpera da sanfona. Embora não
fosse também nenhuma exímia sedutora ou grande dançarina, pelo menos para
aquela noite ela estava o máximo que um homem iniciado pode desejar. Era assim
que o rapaz sentia. E pronto. Boas as medidas. Nas tomadas de impulso,
derivando alguma umbigada, somente com o senso de enjambrar uma solução, Maria
Mariana vinha sobre ele no ataque, depois percebia um sorriso bom no canto da
boca e naqueles momentos até mesmo a berruga do nariz deixava de ser uma
brotoeja ornada de feiúra. Tonava-se uma coisa passável, de aceite tomado.
Assim foi, até que as onze horas da noite cismaram de ser. Meio zonzo pelo
esforço e pela sudação excessiva, Pedronório despediu-se da rapariga e ganhou o
trilho. Meio sem jeito, até meio sem censo, como quem um dia teme haver que
retornar. Foi esse o primeiro sentimento deveras pesado que tomou por ela. O
receio de haver que um dia retornar. Avaliava-se. Compungia-se com ligeiro
mal-estar: haver que voltar.
Na travessia dos
ziguezagues feitos em arame farpado, os atalhos, ele cruzou uma vereda larga de
pastagem com vacas dormentes e rumou para as beiras das nascentes do Pedras de
Fogo. Assomou-se à escuridão e fez parte dela. Cruzou as grotas pequenas, as
maiores, as bicas d’água que usavam por ali – território de lavadeiras – e
atravessou pinguelas sem mesmo fazer uso de guarda-mão ou de qualquer
orientação que não fosse um puro instinto apreendido. A guarda de sua
virilidade não punha meio de baixar. Sentia já uma dor fina. Agradava-lhe a
rapariga. Agradava-lhe o jeito besta que ela tinha de eriçar os peitos contra
ele. Entrou em casa e a avó ainda aguardava a sua chegada. Teve um pequeno
retorcido de beiço, o primeiro desde que se entendia por gente. Um desgosto
pequeno. Sentia-se vigiado. Ouviu a voz de avó Semira, sua vigília em
demonstração de não haver culpa de apor sobre o rapaz todo o cuidado. Parecia haver nela a diminuição de uma
sensação de culpa, somente no explicado, enquanto um certo tremor de voz ficava
sendo muito fácil de calamitar. A zonzura imposta pela aguardente ainda era
ferenha, porquanto se abrandasse à medida que os passos eram dados. Somente uma
dose epquena fizera-lhe aquilo. Tinha fragilidades para álcool.
-
Ninguém
te vigia, somente há quem te cuida!
-
Amém,
Vó!
-
É
confortante saber quem se aprecia!
-
Então,
Vó!
Da banda de fora
da casa, no terreiro, vinham as saracuras à procura da fartura de algum grão de
arroz debulhado, à lançadeira, entre os ramos e galharia. No depois, quando
segava líquida e tez a madrugada, o canto delas era toda a fornalha para um
entendimento do que é estar vivo. Havia muita beleza em vigília, os raios
esparsos de lua nas grimpas de cada cedro, de cada pé de sassafrás. As
corbélias de mato rasteiro tomadas de um orvalho que se merecia, devagar.
Toda a nascente do pequenino Pedras de Fogo era um marasmo de fazer gosto. Dó naquele tempo já era coisa mais rara. Maria Mariana era a tampa e era o caldeirão. Mas, de estranho, tudo revirado, era a obrigação receosa de algum dia haver que voltar. O sentimento que começava em estampado.
Capítulo 7
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H |
avendo pois, tudo caminhava feito a palha que suspira espirais no céu com redemoinho,
depois tudo estirado numa paz perfeita, Pedronório viu-se completo nas idéias
de que Maria Mariana era, de facto, uma suposição mais pesada que até então se
lhe surgira. Se por ela não podia nutrir nenhuma espécie de boca de vulcão,
também não podia se esquecer de que companhias boas são construídas com a verve
de uma fidelidade, de uma confiança sempre crescente. Era o que ouvia da boca
de Vó Semira, da roda de pessoas que compunham a Cidade sempre em crescimento
imoderado. Com mais tempo, pôde saber-se mais chegado a ela. De uma maneira
curiosa, movida pelo som do rádio e de progressos e bandas modernas, Maria
Mariana podia ir com ou sem ele onde bem entendesse. Apreciava as coisas
modernas. Com vinte anos na cacunda, Pedronório arretou-se em ser o namoro
firme de Maria Mariana. Se bem jamais entendesse o como é que as situações
tornam-se assim tão defloráveis diante do nariz de uma criatura plena das boas
vontades. O crescimento da relação, sem que dela ele nunca pudesse apor freios,
aceleradas nenhumas. Mas somente a palha que gira na doidura do redemoinho. E
depois, no bem pensado, a paz que, cerce, supostamente há de se fazer presente,
o sossego que viaja junto com cada empresa. Não se arrependia nunca do tempo
estado com ela, somente vergava-se a um peso, o de não querer voltar. Alguma
coisa ficava ruim, amarga, mormente quando ela dava-se em mais períodos, afoita
de carinhos.
Surgiram muitas
casas nos limites da rua, agora uma espécie de aglomeração que começava numa
curva, salamalequeava em direção avante, serpeava diante de outra curva até que
sumisse na distância das quebradas mais distantes, lugares onde escorria com
mais fartura a dimensão do Pedras de Fogo e onde os negros escolheram para
fazer o seu bairro. Em rumo da nascente, porém, surgia a rua, bem diante do
nariz das duas herdades ímpares, pares de irmandade. O Campalegr’. De um lado a
parte do rapaz, do outro a inerência nascida inerente de Maria Mariana. De como
houvesse sentido em dia da dança a virilidade a ponto de estourar, Pedronório
acreditou que aquilo fosse um preâmbulo de muitas novidades. Pensou coisas, num
modo de visitar a rapariga num momento de duas horas da tarde, por exemplo,
quando todos estão na lida, somente ela em casa, sozinha no acto de passar uma
trouxa de roupas, oxalá, chupando laranja carneira, que nem sanhaço
vagabundo no pio azulado de cada dia
que vai remando e sendo remado. Foi assim em dias em que não mais podia se
conter. Se alguma coisa era infensa ao seu modo de agir, porém, sempre nem
quisera todo estar nela, em entranhas, mas somente achar uma adivinhação numa
mulher que lhe parecia estranhamente ciosa de seus predicados. Como se
estivesse precisada de monta. Sempre e renitentemente, atiçada de seus humores,
qual lhe fora suposto no dia da dança. A sorte dela esgueirar sorrisos
repetidos em rumo dele. O contacto breve com a peitaria. Ao rapaz surgia a novidade.
Queria um conhecimento e depois uma regalia de distância. Mirava em meio às
moitas de assa-peixe o falo luzidio, os marimbondos riscados pousando sobre
ele, o risc-risc filamentoso que cada um apunha lá com seus palpos de cócegas
lúbricas e imediatas. Além do mais, no
brinquedo de permitir pousada de vespa, o risco de uma picada que daquilo
fizesse um inchume incólume de lume. No alívio repetido, pode ser que lhe
minguassem os cabelos da cabeça, muitos surgissem na vertente de côvado, no
centro da palma da mão. Era assim que se iniciava no destormento, em mesmo
sendo um tormento que resolve, porém nunca satisfaz. Portanto, sempre tormento.
Um dia de maior
afinco, andando de cabo a rabo, as retas pequenas dos atalhos, a busca completa
de um que fazer. Adoidado com a dor que as ilhargas demandavam, vinha-lhe muito
a imagem meio corcunda da rapariga, seu cheiro de sovaco, o odor que entrava
pelo ouvido e saía pelos buracos do nariz. Pedronório achava vantagem em forma
de pedra. Via nenúfares nelas e via rachas no lugar dos nenúfares e depois
sobre elas podia desenhar somente em imaginação, ou uma nuvem que vai a boreste
ou um convite lúbrico, porém silencioso. Era uma etapa de revelação, um
tormento que doía mais na base da espinha, porquanto entalado, do que
propriamente num lugar que outro nome tivesse. Lanugens de sua consciência. Um
sol rubro tascava rimas aos seus dias. Enquanto ouvia as vozes suaves da Avó
Semira, o rapaz soluçava as intenções de um bode novo, porém apto para as
desatadas de uma boa lubricidade. No dia de maior afinco, no tempo que andou de
cabo a rabo, enveredou-se pelos atalhos que levavam de uma herdade até a outra.
Pedronório não era nenhum paspalho quando se tratava de medir as prenhezes e
lados afoitos da natureza. Averiguava o proceder de um canto de pássaro
qualquer. Sabia do choco das mulatas, das maracanãs. Naquele tempo era comum
ainda se achar o oco do ninho nas perobas mais altas. Com o advento moderno da
grande Cidade, tão logo surgiram as casas e as ruas nos fundos do lugar, a
divisa de tudo sendo a cerca de tapiocanga que margeava a nascente do ribeiro
Pedras de Fogo, somente aí, foi que as aves mais fugidias e exigentes sumiram e
não mais voltaram. O rapaz imaginava lugares ermos, os sumiços de Goiás, uns
fundos de Mato Grosso, coisa que ele nem sabia ser real, mas somente casos
escutados da boca de gente que passava
pelos botecos da rua para um refresco de goela. Ouvia os boideiros, os
tropeiros e as comitivas que se lançavam às grandes viagens. Revelava-se em
sonho, ver o tudo. Mas não tinha nenhum desejo maior de arredar corpo do
Campalegr’, comos se ali houvesse o doce sempre do pleno.
Emaranhado num tempo de três horas em sol alto – a estaca vicejava e trêmula do sol -, Pedronório apanhou o trilho. Atravessou as valas comuns de tempo de enxurrada. Apropriado vinha um vento, o que bulia com seus sentidos, com sua carapinha arruivada. O canto de um tesourão anunciava a moita de malícia, os botões apregoados de mato mais denso. Em casa, enterrado em casa, em terra, como sói ser somente com aquele que deixam as unhas dentro do suspiro de um mundo. Estava em casa, era assim que o rapaz foi deixando a herdade enfiar-se em sua alma, permitir, sem nem haver como ser diferente, que a Cidade tomasse conta de seu mundo, envoltória. Quando subiu num morundu mais elevado, em beira de uma meia lagoa que dividia as duas partes, pôde divisar e medir bem a aventura do progresso, do outro lado, nas vertentes que estavam da banda de lá da nascente das Pedras de fogo, viu com clareza o nascedouro de mais meia dúzia de pequenas casas. Uma rua também se abria de lá. Era a alegria do progresso. O rapaz parou sobre a elevação. Esteve a assuntar o todo. Perguntava-se se progresso sempre é bom, ou que desatino é esse que avantaja as alegorias de cada homem. Avó Semira tinha melhor idéia das coisas. Todavia, era parte de gente calada, no sistema antigo, o coque sempre atado à nuca, já grisalho, embora ele ainda fosse jovem. As roupas mantidas numa limpeza de fazer gosto, o cheiro sempre toldado que surgia de suas mãos. A avó era sem defeitos, pode ser que fosse mais bonita do que a mãe. Alguém dissesse que sim, nem podia infirmar, nem nada, somente fazer um concorde com a sumidade da cabeça. O que são os mundos, cada um dentro de uma peculiaridade. Onde estanca e onde desanca um indivíduo, sendo que por ser indivíduo, desafia a própria e mesma unicidade que compõe o todo. Único semblante que exige a parte de um acato sem normas e sem necessidade de explicação. O indivíduo, como ele via, o que é único. Por órfão, entendia em parte da mãe que se fora tão logo o menino balbuciou o primeiro choro. Por mais órfão, entendia a parte do pai que se fora tão logo ele aprendera a soletrar a densidade de primeiras palavras. Vó Semira era toldo e flecha, ambos, pai e mãe, o que se espera de um caso assim. A fêmea que dá leite uma outra vez, sem ser dela o espremido, mas da necessidade de controlar o destino que azamboa os lados, vidas novas que são.
Pedronório
caminhava no rumo da casa de Maria Mariana. No atravessar uma navalheta de mato
ralo, espichando os olhos sobre vôo de alguma pomba amargosa, já avistou a
falda, os telhados da outra casa. as manchas de um lodo capenga em torno do
desenho, do conjunto entre bananal e mangueiral. Relinchos de advertência, animal
sente o cheiro de novidade. Cavalos no relincho. Com a virilidade em um odor de
negro, o rapaz aviou-se. Iria lá sem nenhum assunto que pudesse tratar. Falaria
de coisas sem valor, se fosse necessário. Uma brusca carência, a vislumbrada
presença de Maria Mariana alisava vidros em seu labor. Coçava-se às virilhas e
apalpava a carapinha medrada de suor. Se ousava cheirar o dedo, apercebia-se de
imediato do salitroso modo da pele molhar-se. O cheiro, como aquele dos cavalos
quando estão na dependência oscilante do cio, as éguas na almêcega de um espaço
a ser preenchido.
Firmando o passo
numa decisão tíbia, embora resoluta de mente anterior – o que queria, queria e
a sorte estava lançada -, o rapaz assuntou o tempo. Calorão das três horas da
tarde. Avó Semira devia de estar fechada à taramelas dentro do quarto grande, a
desfiar as suas ilusões de um tempo mais faceiro. Viúva, avó Semira tinha uma
nata de certa tristura na parte rala dos olhos. Sobra de antigo. Se mirava uma
gralha – somente para se falar um exemplo -, apontava o dedo e deixava a
palavra inicial transbordar da boca macia e fresca, dizia coisas tão
imprestáveis quanto uma cagada de marimbondo. Modos dela, a saudade que carrega
ancestrais; ou somente fosse uma solidão grande que tumultua os conformes de
uma estalido de existência. Se ficava em chave de ouro, como em soneto, era com
sentimento cerzido que atuava. Falava com bons graus, os olhos postos em
nascente queia longe.
-
Espia
a gralha, onde nem mais azul ela tem onde pôr. Azul-ferrete e verde-gaio, de
quando os tempos ainda eram impérios... azul-ferrete na sombra, verde-gaio
quando o sol tamborila a foz nas asas delas, olha a maravilha aí tão facinha de
ser retirada e tem vez que nem se colhe!
-
Deveras!
Era conversa
dela, em dias em que estava mais resumida de suas temperanças memoradas.
Pedronório escutava aquillo. Depois via o esquecimento da Senhora, a mão de
pilão descendo desgovernada, o que se pilava ia sofrendo o desgaste paulatino,
mesmo que à ação não correspondesse o lado atento de se pilar. Avó Semira plena
de ditos macios, aqueles que ficam, como sombra em lodo, o giro não modifica a
situação pastosa do que sempre está. Falava da gralha, contava uma coisa que
fora contada pelo primo que morava longe, Jãocésa. Segundo seus olhos Jãocésa
era o homem mais bonito que a terra concebera. Não negava. Olhos não negam.
Pedronório
marchou feito galo com a gala em riste. Pensou em chegar devagar, na surdina,
espreitoso. Como quem vai furtar uma desnecessidade alguma. Veria, de facto e
jeito, o que é que a rapariga fazia. Vendo, os olhos estufados para as posses
dela, a carne conjunta, já seria um bom motivo para que ele tivesse imagens
obstinadas pelo menos por mais uns três meses. Depois refaria. Entretantos os
tantos, seja lá como bem o fosse, seu projeto seria quase impossível. Sabendo
que às três da tarde, entre a hora e as quatro, até bica d’água tira cochilo,
grilo madorna, era fácil alcovitar-se a idéia. Ocorre que os cães da casa
dariam o alarme, o aviso imediato de que ele chegava. Sabia com os quais estava
a lidar. Melhor seria entrar pela porta da frente, feito um cavalheiro dono da
idade que tinha, sua barba já querendo encorpar sinais no queixo. Avistou o
arvoredo rente ao curral, os jumentos de reprodução. Era como se se mostrasse
diante de um espelho, um que fosse os próprios fundos da sua herdade. Mirou em
torno e enxergou panos estendidos num varal de arame farpado. Silêncio, até que
nem tanto. Sons de rádio atravessavam a modorra da hora vesperal, o sobrosso do
calor. Onde estava Maria Mariana. Pedronório sopitou a curiosidade quando um
cão preto lhe veio cheirar as mãos, manso e rabicó. Coisa estúdia, pensou. E
esqueceu-se por um segundo de sua empresa. Distraía-se do fundamento de uma
realidade: que não tinha razão nenhuma, pelo menos explicável, para ali estar a
meter as fuças. Se o apanham num entretido absurdoi, podiam pensar que era
tarado ou doido. Tinha que se prevenir. Sabe-se lá o que anda em cabeça dos
outros. Criaturas que têm as maldades. Oravejas, e sempre.
Com as orelhas
infinitas, um calor tremendo sobre elas, chegou a coçar as nádegas na
inconstância de uma presença. Sentiu
duas perebas com casca já meio grossa, e por dentro dos panos, como coçava,
arrancou aquilo e percebeu um leve tumor de sangue entre a pele e o dedo. Oxalá
a matéria que costuma sair de tais feridas. Ensimesmado, entre ser e um estar
abobalhado, Pedronório fez parte de todo o mundo em volta. Chegou a pensar que
a vida tem hora que deixa muitos hiatos para serem preenchidos com aquilo que chamavam
de emoção. Para ele, porém, emoção era a coisa que passava de largo, qual o vôo
do irerê quando a madrugada sibila a luz parca. Irerê sabe reconhecer a luz da
noite, atravessa mundos no escurecido, no lusco e no brilho dos tempos quando
mais cheia é a lua. O cachorro preto deitou-se numa sombra de beijo, olhando de
modo bom para ele. Nem os cães mais miúdos davam sinal de vida. Toda a vida de
Maria Mariana devia de ser sempre aquele vento brando de sinais. Vento parado.
Água parada. Nem tudo fosse assim, pois que no dia do dançado, muitas ilhotas
de sensações ele pudera delimitar em seu semblante, na peitaria oferecida,
latagão, leitagão. Sabendo da coceira miúda que ficava das perebas recortadas à
unha, o rapaz coçou o queixo com barbas que não havia. Um ardido substituía a
coceira. Tivesse um limão bravo, espremeria umas gotas sobre a superfície
cruenta e resolvido estava o dilema. Curado de breve espremida. Pássaro-preto
aninhado nas curvas espessas do babaçu. Óleos de um mundo parado. Maria Mariana
sumida lá com seus resumos. Ali, plantado em terra alheia, embora tudo massa do
Campalegr’, Pedronório sentiu as desavenças de uma marca apátrida. Alguém, de
conluio com desconhecimento, varesse fogo em seu lombo. Um disparo só, com sal,
cartucheira boa. O Vexame. Caçar mulher em hora inapropriada.
Num instante de
instinto rodeou a casa. O som de rádio emitia a densidade do que era moderno.
Bonitas as canções, repletas as propagandas que falavam coisas muito
lisonjeiras, umas coisas que vingavam na passagem de um instante para o
seguinte, como se o mundo fosse um objeto de bola de gude. Apreensões que
vinham à sua cabeça de certo desmiolamento. No rodeio da casa, encontrou a
porta da cozinha aberta. As variegadas brilhosas, as panelas de todo o calibre
dependuradas acima de um jirau que segurava bananas madurinhas. Toda a
doméstica invenção do mundo, a caverna indiferente, desde que lusitanos são os
espaços que se cultivam. Maria Mariana estava na lida, em fundo de quintal. Em
casa tinha de estar, pois senão nem tudo estaria no desleixo dos ares abertos.
Sentado numa escada tosca de pedra, aquela que dava acesso ao adro da cozinha,
o rapaz viu bulício na porta de saca de aniagem que cobria a latrina. A fossa
cavada ao chão, a porta oscilando quando Maria Mariana raspava a goela, um
jeito lá seu que o rapaz, curioso, já sabia de cor. Ela se aliviava, se
desaliviava. Propriamente como quem desperta de uma alucinação, Pedronório deu
a volta por detrás das cajazeiras e de jaqueiras mais graduadas, entrou pelos fundos
da casinhola da privada. Atinasse para como ser o mundo de uma mulher como
aquela, madura e na espera de alguém que lha montasse, as ilhargas. Sensações
maiores que não faltavam, as idéias. De oferecimento ele tinha as tarimbas,
sabia que ela queria. Aviava sons dentro do bestunto, variava as dançadas com
aqueles musicados que vinham do rádio ligado.
O arvoredo
zumbia em torno de sua cabeça. Exércitos de abelhas, vespas, tudo em torno. Um
suor pegajoso verificava estômagos em sua testa. Maior o cheiro, e nos
repentes, por estar rente à fossa que se sabe, o odor almiscarado e avesso das
perdas, daquilo que estampa maior detrito. Os ombros arqueados e taurinos de
Maria Mariana, o pescoço grosso. À sua memória vinham as lambadas. Uma
excitação crescente criava azos ao seu modo de agir. Havia buracos no adobe da
casinhola, se quisesse bem poderia espiar por eles, bastava erguer a mola dos
olhos. Porém, um descompasso de coração era suficiente para que boa parte de
seus humores escorresse, outra parte secasse. Como quem se esforça para a
definição de uma conquista, quiçá de um expurgo, havia nela, ali dentro do
escuso escuro a gemida de uma dor esquiva. Pedronório ganhava o dia de uma
forma truncada. Diachos acontecia. Bom era de se ouvir, sujo era de se permanecer.
Uma força absconsa tomava conta de seus ouvidos, orelhas de Vesúvio, eternas.
Sem saber como desvendar o mistério que ata as coisas mais simples – qual seja,
as oficialidades de banda fisiológica -, o rapaz jamais havia sentido a dor
lancinante que o apanhava então, toda a via verga dos pendões. Olhava, a
desconfiança, haver e ver se não vinha ninguém, porque sabia que alguma coisa
espúria estava a realizar, a atinência com as intimidades de uma criatura que
somente afagara-lhe o ânimo com um sorriso debruçado e um retoque de peitos.
Saber a quantas marcas sofre uma mulher. Fácil, na abstração da hora empanada
de sol, ouvir o rumor da pele contra a pele, um som inigualável, somente
encontrada – assim mesmo em verve muito espelhada e distinta – de parceira, mal
comparada, com a água contra a água, quando uma molha a outra na textura do já
existido. Por trocar em miúdos, pode ser que a rapariga executasse uma
cantilena própria, uma que somente ela poderia fazer mais solitária. Sua
regência de dedos. Gemia claro, não tinha mais como negar. Gemido crescente,
cheio de uma catarata existida, a queda sobre pedras, o rumor que era um grito
sufocado, denso quase.
Tanta
curiosidade, houvesse mais um tempo na espreita de grandes ouvidos, Pedronório
teria usado a veia dos olhos. Num compasso mais faceiro, porém, viu quando ela
saiu fora e o sol tomou conta de seu corpo grande em cima, fino em baixo. Num
descuido, o rapaz escondeu-se como pôde. Vias das coisas. Apanhado, perderia a
chance de um certo futuro. No descuido, a saia que a rapariga vestia dobrou-se
acima do cavo do joelho, na banda de trás, e ele pôde espiar a qualidade de
saúde que vinha das pernas rijas, as coxas de torneio. Assustado, tomando de
improviso que havia que pensar um degrau acima do agora, o rapaz retratou-se.
Enveredou por dentro do arvoredo, deu a volta e veio pela banda de frente da
casa. A virilidade sofria de imensa dificuldade para estar bamba. Tentou urinar
atrás de um tronco largo de mangueira, viu dificuldade na empreitada, uma espécie
de rolha desafiava a força da vertida. Desenxabido, na busca de uma
naturalidade, sentiu que as orelhas comprimiam-se num latejo desordenado.
Partes de seu modo de pensar, o cérebro, estavam pela banda de fora da cabeça.
Beirando a cerca de pedra que era a do
curral, o rapaz deu a volta e bateu palmas diante da porta do terreiro. Folhas
secas apinhavam-se à sua carapinha. Ouviu lá dentro a nitidez da voz até que
aceitável, a cantoria afirmada de Maria Mariana. Se resumido de maior
obstinação, o que queria era somente uma hora nela, no escorregadio de um
segundo, oxalá, em que pese o resto da vida, somente correr o que de tempo
sobrasse, nem ousasse repetir, mesmo porque vontade para tal lhe faltava.
Então, que agonia rege o cio de um sem pensar? Era o que dele se aprochegava.
Fazer uma vez única, desancar a fatia de um experimento, depois escafeder-se no
sarandi. Nem por mais, Maria Mariana tinha alguma coisa que ficava relegada a
uma estranheza. A boca era de poucos convites. Se chegara até aquela idade sem
a freqüência das procuras por outros homens, os demais que toldavam os bares
das ruas mais novas, que defeito albergava nela o desinteresse algum, havia-o.
Pedronório ouvia a cantiguinha chula e batia palmas pela vez segunda. Diante da
porta, sentia as guirlandas todas do Campalegr’. Ouvia os batidos de seu
coração mais dentro, emotivado, como se a novidade não pudesse haver a cura.
- Ô de
casa!
-
Ô
de fora!
Era alegre a
resposta da questão chamada. O afago do chamado, a retinta face morna do Ô de
fora. Veio de lá dos meandros da casa a rapariga. Enxugava as mãos num avental
bordado com gavinhas de chuchu. Feio de se apreciar. Tinha sorrisos bons e
frescos na face. Os cabelos desatrelados do cuidado e vestia uma camisa com
rasgões que deixavam à mostra a bicanca da peitaria. Pedronório jamais saberia
que Maria Mariana era tão despretenciosa de belezas. Era feia. O dedão do pé
direito era rachado ao meio, feito filipe de banana, mostrando uma aberração
que devia vir de tempo antigo, acaso não fosse um jabre de podão ou foice. Sem
poder afastar os olhos daquela feiúra toda, o rapaz esperava com ânsia as
maneiras dela se oferecer aos seus olhos. Com um intuito de safadeza declarada,
metia as mãos aos bolsos e acariciava com fervor a parte que vinha dançada de
latejo. Maria Mariana convidava. Alargava a boca no sorriso. Olhava as
distâncias, seu gesto de conferir se por um trilho qualquer não descia um
animal, uma pessoa que viesse. Qualquer movimento, importasse-lhe.
-
Sai
do tempo, ó Pedonó... saiu do sol... entra para dentro...!
-
Entro!
-
Tu
não morres nunca mais. Sonhei com tua presença a noite inteira. Feito fosse uma
balaiada de lã que o vento sopra, depois do balaio despejar-se ao chão de um
lugar... nem sei se como era, o quer dizer da coisa! Sonho é tão difícil de
achar narrado!
-
Uai...
Então se foi assim, vai ver que era eu o mesmo do sonho!
-
O que te digo. Ainda agorinha pensei um favo em tu. Foi
macio que nem pitanga no ponto de cair!
-
Então...!
A vida é mesmo a turma da escorva!
-
Da
escorva?
-
É.
Da escorva e da pólvora!
-
Tu
dizes as coisas com um modo tão próprio!
-
E
sem fazer força!
Das coisas
absurdas que já havia deixado escapar de sua boca, Pedronório, ele mesmo não
entendeu que diachos queria dizer com pólvora e escorva. Sentiu, outra via das
coisas, que poderia dizer qualquer imbecilidade que agradaria ao estado de
estar em Maria Mariana. As canções do rádio desfiavam um tremedal ao seus
ouvidos. As palavras da rapariga, de um modo esguio, agora, começavam a exercer
sobre ele um efeito bífido, como se tudo que dizia tivesse uma conotação de
sacanagem. Podia não ser bem assim. A solidão, sozinha e solitária, em Maria
Mariana era maior o modo dela querer desfazer-se de seu estado de mulher
intacta. O rapaz seguia os instintos do momento, quiçá de toda uma vida
acumulada, tanto em interior, como em anterior. Os peitos que ela não buscava
esconder, mas somente puxava o pano insuficiente sobre aquilo, até de um modo
por demais afetado. O rego supremo daquilo, a cor escurecida do sulco. Saúde em
demasia. Maria Mariana era artefacto. Um grande e seboso – carnoso – artefacto.
Senão, o rapaz não estaria na solução de uma perda de tarde. Lembrava-se dela
gemer as altivezes dentro da latrina, a ponto de engolir a língua,
sufocar-se.
Depois, um arrefecimento de imagens foi abrandando os argumentos que a ambos mitigavam. Com seus olhos de certo empapuçado, Maria Mariana olhava por demais as unhas comidas, roídas pela traça de alguma parte ansiosa. Havia no ar, no porém do momento, uma alucinação sem nenhuma possibilidade de explicação ou de exclamação. Por um instante de razão, Pedronório pôde ver que ela bocejava de uma maneira continuada, a cada repetição, feito fosse uma paúra grande que tomava lhe conta, sem deixar sossego para maior coragem. Por não poder desviar olhos, media o rego grosso e escuro entre os peitos. Sabia-se à mobilidade daquilo. Os gemidos por trás da porta de saca de aniagem. Tempestades finas.
- Teu povo, onde anda?
- No plantio, tempo do plantio. Meus irmãos foram arranjar serviço em Mirablia, a Cidade cresce demais. O Archanjo e o Anjo. Só o Tiãozinho ficou, mesmo porque o pai não o deixa apenas, o ir nele é ainda projeto. De menoridades. Não decide integral!
- Penso em ir também! Há o que se ganhar, a liberdade é um bem!
- Tu é quem sabes. Vai amassar a tampa da binga, se por cá tem de tudo. É o que o pai diz, a mãe confirma!
- Vó Semira é contra arribação, contra arribada e contra umbigada. Diz que tudo redunda em nada!
- As verdades não doem mais que o falsear!
Os bocejos. Mormente quando o silêncio vinha entre eles. Largos bocejos em que os dentes dela apareciam, os da frente fazendo uma ruga feia contra a boca. Maria Mariana estirava-se mais no banco, esticava o corpo, as canelas surgiam ligeiras, com pêlos crespos. Para Pedronório a lembrança da latrina era o único estímulo de agora, o latejado das têmporas e as orelhas a pegar fogo. Queria ver, justificava-se, o modo dela naquela agonia, as dores que sentia. Como se promovia em dores. Sem alicerces que lho sombreassem os modos, cala-se.
- Tuas orelhas parecem papo de peru, vermelhas à brasa!
- Alguém me pensa!
- Então morde a aba de alguma coisa, olh’ái a aba da camisa, tu sabes o remédio. É usar!
- Com efeito... com efeito!
- A maldade pega quem te deseja o reverso, se mordes a aba!
- Vejo falar. Tu crês em coisa desse porte?
- Creio, uai, não é todo feitiço que, se bem entendido, pega como visgo em pé de sanhaço?
- Vó Semira nega as absurdidades!
- Direitos. Como cada um pensa!
- Nada perdes por fazê-lo. Os dentes à aba da camisa!
- Com razão!
Pedronório num riso meio escrachado, num deboche de menino que ainda cresce, mordeu a gola da camisa. Entabulada de qualquer imaginação muito jovial, também o também, Maria Mariana, fes ssss aiiii! quando a mordida comeu a aba do pano. Houve risos deles. Houve mais risos, porque naquele instante julgavam haver libertado as algumas almas do purgatório. E tão somente o mundo adquiria para ambos um aspecto de novidade encravada em alumínio, alguma coisa esdrúxula em demasia, senão de todo, pelo menos alucinada como um relâmpago contra a noite mais úmida, mais escura noite que os lestes podem facilitar em dilaceração.
Capítulo 8
- Tu vens para o jogo de truco. Dormir aqui... até tarde é que ficas... arrumo a tua cama... dormes aqui!
- Quando é o quando, se bem entendes! Se não durmo em casa, avó Semira não prega olho!
- Cuá... um dia apenas... dormes aqui. A cama sempre nova, macia!
- Ver-se!
Maria Mariana punha um falsete de cana caiana na voz. Arrebentava com a voz e dentro dela enfiava o falsete. Era a coisa mais nova que o rapaz apreendia, uma doçura de folha e rebento, a verdeclara opção da folha da goiabeira, que já nasce adstringida de limpeza. Deu nele o modo da rapariga seduzir um dedal a mais. Maria Mariana era dona de argumentos. Tinha verve. E um jeito extremamente pornográfico de atear o fogo àquilo que para o rapaz era ainda o tudo desconhecido. Era assim que ela se incumbia de um papel seu, uma coisa que estava prestes a ser rasgada. A virilidade do menino ainda, estufava quando ouvia a conversa de dormir ali. Imaginava cenas, num palmeado de rapidez. Entrar no quarto dela quando a noite sofrer encorpado nas pestanas todas, virá-la de bruços, como quem decide a hora e a vez, enterrar. Bulir. Pedronório aprendia, de um modo de intenção, as partes ambas na troca dos desidérios calados. Sem entender ainda mais o direito e o avesso das coisas, devagar ele sentia o cheiro de seus sovacos, o ardido que também vinha dela, somente o da rapariga era mais misturado com um ranço novo de gordura. Nada desagradável a ponto de mudar a caramelada da tarde. Soubesse a forma de ser envolto, assim como estava, Pedronório teria vindo há mais tempo, teria assuntado a questão de um modo mais informal, espiado a ausência dos parentes. Saberia direito, quando é que ela cisma de deixar-se enlevar de sono, ou de gemidos atrás de aniagem. Chegaria devagar, obraria a conversa nela de lábia, depois revogaria o que foi feito e voltaria para casa, ileso como o melro que põe ao ninho do tico-tico.
Todo o mundo é imenso, desde que não sofra de tesouras afiadas. Como a Cidade crescesse em orlas descomunais, Pedronório pensava em como haveria de ser o futuro. Era fácil angariar imagens, porém, quando dissera que buscaria recurso fora da herdade, como fizeram Anjo e Archanjo, era somente um estufado de peito que ele queria impor. Jamais pensara numa coisa daquele naipe. Queria não parecer estúpido. Maria Mariana tinha momentos em que falava coisas difíceis de quilate, pois que decorava aquilo das vozes de rádio, depois repetia. Manias dela. E quão diferente era no então, tão diferente da rapariga azeda que ele encontrara a zelar de um bezerro novo, nos dias em que fingia campear por ali, montado num pangaré. As idades muito ameninadas ainda, sem nenhum pêlo que tivesse sofrimento de gala. A agressiva forma da rapariga dizer as coisas, como se ele fosse um reles excremento de lobo sobre amontoado de cupim. O desconsiderado, cada coisa de fazer sofrer sem se sofrer, somente a indiferença de um revés. Objetos que emanam do pensado e do sentido e cada momento regulando a dimensão do anterior, do que vem a seguir. Rasteiras. Efusões. As quedas nem sempre tropeçam antes de seu anúncio. Como há de se haver, o rapaz relegava a outros planos os palmos do que agora lhe servia, imiscuía as coisas de uma maneira irregular. Nos memoriados de certo silêncio maior, em vislumbro, surgia a figura retratada dele sobre o cavalo, a rapariga a morder um talo de grama e a dizer coisas nem sempre palatáveis. Nem fosse o teor da conversa, mas o pião da voz. Seu tamanho era apoucado para uma rapariga daquele tamanho, afinada em baixo, alargada em cima. Então, jamais pudesse imaginar que a corrosão das coisas começa quase sempre pela película da transparência, nas bordas mais leves. Um modo de exigir-se a conversão de um mundo, que destinos não sofrem de rédeas – quase sempre não – é nunca imaginar que ele pode ser tão retificado, maleável somente em conta da maleabilidade. Pedronório via nela a forma de um achegar-se, aliviar aquilo que os olhos queriam escrafunchar. Tão quase, somente. E que, sendo como é o calor das quenturas, o mingau se come pelas beiradas, cada colherada bem vigiada, que assim não se queima o beiço.
No pensado de como foi, o que não foi, surgia a pintura do dia da dança, ele já mais graúdo, agalanado com um raspa de bigode que cismava em ir, cismava em não ir. A forma dela desconfiar que o rapazote já era apto a um embondo qualquer. Via-se nela, sentada sobre o tronco caído, oferecida em demasia, a distância encurtada entre o dia do cavalgar – quando era menino imberbe - e uma realidade de corpo – quando tivesse a possibilidade de demonstrar seu rumo varão. As coisas iam mudando. Não vira na rapariga nenhum tormento agressivo naquela dia. A dança boa, o bailado repicado que ela desenvolvia em seu corpo aprendiz, mesmo que tivesse sido às custas de pisadas pesadas sobre os pés. Os seios atacados. Ela sempre dois pavimentos mais alta do que ele. E agora, toda boa e maciota de conversa, demonstrando uns suspiros lânguidos, os bocejos nervosos de quem espera uma ofensiva que não vinha. Somente quando pegou o trilheiro de volta para casa, somente aí foi que Pedronório desconfiou que a jaca deve ser descascada para ser comida, que o visgo é somente o conseqüente de um apetite. Os cheiros dela não eram somente a diversão do cheiro, mas a devassa temperatura do que há além, o morno chanfrado daquilo que respinga, feito fruta cortada.
Num momento em que a rapariga estendia a mão para apanhar a do rapaz, feito fosse fazer uma confidência muito ambulante, o cão cotó deu sinais de ladrar. Era o tempo avançado para a hora dos companheiros – os do roçado – voltarem para casa. O ladrar rouco do cão preto, a resposta dos cães menores que acompanhavam a bulha. Chegavam. Tiãozinho vinha mais animoso, todo dizendo as coisas de uma alegria qualquer. Pais dela vinham na marcha mais atrasada. Cansados, as cadeiras dobradas de uma dor lavrada, como sói acontecer em casos assim. Tomada de um espanto pequeno pelos que chegavam, Maria Mariana soltou a mão do rapaz, nem dera tempo de sentir o morno suor que exalava de sua superfície. Deu tempo de se recompor, afastar deles um juízo ruim seria de boa norma. Aborrecidos devem ser renegados, era sempre o que se devia. Pedronório, acometido de uma picada de vespa, fez reles a menção de erguer-se para ir embora. Tiãozinho entrou, saudou. Desamarrava das canelas o canudo que fizera, à guisa de bota, a proteção contra a abundância de jararacas que infestam as touceiras de ervas. Um canudo feito com borracha grossa. Tiãozinho tinha as práticas da boa vizinhança. Sem entender em nada o que o vizinho fazia ali, nem querendo mesmo saber, deu seu saudado sem efusão, porém, sempre no restilo do respeito. E, enquanto pais entravam, encostadas as enxadas e foices no esticador maior do curral, Maria Mariana alisava a saia, cobria os peitos da forma que mais podia, muito embora para eles a sua nudez estivesse a cem léguas daqueles trajes. Peitos não fornicam a função, não funcionam na fornicação. Era assim, somente um caso de aperceber-se de uma sem maldade. Se havia um rasgão sobre a blusa, aquilo não passava de um infortúnio do tecido.
Pedronório cumprimentou. Ergueu-se, em mola, para ir-se dali. Aproveitou a ocasião para fazer a vez de despedida. Era mesmo a hora em que passarinho mais esperto caça o pouso. Tinha que aviar-se. Achar rumo.
- Então, sim senhores, já estava de saída. De passagem, aproveitei uma caneca d’água fresca!
- Sempre se vem bem, Pedonó. Tua avó Semira está de bem com a saúde? E Tião do Neneco, do Bom Jardim? Tão perto e tão longe da gente. As correrias e os apertos, bem se sabe como é. Tua avó é contra a Cidade crescer, mas precisa ajuizar o como e o onde das coisas. Ninguém segura o que mais for de progresso. As ruas sobem e descem, abarcam o caso da gente existir!
- Avó é antiga demais. Não tolera a rua, não tolera as valetas que abrem para razão de enxurrada escorrer. Passam máquina, abrem a valeta para dentro dos pastos lá de casa. Falam que é erosão o nome do desastre. Pai, quando vivo, fazia beiço, Vó Semira fica muda, sabe o controle do silêncio!
- Quando tu nasceste, não havia uma única casa do lado de lá dessa capoeira suja, no meio da bosta-de-cachorro e da mamacadela começaram a derriçar. O derriço. Tu ainda eras pequeno, Maria Mariana era já mocinha, foi aí que começaram a aparecer casas de lado a lado. Quantas vendas nem existem daqui até a porteira das terras de tua avó? Quantas? Muitas...!
Pedronório viu assunto abastado naquela chegada. Bertolimeu Vinsconcelo queria a conversa. De dedução, Maria Mariana deveria ser Maria Mariana Vinsconcelo. A atrelada da nomeada. Sebastião Vinsconcelo. Dona Fiota, por apóstrofe, seria Vinsconcelo. Outro nome que tenha carregado dos tempos em que se atava a palavra lingüiça com nó de cachorro. Em Bertolimeu ele enxergava a mesma berruga feia que fazia modos em riba do nariz da filha. Ninguém questionava presença dele ali, feito fosse uma visita de suma importância que há muito tempo aguardavam. Tratado com decência, como se adulto de modos bons ele fosse. Maria Mariana perdera todo o aparte de nervoso. Olhava ora a cara do pai, ora a do rapaz. Depois saía de diante das pessoas e ia ajudar a mãe nas tarefas mais substanciais de cozinha. Esquecera-se de refogar o arroz. Pedronório via uma ojeriza qualquer nos ares de Dona Fiota. A janta não estava pronta. A filha desmazelara o entrado da tarde. Haver-se, o que houve. Todavia, ninguém raspou maldade da questão. Bertolimeu batia a binga, acendia um pito grosso. Os cães, no respeito como ele deve ser, não se aventuravam a entrar dentro da casa. O lugar empobrecido, a porta da frente cambaia, escorada já estava com vigas mais fortes, os adobes corroídos, lugares onde havia tijolos nus, o que aumentava a qualidade de estranheza e remendo do lugar. Dona Fiota abaixava-se para assoprar o fogo. Até que as labaredas pulassem. Fatigada, pois que a velha – Dona Fiota já estava mais anciã do que uma moça ainda – demonstrava a precaução de um desgosto, via que ela ralhava com a filha, deu interesse de querer partir dali, achar ares melhores nos trilhos que levavam à sua casa. Vó Semira esperava com a sua janta no rabo do fogão. Tinha a certeza plena. Deixaria os que eram da casa em sua paz mais íntima, os temperos que são. Cada um sabendo dos banhos, das coisas que costuma costumar. Anseios de sossego, descanso.
Era a hora de toda a manada de passupreto descer para as faldas dos bambuais. E desciam, a goela repleta de um gorjeio fundamental. Escurecia quase. Anus na labuta do vôo discorde, rítmico em peso e torto. Assim voa o anu branco, no prumo dificultado, como também assim nada o peixe com a bexiga rota, aquela que insufla ar e torna o remado mais lisonjeiro e afagado. Havia uma beleza dourada no entardecido, como somente em diáfanas de terra central acontece. As nuvens apondo filtro nos princípios de mês, as formas das primeiras chuvas. Todo o rompimento do som vinha do farfalhado de bambual. E as querelas por causa de um pouso melhor, em cada ave que chegava. Pedronório sentia aquilo, todo súbito, mas tinha uma intenção mais fatídica dentro da alma. Acontece que ouvia tudo que o velho tinha para falar. Bertolimeu avançava na conversa. Tinha um tremor idoso nas mãos. E tinha mais rugas do que a idade podia supor. Sempre trazia o cheiro doce do tabaco entremeio os dedos. Seu tremor, bem se pensado, tinha momentos em que sumia, principal em horas de sumiço: quando ria para fazer crer que uma anedota era toda completa de realidade.
- Pois que muito bem, Sô Bertolimeu, acho que vou fazer o aceiro, rapar daqui. Depois se fala mais prosa!
- Bobagem. Onde comem quatro, comem cinco, até dez comem. Fique para o feijão com a gente!
- Não sei não. Se não chego para a janta, avó Semira vira onça. Preocupa-se com atraso de qualquer minuto!
- Outra leseira. Come e vai embora, pronto!
Havia um riso muito largo na proposta de Bertolimeu. Pedronório saiu lá fora, onde apanhasse mais a fresca de ventos que vinham das descidas do Amanhece, da Serra do Calistrato, do Brilhante – lugares de muito fervor em beleza. Sentados no banco de fora da casa, no terreiro, o assunto de passupreto ficava enorme. Pio e gorjeio sobre mais pio e mais festa. O rapaz pôde achar vantagem naquela presença de bom-estar. Olhou em torno, a pompa da ramagem. Tudo igual à sua casa, somente na sua era mais comum haver-se em vista os vasos com antúrios, as flores mais caprichosas que enfeitam rente às casas. Os canteiros com certas flores de cor amarela, a maria-sem-vergonha, as manchas brancas da comigo-ninguém-pode, as próprias e delicadas orquídeas atadas aos troncos de qualquer árvore. Se tudo fosse igual, porém, era de se considerar as nascentes do Pedras de Fogo, a riqueza oportuna que tinham bem no fundo da herdade. A beleza que era o borbotão do ribeiro, a clareza das águas, o barulho que havia tão logo ela se despencava, humildezinha, numa primeira cachoeirica sobre as tapiocangas. Seguida em força miúda, porém plena, sepenado em claras luzes no rumo das vertentes, lugares onde a Cidade fazia o eito longo, o progresso.
- Chega um dia que tudo isso aqui fica no vão, em vão, não é um fato, Sô Pedonó?
- Facto é. Se dependesse do finado pai, nada mudaria. Senhor mesmo disse, ninguém segura a Cidade! Engrandece depressa demais! Avó Semira fala em fazer as malas e buscar refúgio em Goiás, onde ainda pia a nhaúma e as juviras enfeitam os barracos de rio!
- Ora, o progresso tem as suas vantagens. Ano que vem aqui vai haver a luz elétrica! Acaba a era das lamparinas e da dificuldade de se enfiar linha em agulha. Fiota espera, Fiota é do progresso!
- É. Cada um sabe de si. Nem outro sou, divido as partes em mim mesmo. Tem hora que rebusco, tem hora que somente busco!
- É o que digo. Acaba-se a escuridão, acaba-se a dificuldade de se enfar linha em agulha, nas noites em que é preciso casear!
- É. As noites que a gente nem espera delas o caseio!
- É sim. Onde o morno vinga, vigia o antes mais frio, mas que também pode haver sido o antes mais quente.
- Vertentes das almas, o que fica... o que não fica!
- É sim. Onde vinga o morno, o depois pode ser mais frio, mas o depois pode ser também muito mais esquentado. Ninguém deve falar que dessa água não bebe. Tu és jovem como uma fruta de vez..., ainda!
- Já cuido de partes de mim. Metade das doze reses do nosso Campalegr’ são minhas. Metade das minhas doze são dela, de Vó Semira. Tudo fica igual. Avó Semira explica que dentro de um caixão, no estiro, pés juntos, quase todos os homens são iguais. Tudo vai feder, nem que mais feda uns que outros!
- Tua avó tem as sabedorias. Trazia teu avô na chincha! Lembro-me bem das atenções dela, a severidade de conduções!
- Ouvi dizer!
Pedronório aquilatava as coisas que iam ficando acontecidas. Ali era bom lugar. Maria Mariana tinha vezos de suas tranqüilidades. Explicava-se. Pode ser que Bertolimeu – tanto enrugado nos cantos dos olhos – falasse coisas com ela. Os filhos todos encaminhados em vida, Anjo e Archanjo na busca de melhores ares. Os progressos, como a cinta da Cidade que se estira em ruas novas, em coisas mais capitais. Mirablia ia dignificando uma beleza de extensão. Tudo novo. Não se dava mais que cem metros de passos para se comprar o que quer que seja, tudo se achava no espichar do braço, somente. Bertolimeu, batendo a binga outra vez na busca das faíscas, olhava com um olho fechado, outro meio aberto, observava somente uma vontade de prosear. Era o que parecia. As mulheres agiam na labuta. Dona Fiota sentava-se para puxar meia dúzia de resmungos. As cadeiras doloridas, amassadas pelo labor da enxada. Cheirava em resmas todo o alho que se usara no refogo do arroz. Bertolimeu, por mania, como havia falado, tinha ojerizas do arroz que fosse requentado.
- Se tu queres ir avante, achar riqueza, não é aqui o lugar. Goiás é o forte do mundo. Tem árvore lá que dez homens não abarcam. O capim sobe por cima da cabeça, não tem o berne ou a mutuca – pela conseqüência!
- Avó Semira desaconselha. Conta que num homem, tem vez que a raiz conta mais que as gavinhas!
- É só se atravessar o Paranaíba. O mundo fica outro. Aqui é bonito, está certo. Tem horizonte para todo mundo e tem ponto cardeal mais que ponto e mais que cardeal. O sol nasce e põe lestes na gente, tão logo respinga a luz primeira, mas tem coisa que vai ficando imprópria!
- Tem alma menor quem deixa sifão exprimido!
- Tu és homem jovem, mas sabedor de coisas. Ali, do outro lado, onde nasce aquela água choca, salobra, coberta de ferrugem. Tu sabes onde é. Amontoa-se lixo ali. Jogam o lixo no meu terreno, minha parte do Campalegr’. A Cidade vai crescendo, tem hora que acho que vou é ficando menor.
- Descarnaram uma vaca de Vó Semira, a semana que passou. Quanto mais a Cidade cresce, mais as pessoas sofrem a fome. Sangraram, couraram e descarnaram. Bem nas barbas de Tião do Neneco! Ninguém dá notícia de quem foi. Avó Semira manda esquecer, não paga a pena alvoroçar, ela fala!
- É. Mas se a cada dia abatem uma, no fim do mês, desanda a pobreza na gente. Haja rês para saciar o povo!
- Por escassez, a vida corre perigo
- Gente chegando de todo lado. Atiraram, em porta de armazém, no centro do lombo de um sujeito qualquer...!
- Ouvi o que se disse!
- Pois foi...!
Pedronório ia se apercebendo mais e mais da faina da mulheres, ínsitas, a cozinha deixando trafegar o cheiro de alho tostado. Tudo doméstico, a seguridade das pessoas. Bertolimeu batia a binga a cada minuto. Depois, quando mais falavam, o rapaz procurou de si falar pouco, sem saber por que. Achava que algum detalhe podia ficar prejudicado se de si mesmo ousasse abrir a goela. E, veio a noite com a eficiência dos cinzentos comuns. A conversa de ambos arrefecia, devagar, feito mesmo o ambiente em que se enrolava a vida de um momento presente. Maria Mariana, com uma cuia escura nas mãos, vasilha curtida pela usura continuada, andava de uma lado para outro e cascava as morangas frescas. Fiota admirava-se das abstrações, é o que parecia. Seus olhos, porém, eram dados a um jeito jamais triste, mas dotado de uma realidade amarga. Noite toda menina, vinha e tomava o casebre. De onde estava, Pedronório avistava a porta da latrina, o pano de aniagem balançando, tristemente balançando, quando o vento batia no frontal dela. Uma tristeza súbita enviesava-se pelo corpo do rapaz. De toda tristeza que podia sentir, Pedronório imaginava que nada no mundo pode ser mais triste do que a poeira seca do mês de princípio de agosto, fins de julho. A sequidão dos capins, a brusca cor que desentende mais vida, grilos passando sede. Até grilo passando sede. Calango correndo sobre o próprio fio de um vento ressecado. Não por demais, ainda no rapaz vinha a imagem dos mastros de São João e São Pedro, aqueles que se colocam nos terreiros das casas dos pobres, eriçados à ponta de uma vara longa de bambu. Mete-se um limão bem rubro, maduro em grau mais avançado, na ponta daquilo e finca-se ao chão. Ergue-se o trambolho mais acidental que se pode imaginar. Para o rapaz o conjunto era a dimensão de toda a mais profunda tristeza que pode ser alegada. Imaginativo, Pedronório olhava a porta de aniagem da latrina. Desentendia, em ouvidos, a voz de Bertolimeu. Entrava num lado, saía no outro. Lá em cima, no mastro, o santo carimba com olhos antigos a imensidão do que virá. O que em volta atinge, cinge, impinge. O mundo todo. Coisa mais triste não há. Depois, nem sendo somente por isso, agosto vem com a sucessão de securas. Os homens todos fingem a saliva, enquanto o mundo cospe com a boca seca. Entre uma coisa e outra, o mastro de São João deturpa o laranjão das imagens. Para Pedronório, a cor laranja era a dimensão de uma estranheza. Pode ser que somente movido pela cor apertada, meio infernal, meio fantásmica, do limão bravo atado à ponta do empalamento. O rapaz sabia umas coisas muito antecipadas, mas bastantes para uma comemoração de identidade. Era o que bastava. Tinha mesmo coisa pensada que não ousaria falar com Bertolimeu, ainda mais que se julgava meio estranho, intruso, naqueles momentos. Tiãozinho era de poucas palavras. Regulado com ele em idade, calado somente piorava a situação. Tiãozinho falando em procurar vida livre. Anjo e Archanjo em busca de mundos, andando onde a vida supusesse mais. Modos deles, que não ousaram esperar o crescimento do prórpio lugar. Deixaram o Campalegr’, as lidas de roça, as retretas matinais. Ganharam mundo. Tiãozinho também não tardaria, pois ninguém segura quem quer ir-se adiante.
Tantos pontos, que se retirados alguns, não vai se alterar a configuração da reta. Entre um e outro, a infinita potencialidade de um mundo.
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P |
ois que Pedronório, num momento de toda diferença em vida, soube o gosto do tempero que vinha das mãos de Maria Mariana, comeu basto até o quase fartar-se. Um feijão mais engrossado, quase o dobro de textura daquele que estava habituado a encontrar em caçarolas de sua casa. Todavia, via as distinções de um modo em lisonja, bom de ser considerado. Maria Mariana olhava de banda, perguntava se mais ele estava bem servido. Um pedaço de mandioca a mais, talvez, a quebra gorda da suã. Bertolimeu ria desbragado sempre que contava uma espécie de anedota. Nunca que o menino pudesse imaginar o que seria de seu mundo, doravante. Se bem que em todo, nada o fio fino não lhe desagradasse. Educado, cheio de modos, feito as modas ensinadas por Vó Semira, o rapazote deixou o prato sobre a mesa. Havia restos pequenos, conforme foi que aprendera nas etiquetas, se muito bem nunca entendesse qual fora a necessidade de deixar um resto do de-comer no fundo do prato. Aquilo demonstrasse a fartura, a educação, sabe-se lá. O que há dentro de uma cabeça nem sempre pode ser o resquício de outra, o fundamento loução de um modo de existir. As educações carecem de fundamento, tem vez que assim é. Em certos minutos, havia um silêncio grande no ar. Bertolimeu comia calado, o prato suspenso entre as ripas de coivara dos dedos da mão esquerda, usando a direita no âmbito do garfo. Misturava tudo antes de levar à boca o misturado. Farinhas claras de mandioca, a lisa estrutura de um tutu preparado em gordura de dentro de osso. O sabor que não se iguala, no jamais. As identidades com elas são e não podem escapar à permanência de um nascido, embora antigo, embora já nascido.
-
Come-se
cá sempre mais cedo. Hoje, sol entrando, é que Mariana quis mais ornar as
panelas com um agrado!
-
Estimo
a boa vontade!
-
Sempre
que passar, se tem gente, uma quitanda, um biscate doce sempre se acha no fundo
das travessas!
-
Estimo
outra’vez a vontade boa!
-
Engraçado...
que somos parentes para um lado muito espichado, distante. Pergunta para tua
avó Semira. Avô dela, meu avô, um parentesco desde os tempos em que o Rei ainda
morava cá na terra. Ouvi dizer, eu mesmo nem conheci a tampa que fica sobre o
tingui da memória!
-
Então!
Somos!
-
O
Campalegr’é a devoção da parte comum!
-
Então!
É!
Aí, foi que
Bertolimeu sacou da algibeira um pedaço de pano semelhado a uma estopa.
Corrigiu uma água fina que queria escorrer do nariz. Sem assoar-se, sem
prejudicar a imagem boa que estava a sua, até de parentesco orlada. Enfiou
parte daquilo nas ventas, de um lado, de outro. Ao mais limpo modo é que o
fazia: sem assoar-se. Mirava a escurecida brusca da tarde, a noite clareando as
coisas todas com um exemplado de lua. Um jeito de quase entristecido tomava
conta de suas rugas. Mas era pouco o que em um vinha, se quando em todo,
comparado ao outro. O rapaz tinha o sofrimento de não mais aquietar-se. Ir dali
a qualquer preço. A conversa do homem, as velas descidas das palavras, tudo
começava a haver um desgaste. Ir-se dali. Agrados em transe de trânsito, o que
pode ser um desagrado na vida de uma criatura, até ao máximo de ser um
desencanto, um desânimo que progride ligeiro. De todo andar rápido, uma gastura
maior. Agrado é coisa que tem as faces de faca, uma que corta, uma que
dorsifica. Então, com biltres em sua alma, olhares de menor espera, Pedronório
bateu duas vezes nas coxas – feito faz um adulto que vai arrancar o corpo do
lugar -, anunciou que era hora de andar. Não podia mais, sequer nem a força
fina de um minuto. Avó Semira esperava, se não chegasse a tempo, pode ser que
ela mandasse bater atrás, saber em que ruas andava o rapaz. Ele conhecia o mato
em que lenhava, o senhorial da avó. As preocupações, quase que um exagero.
Seria, se para ele isso não representasse somente uma carestia de grande
ternura. Jamais via em Vó Semira o gesto estranho que lhe fosse.
-
Pois
muito que bem, sô Bertolimeu. Hora de andar. Agradeço a janta boa. Tudo muito
no ajeito do tempero. De parabéns!
-
A
casa é que agradece. Louvado o que seja!
-
Amém
nós todos!
Fiota comia com
a boca aberta, ainda comia depois que todos haviam parado. Tinha uns modos de
fundamento esparso, esquisito. Apanhava o que comia com o garfo – a moranga
cozida feita numa papa amarela, socada pelos dentes do garfo entre a farinha e
o feijão grosso e umas bagatelas de arroz branco -, atirava aquilo ao fundo do
prato, depois recomeçava a labuta, repetia. Apanhava de novo, jogava ao fundo
do prato. Uma compulsão absurda aos olhos do rapaz. Somente na quarta apanhada
é que levava o angu à boca. Com um gosto alucinado é que o fazia. Quando
chupava um oco de osso de porco, vinha o vazio do chupão contra o céu da boca e
língua, os lábios brilhavam na correção da banha. Pedronório achava de pensar
um malefício daquele modo de se jantar. Achava feio o que via, mas em sujeito
calado mais vinga uma alegria. Aprendido e nunca esquecido. Maria Mariana via a
carranca da mãe. O pano sujo que amarrava a ferida bastante que ela tinha na
canela, do lado direito. Do lado esquerdo outra ferida já querendo despertar o
olho. Uma coisa que não tinha cura. Muitos anos de se-sofrimento. Fiota
desaprendera o que era riso. Em pouco tempo dentro da casa Pedronório avaliava
a proporção de uma coisa, de outra, mas jamais pesava em certo prumo o que mais
fosse. Para se conhecer uma criatura – dizia Vó Semira – necessário que fosse
comer junto dela um saco grande de sal. Formas de se dizer que a convivência é
que canta, feito carro de cocão justo subindo a serra. Então, nem sempre de
primeira visão pode se compor a regra de uma existência. Anunciado estava,
Pedronório ergueu-se e marchou em direção à porta da casa. Comprimiu os olhos.
Havia, basto, escurecido. Somente o vôo dos curiangos de primeira instância, o
recruzado com a tabulada forma de vôo de morcegos, somente o simples e cinzento
entrava na distribuição entre raios de alguma lua. Adiante de seus elementos de
busca, olhos, sabia-se ao trilho que levava à sua parte do Campalegr’.
Maria Mariana
acompanhou o rapaz e trilho avante. O que ia na serpeada em direção às nascentes
das Pedras de fogo. Adiante de todos os olhos, em banda de riba, havia o lume
pequeno do rebrilho de luzes de lampião. O que vira a novidade, os armazéns que
vendiam em tempo de até mais tarde, o progresso que anda a galope. A Cidade
avaliando a grandeza de todo tempo.
Desceram rente, ele e Maria Mariana, um rego d’água de fio menor,
atravessaram uma pinguela de ripa tosca, baixa, com água morna passando sobre
ela. Quando esbarraram na figura de porteira velha, o capim barba de bode
ornando em lado e lado, o meloso apondo algum bedelho de cheiro entre um lado e
outro do trilho. Maria Mariana anunciou que dali tinha que voltar. Lá para
dentro de casa, nem distantes estivessem, mas à lonjura de se ouvir o blemblem
de pratos e rabinhas que Fiota devia de estar lavando. A janela aberta, a
lamparina apagando ausência de gentes, tudo derramava a ligeireza sobre o
momento havido. A tosse profunda que agora desgarrava-se o peito de Bertolimeu.
Fiota perdendo a paciência com qualquer coisa. Falando alto, com um mal-estar
de toda a sua voz.
-
Daqui
eu volto. Muito fiquei florada com a tua presença! Pai gostou, mãe também, lá
de seu modo!
-
Eu
é que suponho, agradecido!
-
Podes
voltar toda vez que houver a vontade. Sempre nas tardes, que espero. Fico muito
sozinha com o cão!
-
Farei
a lembrança. Aqui é bom. Tocante em mim!
-
Tu
estás a cada dia mais maduro! Precisas de uma namorada, vai te fazer melhor em
si mesmo!
-
Um
dia, o talvez!
-
São
tantas, sou eu mesma!
-
Tu
és um à toa de qualquer boniteza!
-
Ora,
somente dizes para que meu agrado desperte do sono!
-
O
que posso, minha vida conta o que vejo!
-
Então,
se assim é, mereces algum abraço!
-
Preciso
ir. Vó Semira sofre uma coisa boba se eu não chegar agora. Já escureceu.
Desentendo o que foi. Atraso não é toda vez que me pega, assim é que sou em
tudo!
Num momento de
estranheza que Pedronório não teve tempo de atinar, viu com relevo grande
quando a rapariga marchou sobre ele e abraçou o seu corpo magro. O cheiro de
salitre que vinha do corpo feminino era o mesmo que descia e subia em corpo dele,
o sarilho. Sovacos todos na melança dos fluidos. Para ele, porém, acontecia o
inesperado. Se o excitado de antes era peremptório, oxalá nem fosse perene.
Estava meio murcho. Sentiu quando a rapariga envolvia os braços fortes em torno
de seus ombros. Um aconchego ligeiro e breve, estava o seu nariz enfiado no
regado dos peitos opulentos de Maria Mariana. Quente o mundo, mesmo sem lume.
Esquisito o abraço que ela dava, como se emborcasse toda a itinerância de um
corpo arqueado, em tudo querendo envolver, feita a placenta integrada em algum
sufoco. Pedronório viu os olhos tapados com a viseira enorme de um socavão.
Conseguiu, como pôde, soltar a venda de um lado e soube respirar mais afinado,
ainda com um dos buracos do nariz em sufoco. Toda a definição de excitação ia
pelo ralo, águas abaixo, como a força perene do Pedras de Fogo. Sentia apenas
uma espécie de desfundamento de existência, como se boa parte das coisas que
tinham corpo, num repente de repente, sofressem de ar e espaçado de forja fina.
Como desejasse sair dali, num esforço inútil, moveu as pernas e soube que um
chumbo fresco depositava somas nelas. Era a primeira vez em sua vida que era
abraçado, esquecendo os abraços delicados e de braços suaves que aplicava Vó
Semira, nem mesmo mais ninguém o fizesse. Apenas Vó Semira. Quão, a diferença.
Um odor de sabão feito em casa subia pelas suas narinas. Notório, sem mais
saber, veio o engulho. Uma vontade de dúvida, de correria, uma vontade de
urinar para a parte de dentro de seu próprio corpo. Não soubesse aquilatar o
que mais houvesse dentro de seu pensado. Nem mais alguma coisa houvesse.
Engulho, uma tontura que durou enquanto durou o abraço, nada mais que uma
montada de touro. Assim foi que ele, depois de enveredar-se campo afora em rumo
de casa, pensou. Avó Semira tinha o cheiro mais de alecrim, nada que fosse tão
austero como em Maria Mariana. E como são as coisas, elas mesmas e pesadas em
si, Vó Semira tão tutelar de modos, tão séria, tão tomada das palavras sóbrias,
do riso honesto somente emitido em hora certa e longe de qualquer maneira
espúria ou ruim. As crenças: de como se pode ver o mundo e seus apartes de
abismo. As virtudes de cada criatura. Os amolecidos de outras. Pedronório
comparava sem fazer força, somente um adendo de mensagem dentro do peito.
Nada mais que
excitasse, somente um tenebroso modo cabisbaixo. Se era capaz de promover um
furo na parede da casinha da privada com sua excitação, naquele instante
Pedronório sentia as vírgulas do instante, a necessidade da fuga imediata.
Desfez-se do abraço, Maria Mariana mesma desfazendo-se dele, olhando para o
chão como quem se envergonha de um acto anterior, não pensado. Mas, ainda
assim, um sorriso meio desbastado de bordas surgia em lábios dela. A iniciativa
despertava a sua ânsia e a sua honraria, o haver começado, demonstrado o quanto
valia o seu desejo. Ou qualquer coisa que bem quisesse. O rapaz atravessou o
rego d’água e quis beber. Tinha as náuseas, poucas, mas muito afinadas.
Resolveu não abaixar-se para saciar a sede. A pressa era maior do que ela. E
num ímpeto de viajor afeito ao ligeiro e assustadiço, olhou para trás numa
última trançada de olhos. Viu a imagem, em Maria Mariana a imagem afinada em
baixo, desatada em cima. A lua oferecendo o clarão, quase que um lume branco. O
rapaz viu quando ela acenava em último desfecho. Uma amarga melancolia
sub-limava, então, ao cerne do rapaz, feito fosse de um dó antecipado que ele
escorresse dentro da noite e sobre a imagem que gesticulava. Sem nenhuma
concessão do que uma nova espécie de sentimento que nunca havia experimentado,
Pedronório desatou numa ofensa consigo mesmo, um desatino absurdo, besta, uma
vontade de chorar que se punha incontrolável. Apanhava, enquanto caminhava,
tufos de capim de beirada, oxalá viesse junto uma felpa de espinho de malícia,
arranhava as mãos e sentia a dor fina dos acúleos. Um sangue pouco brotava e
ficava-lhe em centro de estações de alma a coceira que regula um ferimento
assim. Olhou pela fresta da noite, arengando o pescoço em dobradiça, para trás,
como quem calcula um tempo perdido, não mais viu a imagem dela porque já andara
mais passos e menos vistas do que um morro não pudesse cercear. Sumira a figura
com gestos. Ele mesmo viu-se envoltoem penumbra de muitas árvores de caminho.
As beiras estiradas, de espraio, o que levava às nascentes do Pedras de Fogo.
Bateu perna. A
lua já subia nas grimpas do mundo. Vinha ungida de um óleo cru, a especiaria de
lua, o amarelão que atura a vigência, a travessia da noite. Pedronório sabia
que tinha desenhos de luz às costas. O odor que permanecia em seu arremedo de
bigode, um buço ruivo que principiava, fazia-o tornar a deuses ensinados. Pedia
a eles que o ajudassem a nunca mais voltar ali, embora soubesse que dessa
petição jamais estivesse livre. Descobria que deuses todos, em quaisquer pontos
de universo, sem milagres e outros complementos, jamais atuam na desiderata e
desatinada destinada dos homens. Assim que é assim, desde que se aprendeu a
gorgotar. E se uma promessa miúda fizesse, sabia que dela não estaria indiferente,
que havia que cumprir uma sina de volta. Algo que fazia seu peito saltar na
força veloz de um colibri. Sem que adivinhasse o que lhe vinha adiante, o rapaz
desconfiava que uma ilusão entrava-lhe pelo rabo e entalava-se na goela. Embora
ilusão, sempre amarga em todas as suas confluências e fluências. Novidades em
seu mundo de começo em vias. Avistou a cumeeira da casa e pôde sentir os frios
arrepios que subiam das margens do ribeiro. O Pedras de Fogo nascendo das
escarpas batráquias de todo vermelhil das tapiocangas. Pressentiu maior frescor
à medida que caminhava. Assenhorou-se de estar, reses conhecendo seu perfil
magro.
Grande lua, a
desofensa do nada. O quê que uma lua tem a ver com a dor e com o rumo, mesma
regalia de nunca de todos os deuses ensinados? Por certo que sim, a menos que
dela se usufrua somente a parte que pinga o doce, em palavras outras, o rapaz
descobria que é de baixo para cima que se chupa o mel e não de cima para baixo
que se espera a abelha evacuar. Chegou em casa num batido desconfiado, o receio
que pudesse ser reprimido por um qualquer que estivesse nas locas da
preocupação. Olhou em torno, olhou para dentro de seus olhos, dele mesmo. Um
cheiro de amenidade transcorreu em torno, o cheiro da bosta de boi, o misturado
com flor de são-josé que subia dos fundos, onde o ribeiro nascia. A lamparina
sobre a mesa da cozinha deixava bruxuleios domesticados dentro de seu peito.
Sua camisa inundava-se de sombra de casa. Seu dorso infundia-se ainda da lua
que trespassava as planícies do mundo. Maria Mariana ficava longe. Esticada em
hordas que ele não queria sufragar. A
criatura mais estranha do mundo ficava sendo Maria Mariana. Ninguém conhece
ninguém. É de ninguém o conhecimento de alguém. Tudo é escolho, senão escumalha
de certo engano. Assim ficava a cabeça do rapaz ao entrar em casa. Como é que
se pode dizer que se conhece alguém? Como no momento em que estava encostado à
parede da casinha da privada e a rapariga urdia lá os seus intimismos de toques
gemidos, a sedução contra o nada que pudesse justificá-la, somente uma banda
suada de humor. Fosse ela uma cadela, que mal mudaria o que sentisse?
Perguntava-se. Somente o intento de achar o calor desbragado que emana de uma
cona cabeluda. Coisa assim, pior do que os cavalos, que esses, quando
acostumados na decência da convivência aluem as vidas em rumor de repetição. Um
eqüino requerendo o outro, no sempre, sem cio, mas na permanência de um amor
animal que não pode ser explicado de outra forma, senão toda heresia nem cabe
nos moldes que se aplicam. Ele mesmo, conferindo, sabia que os eqüinos repetem
amores, até mais de uma vez ao dia, sendo casal sem mais éguas, somente ambos.
Por solução de querer, afinal.
Dentro da cabeça
de Pedronório surgiam as primeiras respostas sem perguntas, não obstante muitas
perguntas desativadas em responder. Quando entrou sob o bruxuleio tépido da
lamparina, a luz lavou-lhe a secura da roupa. Avó Semira estava sentada à
cabeceira da mesa de pau-ferro. Cerzia meias velhas e tinha os cabelos
amarrados ao cocuruto, a cor deles deslizando entre o cinzento sem tinta e o
tempo de um alourado estival. Punha óculos à ponta do nariz. As mãos com veias
azuladas, as que sempre ficam em folha de romance, e uma pintas que eram da
pele da raça. O rapaz, astuto feito gato do mato, olhava de banda, pensando em
saltar fora da cozinha, se acaso alguma culpa fosse-lhe imputada. Sentia culpa
por nada. Todos os santos do mundo vinham-lhe ao bestunto, todas as rezas e
todas as formas de expurgar pecados. Recordava-se das recomendações da mãe, que
tudo tinha seu naco de pecaminoso, desde que fosse feito com ralos de pecado: o
natural de como ser, as jaqueiras dão jacas e as mangueiras dão as mangas. De
relance, viu o seu prato de janta depositado ao rabo do fogão. A cumbuca de
leite azedo ficava estirada sobre a mesa, num repouso de séculos. A farinha nas
farinheiras de madeira. Colheres iguais. Tudo quão o fosse, o domiciliado.
Domesticado. Avó Semira ergueu os olhos dos panos e sorriu com leve levedura.
Via no menino a sobriedade de todos os tempos. Tranqüila, sorriu outra vez e
fez um silêncio de diamante escondido.
-
Onde
é que tu andavas?
-
Em
casa de Bertolimeu e Dona Fiota!
-
Fiota
vai às saúdes boas? Muito aqui tão próximo e lá não se vai, a não ser nos dias
de novena! O Campalegr’!
-
Boa
está. Somente numa zanga que não acaba. Ojerizas!
-
Maria
Mariana é moça boa. Somente diz-se que se fecha no quarto em passagem de lua e
grita um nome de homem, feito de sofresse de desatino. Grita até esfalfar-se na
dor do não escutado!
-
Credo,
avemaria! Fuxicos. As coisas que dizem. Pareceu-me atenta às prendas de uma
casa! Jantei lá...!
-
Esfalfa-se
na dor do não respondido!
Avó Semira
ergueu-se, esbateu os fiapos que acorriam na concavidade do vestido cinzento
com bolas brancas, miúdas. A gola perfazendo uma espécie de gargalheira que
nela assentava bem posto. Como soubesse andar no escuro sem dar um único
tropeção, enveredou-se casa adentro e o rapaz ouviu quando ela fez ranger a
porta contra as bandas de fora daquilo que era o seu aposento de dormir. Pai e
mãe já no sono, conforme a noite é boa de se aproveitar. Que a noite de bom
aproveitado costuma ser como o boi, nada se perde, desde o agouro suave do
mocho até a bisbilhada batida de uma chuva pequena, quando há. A saparia, as
pererecas amarelas de beira-pote. E no mais, quando se acorda e vem a ternura
fresca da madrugada e que cai o sereno, o carretel alvíssaro da três-potes nas
sombras de bambual e em resto de seva de capado. Naquela noite, estranhado de
corpo e parte de alma, Pedronório tinha ligeiros sobressaltos, acordava sem o
proveito denso da noite. Num cochilo, comovia-se com imagens que iam surgindo.
Assustava-se. Espalancava os olhos e cria ver círculos amarelos borlados de
vermelho diante deles. Apertava o grão das vistas em busca de um círculo mais
ameno, um que fosse azul, mas somente auferia o surgimento de um verde que se
desfazia para a aparição de outros amarelos. Noite amena, mas suada. Não
bisbilhava a chuva, que bem dela poderia surgir uma salvação, um alívio de
estado. Avó Semira dormia sem roncos. Nem a cama de molas surtia barulho. Com
uma idéia na moleira, teve ímpetos de se levantar da cama e seguir em direção
do leito da avó, mas sofreou o ímpeto. Não era mais o menino de antanho, a avó
poderia desconfiar da mão, crer que com cabelos às canelas um homem deve achar
mais desafios do que uma facilidade de tempos anteriores. Ficaria calada, por
certo, mas para ele seria mais digno que buscasse seu próprio canto.
Nem se dando ao
certo se tudo que sentia fosse sonho ou sono, Pedronório via mais e mais
imagens. Náuseas outra vez, cada um se enfiando dentro de outra menor, como se
possível existisse que uma coisa grande caiba na aritmética de uma menor.
Suores aumentando à fusão dos pensamentos. Lembrava-se de estar sentado a um
banco do armazém onde tinha a sinuca grande. Dois homens jogavam, quase que nem
jogo, um massacre era a disputa. Um moreno de bons dentes, capaz de acertar
cada buraco com a regalia de uma lisura. Apto para a pontaria. Atirava, via a
bola erguer-se de si mesma, fazer um rocambole dentro das vistas, patinhar,
sibilar a espera e à espreita do instante seguinte, depois, sem choro nem
régulo de vela, entrar no buraco e plec, pôr fim ao tormento da existência do
número que supre-se a uma cor. O outro era cegueta. Se não enxergava direito a
mesa, que dirá as bolas, o taco. Com exaspero de buscar uma perfeição, o vesgo
aproximava-se o mais que podia do objetivo, alçava um alvo e disparava. Se o
acaso fosse presente, no ricocheteio de uma em outra, as cores bamboleando a fuzarca
das tabelas, os clics e clecs, aí sim, uma delas escorregava na monção da
fortuna, uma caçapa era preenchida. Por
mais erro que acerto, o vesgo punha-se rubro como pimentão, irritava-se com a
dimensão do absurdo. Ao outro, o dos acertos, cabia rir e consternar-se diante
da pena que a cada homem cabe diante de seu sucesso, não obstante a
insignificância que aos demais sobra. Paciente, o que tinha bons olhos
deixava-se escorar à parede do armazém. Aguardava que o outro escolhesse e que
disparasse. Paciente, qual o tosão que nunca vai ser achado, porquanto nunca
tocado. Por injustiça, Pedronório tomava o cerne da disputa. Via desdobrados os
gestos do caolho. Teve, súbito, o grande dó. Espadanar com os homens maus, ele
pensava.
Pedronório via
as imagens no sibilo fino das trevas. A cumeeira, se acima destapavam-se as
nuvens, deixava vazar os instrumentos de um clarão. Urgia em sua cabeça mais
imagem. O jogo de sinuca, o massacre que ele presenciara em um, o vesgo –
contra o outro – o mulato. Com olhos de rapina o mulato atirava e a bola azul
tomada de espanto, fustigava-se, arremesso perfeito. Condescendente, penalizado
com o defeito do outro, ele fazia questão de deixar-se errar. Todavia, havendo
a preclara intenção de mostrar à platéia – havia platéia, inclusive nela
Pedronório, naquele noite menos sonolento – que seu tiro de bola em bola era
exacto, o mulato, vez ou outra, com um sorriso de superioridade metafísica no
semblante, deixava que sua pontaria desfizesse a impressão de que ele não
podia, ou sequer queria. Enquanto o todo, o vesgo esperava que chegasse a
alternância de sua vez de atirar, devidamente já irritado com os desacertos
sucessivos e com a raiva de vulcão prestes a explodir, devagar e devagar:
prestes a explodir. Como todo taco pode ser arma, Pedronório mantinha algum
receio da conversão de objetos, a faca ser rosa e a roda ser tacape. Como
restasse com a derrota diante do nariz – quem perde o jogo há de sempre arcar
com o tempo jogado -, o vesgo sobrava com o resto. Faltava uma bola apenas para
que o mulato liquidasse com o embate. No rosto do vesgo, a imensa dor de uma
coisa não compreendida, absurda em todos os degraus da decência, da consciência
e por ser verídica a busca da vitória, plenamente e também da inconsciência.
Pedronório via a viola em cacos. Mantinha a pena do homem. Mantinha a pena do
outro. De si mesmo por estar deixando que aquele mundo se revelasse aos seus
olhos e ele nunca pudesse fazer nada. Que não tivesse nada com aquilo, afinal,
pois que cada homem cuida de sua vida como bem lhe aprouver. Civilizações.
Esperava somente o desenlace – que seria fatal, inevitável – para rumar-se
dali.
Quando era para
ser o fim, o vesgo deixou a vez ao outro. No mulato havia o retardo para o
golpe final. Fingia que errava. Não havia mais como perder a partida jogada. O
mulato não guilhotinava. Queria dizer a todos que era magnânimo. Pudesse dizer.
Vencia e não havia mais como reverter o começado. Sabe-se lá por quantas cargas
de merdas, vieram de lá dois gajos e passaram cuspe ao taco do vesgo. Na ponta
da ferramenta. Já de si todo esculhambado, simples por não enxergar o devido na
imagem e na forma, o vesgo sofria a repreensão de sua incapacidade física.
Ninguém teria coragem de passar cuspe à cabeça do taco do mulato. Ele veria,
perceberia. Então, por que prejudicar aquele que já vem de oficina nascida todo
prejudicado? Pedronório não sabia responder. Pode ser que os risos
justificassem a maledicência. Todos riam. O rapaz encafuava-se em sua pequenez.
Sentia uma dormência de baba no canto dos lábios. Vontade de ir-se dali.
Percebendo o que faziam, o mulato revelou-se dono de um senso espirituoso
alarmante, sem fim. Permitiria que todos se divertissem. Meteu o giz azul à
ponta de seu taco. Errou a tacada e esperou a vez do vesgo atirar. Ebulindo em
direção à sua desvantagem, o vesgo achegou-se à bola. À elas. Estudou o que
seria o passo próximo. Mirou sem mirar, os olhos dançando nas órbitas e um
feixe de cabelos brilhantinados caindo na testa suada, rubra a um grau de
fornalha. Disparou e o espirro do taco foi supremo. Não atingiu – apenas o
resvalo – a bola maior, nem a bola nenhuma. Ouviu-se os guinchos, os estridores
de cada espectador. O vesgo olhava a ponta do taco. Vociferava em nome de todos
os filhos da puta que moram no Universo.
Quando uma lágrima pequena escorreu de sua face e misturou-se ao suor,
todos creram que ele tinha motivos para estar tão acalorado. Afinal. E espiaram
todo o definir da jogatina. E passaram cuspe ao seu taco outras centenas de
vezes. Errou-se. Erraram. E todo o aclamado de um circo supremo, sem fim, eccou
dentro das paredes do lugar. O mulato pôde acertar e a vitória foi a mesma de
sempre, como se não houvesse fundamento em ordem ou desordem. Universo.
Pedronório
esquivava-se da baderna sonhada. Nem sonho, opérculos. Avó Semira ressonava em
morno silêncio. Luas atravessavam as gretas e tudo depois foi somente a queda
no vácuo. Assim como brilha, entreactos,
a vicissitude de uma vida experimentada, mesmo que sucinta de flores.
Capítulo
10
|
A |
égua Granfina, apenas chegara o segundo dia de seu ferimento, dava sinais de não reconhecer mais as pessoas. Atabalhoado com a indecência daquela dificuldade que o animal tinha para morrer, Pedronório via a repetição que Timarco buscava: a oferta de milho, capim cortado e água. Prolongava-se o sofrimento do animal. Bilica olhava com olhos compridos, fazia um muxoxo com a boca e depois comentava lá apenas consigo mesma sobre a estultícia que ornamentava os passos de seu homem. Sorria com desdém. Cuá, que tonto! Era o que ela dizia, mormente quando ele estava distante, pois que adquirira algum medo das coisas depois que vira Pedronório coçando ferro de carabina, limpando a arma feito um obstinado. Olhando as pontas das balas e fazendo cruz nelas, como se fosse seu projeto próximo disparar contra lobisomens ou vampiros. Por via das seguridades, das dúvidas, melhor seria deixar o sossego andar dentro de casa. Parvo ou não, sabe-se lá do que ele seria capaz, sempre que mostrara-se lá meio doido das tarraxas, o que ser uma estranheza miúda num homem qualquer. Seguro morreu de velho, dizia-se. Benzia-se depois. Bilica tinha uns modos refregados, fina em baixo, aberta em cima, um ombro de gladiador, como quem sabe pegar um bezerro sadio em unha seca. As lembranças de um passado, nem tão antigo. As águas rfepetidas, de nascedouro, todo o Pedras de Fogo sabendo ouvir em silêncio rumoroso tudo aquilo que virava mais vida em torno de suas tapiocangas.
Pedronório recordava-se das coisas todas. Como é que foram, o que não foram. Tomado de clarividência e alguma razão, via que a vida escoara-se depressa demais. Não tivera tempo suficiente para designar certas coisas que lhe pareciam importantes. Como por exemplo, que diachos é que lhe fora imposto, haver-se em vida inteira somente com uma mulher, sendo ela toda a Bilica que o destino consumara. Não que sentisse a falta assim de prazeres que nem sabia mistificar, mas que de tanto ouvir lamúrias em bocas de outros homens, pode ser que a latomia a ele também pudesse ser recortada. O que faz uma experiência boa, pode ser que nem seja a repetição em lá e cá, mas a repetição na mesma sova de pilão. Monjolo é que é fiel: sempre batendo no mesmo buraco. Monjolo é incansável enquanto houver fluxo d’água. Porém, sequer mais que cresça a anedota do buraco repetido, um homem não é um instrumento ativo em água, construído da boa aroeira que não cede. Uma homem acha distâncias nas coisas pequenas. E acha pequenez nas coisas grandes. A Cidade crescera em demasia. Ficara bonita. Mirablia agora desafiava a pretensão. Agia em círculos, cada dia mais capacitada em distribuir progressos. Era aquilo um adendo aos seus modos de pensar. Ainda era jovem. Podia dar-se a um luxo mais alentado, angariar coragem e supurar-se, ele mesmo, mover-se das pernas, acreditar que uma luxúria cabe mais dentro da alma do que um pecado mais besta, um qualquer que não sofre de justificativa. Se havia uma coisa que estancava-lhe as vontades, jamais podia se negar. Não fazia disso nenhum carrossel de tristezas, mas embalava o sentido como se aquilo fosse patente consumada.
Olhando para a égua moribunda, louvava-se em pensado. Daria um tiro de misericórdia bem no pé do ouvido de Granfina. Arrastaria o corpo para os fundos, rente à nascente do Pedras de Fogo, deixaria que os urubus remanescentes dessem fim, mais os vermes, à carne final. O cheiro seria terrível, a catinga subindo contra todos os narizes. Mas era o que ser, a porta da cozinha ficava à boa distância do local. Mal todos os pecados, veio de repente à sua presença uma idéia terrível, alguma coisa que deixava a sua vida mais leve. Deixá-lo-ia mais limpo, oxalá. Bilica não era mais nenhuma menina. Para mais de sessenta e cinco. Não ia durar muito. Bertolimeu não passou dos sessenta. Fiota não durou muito. Tinha a bexiga caída, sofria das partes baixas como ninguém. Doutor não deu volta nos sofreres dela. Foi-se, finou-se, com todo o mal de distribuição baixa. Se Bertolimeu morreu fora de um catre, sofrendo apenas as dores de uma fraqueza – quase que dor nenhuma -, Fiota teve mais sorte, dormiu e não acordou. Tanta coisa que não se espera. Como é, o que não é. Ninguém dirige as bossas de deuses. Tudo a seu tempo, diz-se. Em provérbio, o que se diz, o que quase sempre deixa razão, principal aquilo que já vem de uso dos antigos. Então, se Bilica embarcasse para melhor, seria até que uma solução dos trezentos, boa de ser tomada. De uma forma esquiva, porém, via a saúde de ferro que a patroa gozava. Não ia ser assim fácil imaginá-la debaixo de sete palmos. Possível que Bilica segurasse em alça de seu caixão, se ficasse brincado de adivinhar retretas. Ele iria primeiro. Ela riria por derradeiro. Sentado à varanda, olhava o triste olhar da égua. Grossas lágrimas que se solidificaram, feito resina em pau ferido, aderiam-se ao pêlo pedrês junto às ventas, abaixo dos olhos, em qualquer lugar. Tomado de impulso, Pedronório ergueu-se e andou em busca da carabina. Olhou adiante e viu Timarco filigranando em pedaços de graveto. Indiferente, pelo menos de forma aparente, Timarco ignorasse tudo que mais representasse mundo. As besteiras que não contam.
- Ai, tô pensando sério n’ ranjar u’a amorada! Á enho abelo o saco!
- Já? Deixe-me ver!
- Aqui, ó. Omprido... saco ande... ó os abelos!
- Virgem Maria. Tu tens razão. Amanhã o pai vai contigo. Vai te levar para conhecer uma bem chibante!
- Que ora?
- Depois do sol se firmar!
- Já espero teso!
- Isso! Isso!
Timarco mostrava a pele glabra. Na última frase sequer gaguejara. Não havia nenhum sinal de cabelo, de pêlo pudendo. Havia um pêlo longo, caído da cabeça, que se grudara ali. Incentivado por suores, por restos descamados de pele. O pai, porém, não quis meter a decepção ao filho. Timarco era teso, Timarco era puro. E, podia. Levaria, quando tivesse tempo, Timarco merecia conhecer mulher. Passara dos vinte, era hora. Acharia um jeito. Perguntaria a alguém, ao Catavão, quando ele retornasse com proposta nova de compra da herdade. Seria fácil. Chamaria o Catavão a um canto. Perguntaria onde é que tinha bordel em Mirablia. A Cidade crescera, era facto, mas essas coisas de implemento ordinário e humano, lupercais, nunca faltam. Nem importa o tamanho do progresso. Assim é. Pedronório desconfiava que assim sempre é. As necessidades básicas nunca se corrompem na perdição, na inexistência. Amores ruflam preços. Nunca há nada que jamais se pague. Quantias e qualidades não importam. Vale mais em casos assim a disposição, a parte aflita que deseja se resolver. Com um naco de jeito e paciência – sabia que o Catavão, o Guimo, iria voltar – sacaria dele as respostas para o que começava já a ser uma proposta de dilema.
Apenas acabou sua palestra curta com o filho, Pedronório andou em roda da varanda e deu com a cara larga de Bilica que vinha com a bandeja montada com a xicrinha de café. O resfolego novo, o odor sem igualdade da beberagem. Sentiu os passos da mulher, a maneira que ela tinha de caminhar, sempre descalça e a esfregar a pele contra a pele dos pés, de tal som, que saía o ruído que não pode ser comparado. Mormente se a pele está seca. O dedão do pé rachado ao meio, feio como um vômito de filhote de urubu. A verruga ao queixo com seu barbicacho escurecido, maior quando ela se esquecia de podá-lo. O registro de uma personalidade, como mesmo ocorre em voz, ou em impressão digital. Serviu-se o homem em asa da xicrinha de louça, bebeu com bico. Bilica tinha as oferendas boas, sabia alegrar um momento. Somente mais nua de ser olhada de frente, é que então mantinha a carantonha de deboche, feito se em últimos tempos houvesse nela um espezinhado que se repetia, ao acaso, sem ser ao acaso, mas se repetia de um jeito ruim, irritante. Bolero saiu de seu sono antigo e veio deitar-se aos pés do homem. O cão também tinha lá as suas manias. Velho, meio surdo de um lado, Bolero mantinha-se na trégua de uma espera perene. Parecia aguardar que todas as mortes o colhessem, estivesse já dado ao cerne da vida, adiante tudo mais era o lucro nem esperançado. Com um ruído decidido às mãos, Pedronório deixou a xicrinha sobre a bandeja e marchou em busca da carabina. Daria cabo do sofrimento de Granfina. Aquilo não podia continuar, já podia ver os ovos das varejeiras sobre o buraco, a ferida orlava-se agora dos comensais do mundo. O que acaba com o que se fere, ou com o que se despe. Em dois dias, se tanto contasse ainda, as larvas estariam pululando, marejando a nojeira, deixando escorrer a salobra água azulada que surge das torpezas. Tinha pavor de larvas. O movimento de morte advindo delas, do bolo que cai quando estão gordas em demasia.
Pedronório entrou no quarto e retirou a arma de sobre o guarda-roupa. Sentia-se de novo potente, um guerrilheiro com aquilo na mão. Passou pela mulher que assoprava brasas na cozinha. Timarco, sentado a um cepo, sorridente pela promessa prometida, o ir a um bordel, olhava as coisas de uma forma inocente. Os olhos desaparecidos no sorriso largo. Os dois dentes da frente mostrando uma larga falha entre um e outro, o hiato por onde a língua podia se insinuar. Sentado à cadeira da varanda, o homem alisou a arma e calçou as balas. Sentia-se meio ridículo, pois sabia que Bilica estava a observá-lo da cozinha, escondida atrás de qualquer quina de móvel. O guarda-comida de madeiro escuro, um que não tinha origem de prumo pensado, pois que estava ali desde os tempos de Vó Semira. Coisa que Vó Semira por certo mandara construir. As prendas dela, antigas, em mãos lisas, a lisura das palavras bem proporcionadas. Com a força de um opositor forte sobre os ombros, Pedronório sentia-se agora alvo da observação de Bilica e de Timarco. Enquanto uma ria com sarcasmo, o outro ria com a alucinação da promessa. Timarco aprovava. Risos diferentes para uma mesma condição. Então, o riso é o gatilho e a um só tempo a vítima? Pedronório pensava as coisas sem fazer força sobre elas. A égua cabeceava no torpor, os olhos tristes, tomada de um fim já prenunciado. Questão de deixar força ao tempo e somente. O atirador alçou a mira para perto, recuou dois cêntimos a largura do ferro. Aprumava o modo de jamais errar: acabar com o sofrido do animal. Culpa de alguém, de quem, ficava sobre o acto. O jabre sem fundo. O rumor que entrara em um canto da cabeça e explodiria na saída pelo outro lado. Por gesto simples de firmar o gatilho consertaria o erro – fosse mesmo erro – anterior de por um gesto mais que simples haver firmado o gatilho. As palavras nas frases. Fases nelas.
E, como são as coisas, nem sendo o que pode ser chamado de fraqueza, Pedronório sentiu a pena capital de um momento. Pode ser que a égua se salvasse da morte. Das varejas. Da dor. Se não comia o que Timarco levava, se não bebia, aquilo poderia ser somente uma face circunstancial das coisas. Melhoraria. Égua de estima de Bilica. Melhor não topar a ponta com a cabeça. Ziguiziras de um dia, devagar ele deixou o braço sofrer de um peso enorme. Bolero olhava aquilo, depois metia as patas velhas e com sarnas em torno da pelanca da boca. O braço pesado, depositou a arma encostada à parede. Inútil. A égua num muxoxo de fole grande, aspirou e estrumou. O odor nocivo, espalhado, incentivou as marcas do ar. Espalhou-se. Timarco ria com sonoridade, porque acreditava que o facto pudesse demonstrar uma alegria de esperança, a vida se insinuando nas saídas do animal, já que não se definia nas entradas. Os sabiás carregavam barro no bico. Passavam por sua cabeça e enfiavam-se nos cantos das cumeeiras. Faziam o ninho. Era o tempo. As primaveras aptas para a geração repetida. Tudo muito comum dentro da herdade. Somente a Cidade entrava na crise doida do crescimento pleno de alucinação. Em torno deles. A ilha sofrida de estágio. Coisas sinceras, a barulheira, sem mais jeito de ser estancada. E Timarco a querer mulher.
Com mais outra sensação de choro dentro do peito, Pedronório imbuía-se de um artefacto de fraqueza. Quão débil pode ser um homem, a ponto de não poder regular a parte de uma decisão que a ele compete. Partes das perdas podem ser a indecisão. Como parte das perdas também pode ser a questão de se enfiar os pés pelas mãos. À cabeça do homem vinham asa idéias. Bilica tinha lá as suas vantagens. Mulher boa, sempre afeita à limpeza. Se não era nenhuma jardineira integral, também não era de cortar as moitas de ervas e atirar ao lixo. Quando media o efeito de alguma panacéia, sempre deixava o melhor lugar para se plantar uma muda dela. Mulher com cuidados pelas coisas. Se em últimos tempos dera para estar escorregadia, estranha, pode ser que ele também houvesse o seu quinhão de culpa. Nas intimidades, por exemplo, por quantas vazas de noites ele não a comparecia? Bilica não sentia falta, era notório, ele não sentia falta. Mas era justo que não a comparecesse? Mais de seis meses. Acidentes é que o moveram em direção a ela, da última vez. Nem fosse, daquilo movido, acidente ou não, nem mais se lembrava. Tanto tempo. Tanta insipidez. O gosto da rapadura não está, então, não é na doçura que não se acaba, por mais que se chupe o caldo com língua e dente. As boas coisas, mitigadas, às vezes surgem em perfil de corte. Pois então, as coisas que não sofrem de fim são mais fáceis de compreensão. Mais difíceis.
Cismarento em manter a arejada de espaços do lugar, Pedronório achou que ao estrume fresco juntava-se o odor de pejo, o que pudesse estar amargando um início, a ferida toda sendo a marca do que pudesse ser putrefacto. Somente questão de tempo. Julgava que o odor vinha. Se assim fosse, o próprio delírio dos podres poderia dar fim ao animal. Cortar em navalha o seu sofrimento. Olhava, todo desanimado, o desacorçôo crescendo, a carabina encostada à parede. Nos tempos em que era preciosa, arma assim demandava o círculo imposto. Fazia jus. Derramava em torno e sobre um homem a estirpe do respeito. Quão escumalha estava agora a arma. Sem função. Defuncta como a cor da flor colhida e sem talo. Se pudesse entrar em cabeça de Bilica, com força de alguma decisão, fá-lo-ia. Entraria e cortaria pelo meio as metades de baboseiras que ela imaginava. As peças de conchavo com riso e mordacidade. Então, mesmo por haver algo que pudesse ser realizado, atendesse a precisão de Timarco haver-se com mulher. A desnecessidade de Timarco fosse maior. Alguém havia inculcado na cabeça do rapaz aquele apego. Timarco não tinha como, todo pequeno de atitudes. De qualquer forma, a sombra da ação passou pela sua cabeça como uma salvação imediata. Ouviu as buzinas da avenida. Os relâmpagos de sons que partiam de cada canto da Cidade. O que mais move um homem, senão a inércia, o procedimento que costuma ser uma vantagem de bem-estar. Ficar quieto e esperar que a morte assuma o lugar da manifestação de desejos. Quantas são as conversas das meninas que passam em rumo distinto, a bica incontida do fluxo, as escolas cheias. Cada uma com seu chiclete de bola estourando, uma vulgaridade miúda, mas com cheiro do que elas chamavam de tutifruti. Mesmo Timarco aprendia a dizer as palavras sem rima e sem precipitação, somente por palavras em incrustado relevo. O que ser o tuti e o fruti, senão a própria e única marca cheirosa da juventude? Timarco falava, cheio de uma soma ecoada, perdidas as palavras no ir e vir:
- Uti futi, ai! Futi-uti!
Se Granfina morresse ali, seria outro problema que careceria de solução. Carregar, arrastar o peso haveria de ser muito trabalhoso. Deixar que os urubus consumissem a carcaça seria pior. Imaginava o odor pestilento entrando pelo quarto adentro, Bilica tapando o nariz com a pinça dos dedos e dando risadinhas meio histéricas, como se tudo no mundo fosse somente culpa sua, tanto o cheiro, como a égua, tal a morte. Pois que fortuna era o estampido de guta a percha do chicle de bola na boca das adolescentes inconseqüentes. A delícia dos olhos de cada uma, a safadeza imaginada que pode girar de uma cabeça até a outra, nelas: em uma, em todas. E Timarco, tinha lá as suas razões, era mesmo hora de aviar-se, safar-se do nada, achar uma prudência com calor de mulher. Mas, havendo mais moeda e mais lado nela, Timarco podia nem haver fundamento para a ação. Tão despelado, querendo dar forma a um pêlo que nunca nasceu. O membro murcho, entrado barriga adentro. Para aquilo dar sinais de rijo porte, somente se houvesse uma espécie de milagre. Porém, milagre ou não, Timarco devia saber o que queria. Devia saber que diachos pedia, os desejos seus.
- Ai, quando vai er que se ai achar a ulher para mim?
- Hoje... hoje!
- Upa. Alegria!
Como um tormento acaba gerando outro, a via cíclica das regras – como em conta de rosário -, Pedronório viu-se na desfaçatez de um momento. Timarco vinha outra vez com a questão, queria uma resposta, uma resolução. O pai sabia que se dissesse não, o filho estaria todo o resto do mês emburrado pelos cantos, deixaria de fazer as suas figurinhas de pau. Deixaria de comer, sempre Timarco fora assim. Não aceitava as regras do depois, queria tudo pronto para a hora, muitas vezes sobreposto na mancha de uma sangria desatada. Teria o pai que regrar-se em reprimendas, tanto e quanto diante das palavras de Bilica que iria falar que a culpa era a dele, toda e sempre a dele. Olhando para a inutilidade da arma recostada à parede, o homem avaliava a situação. Surgiam surpresas em sua testa, pessoas há muito tempo destiladas do mundo, sumidas. Tal fosse Bertolimeu. O cigarro de palha grosso que ele mordia, girava com a força da língua, os lábios fumegando o forçoso de todo minuto. De como Maria Mariana fora uma coisa meio estranha em sua vida, embora certa. Ele pensava: embora certa, pode ser que sim. As coisas que comovem um homem chegam a comover um outro e um outro? Nem sempre as regalias são as mesmas, senão nem seria gracioso o viver-se. As estampas que agradam a um lado, enferrujam do outro, tracionam o feio. Era assim que parte do mundo vicejava em seu modo de pensar. Haver-se, levar Timarco para conhecer mulher. Era a coisa mais estapafúrdia que a ele ocorria. Timarco era pouco, apequenado para a coisa. Ele mesmo, sendo adulto grande e com mais de cinqüenta no lombo, ele não sabia o que era entrar porta de bordel adentro. Nem sabia por onde começar. Sabia que favores alguns são pagos, têm lá o seu preço. Porém, não se dava ao concedido, se pagava antes, de pagava depois. Se propunha, se não propunha. Tomado de inação, Pedronório pela primeira vez desejou que Catavão surgisse do nada e viesse propor a compra da herdade. Catavão devia de saber de tais argúcias, pois que somente tinha a cara deslambida para assim parecer. Lembrou-se de que tinha um cartão do homem. Poderia telefonar. Tinha telefone em casa. Todo o milagre das modernas convenções eram posse da herdade. Se a Cidade crescera em demasia, se engolira a possibilidade de um dia ser de novo um dia anterior, entretanto, parte das coisas inegáveis de conforto, parte delas foram concedidas ao seu viver. Tanto como seria concedido a um cidadão qualquer. Afora o aparelho de televisão, o telefone fora a última aquisição importante para eles, as distâncias ficavam minguadas. E tudo esbatia na relatividade quando se considerava uma coisa, outra coisa diferente. Catavão poderia chegar. Explicaria com detalhes, como é, como é que deixa de ser. Simpatia pode ser tirada de uma questão besta, por exemplo, da necessidade de usar-se o prestígio do antipático. Mais leseira, mais relatividade. Como nos tempos em que sentava-se com Tião do Neneco, espiando as bolas de bilhar. De-repente, alguém anunciava o mais amargo do jogo: sinuca de bico, o que fica difícil de sair-se.
Então, como quem precisa e acha, num estado de certa salvação, os ouvidos de Pedronório puseram-se alertas para o som que vinha das palmas batidas ao portão. Antes de um aviso, Bolero aprumou as orelhas e assuntou a divisa dos ares. Um par de galinhas carijós passou no reboliço das asas abertas, tocadas de carreira, como quando galinha pode esconjurar à visão de cobra. Chegava gente. Bilica meteu a cabeça para fora da janela e espichou o beiço. Notório que Bilica não iria conferir quem chegava, mas que tinha a curiosidade estampada no risco da face, isso tinha. Timarco continuou a polir gravetos, a quiçé afiada indo e lapidando. Olhou em torno. Sem deixar o que fazia, fingindo uma indiferença que a ansiedade jamais, de todo, poderia cortinar. Afiava e lapidava. O buril entrado de Timarco.
- Que dia, ai?
- Hoje, hoje depois das quatro, depois que o sol refrescar!
- Ai, ê alegria!
Como quem conhecia a trilha entre uma chegada e um íntimo de casa, veio pelo caminho de tijolos em canteiros a figura distinta do Catavão. Trazia a velha pasta escura ao sovaco. Tinha certos ares de preocupação. Porém, para Pedronório, a visão antecipada do homem foi um alívio. Resolveria o problema da sujidade, aquilo que o filho queria poderia agora ser rebuscado. O onde. Os preços que o acto iam subjugar. Ser subjugado. Pedronório, em últimos tempos, contava centavos. Achava que o mundo estava muito mudado de fundamentos.
- Salve, Sô Pedonó! Passava e resolvi entrar!
- Bebe-se um café fresco, o que em casa de pobre sempre tem!
- Pega-me cá na fronte uma dor de cabeça do tamanho de uma jamanta! O mundo é muito revirado. Está!
- O senhor parece-me mais a ofensa do que o agrado, no dia de hoje. Não se amofinar, dizia Bertolimeu, que foi meu sogro, finado! Terras dele, ali a divisa, parte do Campalegr’!
- O da chácara vizinha, a que foi vendida? Aquele que reinvindicou posse sobre o leite derramado?
- Não. O pai dele, o senhor deve referir-se ao Tiãozinho do Bertolimeu, que hoje é capitão de guardas lá na Brasília. O outro era o meu sogro, o Bertolimeu velho! Tinha o Anjo e o Archanjo, irmãos. Meus cunhados. Tudo milico. Parece que profissão deles ficou em-comum!
- Ah! Dói-me que buzina me ojeriza, e luzes dão-me o vômito! A Cidade cresceu demais. E não vai mais parar, as políticas são muito cidadãs! Onde era cerrado denso, para as saídas da Romaria, acolá, onde se avia para Goiás, tudo destampou a ser bairro. Quem inventar água para lavar a alma desse povo todo vai se gratificar diante do Criador, fica é mais que rico! Sei a cor de qualquer chita. Sei o que apregôo!
- O Pedras de Fogo cumpre a sua parte. Nasce sem perguntar, prossegue sem resposta!
- Não tem lugar para todo mundo sobre a terra. O senhor assume que um cachorro tem seu limite de pulgas?
- Coisa fabulosa! Colosso!
- Então... então. Todo interesse imobiliário é que rege as vistas, o olho maior que a barriga. Minha dor de cabeça é uma lembrança do tempo em que fiquei jovem. Não perdi meu tempo, o senhor veja, apenas sobrevivi. Não acho outro caminho até a fonte mais limpa!
- A vida tem as costadas, as ripas, as chanfras!
- O senhor é que é arrimo supra, todo feliz nas coragens de um estado. Vejo cerne em seu mundo!
- Quase que sempre. Sou o que o senhor vê. Um quase nada a mais do que o senhor vê. Sei que o senhor conhece a cor da chita!
- Estimo gente assim. Aceito o café... com esse calor que o senhor supõe aqui no frescor das árvores, eu ando no asfalto há desde o sempre que o dia deu princípio. Um calor dos trezentos, capaz de derreter a alucinação de um mentecapto, que dirá de um sujeito de bonomias como eu, como o senhor. Sei a cor da chita!
- Mas não vendo!
- O quê o senhor não vende?
- A pobre da herdade!
- Não vim vender... não vim comprar! Vim beber uma xicrinha de café, conversar e aproveitar a fresca. O mundo lá fora calcina o cocuruto da gente. Hoje fui comprar um ferro de passar roupa e saí da loja com dois liqüidificadores. Ainda achei aquilo bonito! Sei a cor da chita. Ganhei de brinde uma faca que não corta, somente a coisa que tem nome, mas perde na função. Assim, então não é. Desafio-me mais a ser inteligente. Sei a cor da chita!
- O senhor é farturento, benza-o Deus!
- O senhor sabe a diferença da fartura com a sobra?
- Nem idéia faço!
- A sobra é aquilo que o avaro deixou mofar!
- E a fartura?
- Aquilo que um avaro nunca vai sopesar. Há sempre a falta!
- O senhor sabe deveras a cor da chita!
Pedronório via a simpatia lúcida no homem. Um cansaço incomum que fazia dele um zé-ninguém. Um certo dó de vê-lo assim, reluzente de suor na testa e macambúzio de consideratas. As coisas olhando para ele, apequenadas. Ele a olhar para as coisas, a grandeza delas servindo de um nó de marinheiro. Estava amargo o Catavão. E era sincero, via-se. Não viera vender, tampouco comprar, já era um motivo bom para se beber um café grosso com ele. Bilica já se aviava. Não precisava ser mandada, tinha lá essas vantagens. Em pouco mais de algum tempo já rugia o cheiro contra as estacas do lugar. A palestra dos dois desandou a haver um fim comum. Para Pedronório, porém, era necessário que o assunto desgovernasse um pouco o remo do prumo. Era preciso que tocasse no assunto delicado, sobre como haver-se o facto: Timarco estava nos tempos. As inaugurações que podem contemplar uma alegria. Timarco era a grandeza substancial, ele merecia. Para o pai, a contemplação de sexo ficava somente como uma grande anedota. Coisa que ele cultivava, as assanhadas palavras e gestos obscenos, desde o tempo em que se entendia como gente de assuntar. Quando tocava em conversa assim tida como proibida, a ele vinha o engastalho de uma vontade tresloucada de rir, de fazer um comentário sobre aquilo, um que fosse muito comemorativo de mais riso. Brincadeiras de gente grande, bobagenzinha de gente miúda. Quando, em outra via dos motes, pensava em sua vida inteira ao lado de Bilica, outra vontade de rir era mais pecaminosa, porque era toda sem a alma da brincadeira, mas uma confessionada arte sem fundo e sem barrancos. Pedronório não sabia que o mal não urge em merecimento, mas desconfiava que a cada um cabe um pedaço de vitríolo, sem deuses que regulem as diferenças e as medidas. Não que fosse herege, nunca o fora, tinha devoções. Entretanto as cujas, mais se revela atento e feliz aquele homem que sabe a banda de onde sopra o vento. Lembrava-se de coisas contadas por Tião do Neneco antes de sua partida para o Bom Jardim. As obscenidades, as cavalgadas propostas. As conas enormes que quase asas tinham, segundo Tião. Os proveitos que angariam o espaço a um homem.
Pedronório esquivava-se de pornografia. Lembrava-se de Vó Semira, mesmo já homem cinqüentão. Ele não aprovaria. Foram os tempos que lavraram pudor em sua alma. Com a partida de Tião do Neneco, ele mesmo escolhendo e não sendo esbarrado em suas decisões, Vö Semira vinha com as perrenguezas maiores. Reclamava que alguma coisa não andava bem. Somente melhora quando vinha Jãocésa, vinha o Grão-de-Galo. Jamais eixou de queixar-se de uma mazela que, segundo seus palavrórios mesmos, iria ceifar-lhe a existência. Era mulher ainda muito jovem. As belezas ainda de pernas perfeitas. O colo amiudado, porém firme. Devagar, tudo encimava uma visão de percepção. A Senhora sabia até quando poderia o cordão ser esticado. Sua vida. Tanto que deixava a Pedronório as lições que mais tivessem utilidade. Tião do Neneco chamava a atenção ao neto. Que a avó não andava nada boa. Tinha uma perrengueza qualquer e evitava falar dela. Por vezes clamava, mas somente quando a dor parecia ser grande demais. Em suposição, Vó Semira sempre soube um rumo de futuro.
Quando Pedronório entrou em noivado, marcou casório, a Senhora estampou-se em maior sofrer. As dores ficaram umas sobre as outras. Bertolimeu não era mais desse mundo. Finara-se. Fiota fora-se. As tragédias começaram a afincar-se em vida do Campalegr’, porém nada que fosse o indeterminado. Com as dores insuportáveis, chamou-se médico. A Cidade era grande, tinha recursos modernos. Veio o doutor. Falou em impossíveis as coisas. Que não tinha mais jeito. Fez o papel da receita e voltou aos seus circunlóquios. Pedronório assistia a tudo, impassível. Fazia seu papel de homem que começa um nova vista sobre o mundo. Quando chegou um setembro qualquer, Vó Semira entrou a não mais haver as dores. Despediu-se do neto com encomendas balbuciadas. Depois, fechou os olhos e esperou que a vida para ela fosse inaugurada em outros lugares. Naquele tempo, falava a palavra desencarnamento com um modo festivo. Para Pedronório, porém, Sagrados os Corações que louvam o que há, desde que caravelas aportaram em terras de trópico. Vó Semira era mastro. Luz branca e clara.
Quando um lugar cresce em demasia, amores que tudo revelam por um nascedouro, deixa a impressão de um súbito desconforto. Mas alegra o nome de ser carregado, amanhece sempre claro.
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B |
Ilica trouxe o café. As xicrinhas de bom gosto, a velha porcelana com alguns quebrados nas pontas, as asas rotas. Catavão bebia com beiço de cegonha, fazendo o suchosurvo de um gosto bom. Bebesse a melhor das coisas que já foram inventadas. Ouvia, devagar de ouvido, as palavras todas de Pedronório. Via grande enredo no homem, agora mais desperto de fidúcia para a conversa. Perdera-se um tintim do ranço de antes, quando se falara de compra e venda. Pedronório, habituado desde tempos remotos com as propostas, era o gato que queimou o cu com água quente. Arreliava-se, areepiava o couro com qualquer proposta. Queria crer sempre que alguém estava a aenganá-lo. A S&S Imóveis não tinha porque apresentar-se diferente.
-
O
senhor sabe, corre aí nos fundos o Pedras de Fogo. Corgo sem defeito. Nasce nas
tapiocangas e vai longe sem falar mal de ninguém...!
-
Estou
entendendo. Sei a cor da chita!
-
Pois
então. No tempo em que meu finado pai ainda era vívido, era outro tipo de
carreira que ele mostrava. Quase que uma quarta de tombos terra abaixo - o
senhor sabe que em cabeceira quase que não tem o peixe – era possível se ver o timboré lambendo as
pedras. Lambari tambiú era monte, quase que praga. Hoje..., veja a diferença!
-
Grande!
-
Depois
que sai a minha cerca para baixo, que rompe o meio dos prédios aí, já começa a
receber esgoto e tudo quanto é coisa que mulher usa para deixar o mês
expurgado!
-
Pequeno!
Catavão abriu os
ouvidos. Determinou-se. Escutava com afinco, gosto puro. O homem revelava o
motivo de sua tenacidade em não vender a terra. Se aquilo valia uma fortuna,
para Pedronório a questão era de uma filosofia extraterrena. Catavão perdia as
esperanças, embora e de facto real, nunca estivesse ali para atar-se ao espúrio
de sempre. Queria somente a abertura clara da boa conversa. Se voltava, sem
aferrado modo ao S e ao S da imobiliária, vinha somente por gosto, impulsionado
sabe-se lá porque. Queimava os pés no asfalto das ruas, agora estava ali, a
deslindar um sossego. Tinha vontade de tirar os sapatos, de ajudar Timarco no
serviço que ele executava, sem valor, sem nenhuma serventia que fosse.
-
Ainda
a semana passada, Timarco pescou com a ponta de uma varinha de assa-peixe uma
daquelas traquitanas que as mulheres usam para resgatar o que vem do mês.
Trouxe para dentro. Sujo de um sangue de outra era, meio lavado, meio turvo.
Perguntou para a mãe que era os diachos era aquilo. A mãe fez de desentendida e
mexeu a taxa de doce de figo mais forte – era hora que ela apurava o doce de
figo. Aí Timarco veio a mim, pois sabe que sou mais arrumado com as coisas
simples. Expliquei o que era. Falei a palavra bainha para designar a peça que
orna o punhal. Meu filho é muito ladino, mas como todo sujeito
inteligente, é também meio trespassado,
não entendia. Foi um deus nos acuda para fazê-lo crer que aquilo era mancha do
sangue que alimenta as gerações sucessivas. Se há o que desce, melhor o havido,
pois que fora dele tudo se contempla de força. O senhor me entende a parte
assustada? Timarco fingiu que entendeu. Eu fingi que explicava!
-
Faço
força! Sei a cor da chita!
-
Quando
foi ontem, tirei um pneu velho de dentro da nascente. Nem sei como foi parar
lá. Alguém atirou de cima dos prédios, sei lá eu! O senhor veja, quando um
arado, antigamente, perdia a serventia, virava eito para erva subir. Virava até
lugar de galinha chocar, as angolas. Acabei com as angolas que existiam aquim
em tempo de minha avó Semira. Deram de sair ruas afora, todo dia uma era
atropelada. O senhor entende como é angola...!
-
Sei
a cor da chita. Conheço bem a cocá. Entre o pneu e o objeto que tampa a régua
do mês, o senhor pensa que vejo diferença? Ambos são objetos de um culto comum. Se parece tudo distinto, pois nem
é. Acho que não é. Tudo existe sobre fluxo, sobre caminho, e desmorona a ilusão
em si mesmo quem pensa que assim não é. Tenho os dias de minhas doiduras, o
senhor compreenda! Meu calo coça em dias de chuva!
-
É
triste ver-se a aventura de um pau morrer com raio, com praga. Imagine-se vê-lo
arrancado por máquina de fazer ruas. Aquelas cujo pneu ultrapassa um rabo de
boi grande!
-
Perfeitamente.
Sei a cor da chita. Fui nascido nas beiras do corgo do Marimbondo, descendo a
serra para onde surrupia hoje a Emborcação. Falei muito com galo-do-campo nas
manhãs de novembro. As chuvas vinham em novembro quase que num corte de
alvacidade! O Marimbondo é a curva de uma reta, apara-se.
-
Oraora.
Lugar bonito. Morrorocado, mas bonito! De lá, à vista aberta, pensa-se que o
azul congemina maior com a terra!
-
É
facto. Sei a cor da chita. Quando era manhã, minha mãe, a finada Luzia de
Santafé, como se dizia o nome dela. Fritava aqueles biscoitos que somente a
manhã esguia pode revelar. Nunca mais comi deles, sô Pedonó. Nunca mais vi
daqueles biscoitos em minha vida!
-
O
café até que se desdobra na revelação de um biscoito assim. Sei o que o senhor
diz. Minha avó Semira também fazia com mãos só dela. Os biscoitos de Avó Semira
eram o leve do estômago, quase que sozinhos e um sobre o outro. Mesmo se
largados à banha de porco. Hoje, o senhor veja, as doenças acham cura na gente.
Para mudar de estado, cada doença acha de dar conselho para um sujeito
qualquer. O senhor concorda? Falam por aí da banha de porco. Inocente é um naco
de toucinho diante das merdas que acolhem e são acolhidas. Penso com mais
itinerário!
-
Sei
a cor da chita. É facto!
Depois, entre os
dois surgia um silêncio nunca que pudesse ser imaginado de-antes. A falta de
desconfiança assumia. Vinham os caga-sebos e bebiam da flor vermelha do
hibisco. Quizilas deles quando se encontravam em par de mais de dois, de três.
Os bandos com lugar de pousar. Catavão mirava, achava-se sonolento, a figura
crespa com a mala de documentos entre as pernas. Bilica vinha recolher as xícaras,
perguntava se alguém queria provar mais. Na excelência do gosto, Catavão
abraçava-se à pasta para dobrar o corpo, receber mais da bebida. Depois,
Pedronório batia a binga e metia fogo a um pito de palha. Oferecia, se o outro
queria um. Era a negativa. Catavão não pitava desde que chegara depois dos
quarenta. O dia estava de placidez, somente lá da banda de fora é que as
alucinações e os decibéis exageravam na conta. Cidade grande abre a boca e
devora-se maior, mesmo come a boca que tem a noite: quando noite é que vem.
Luas e estrelas de postes, cada um fundamento por mais, o que for gosto.
-
O
senhor veja a calmaria desses lugares que não têm recurso de crescimento. O
Brilhante, por exemplo. O senhor conhece o Brilhante? Lá o quiabo cresce do
avesso. Eu não minto!
-
Conheço,
adiante das Tupaciguaras, um réis de lugarejo. Sei a cor da chita. A gente nem
vê a chegada, vem a toada da estrada no meio do cerrado, de repente surge uma
cerca de bambu, seca e carunchada, meia dúzia de pés de mamão e uma praça
aberta com orada, como se um resumo de coisas deliciasse o nem mais precisar.
Sanhaço lá ainda voa azul!
-
É
facto. Tem muitos rapapés de anos que assim é. Não muda!
-
Se
a gente passar muito tempo lá, remoça a guia e envelhece o coice! Sei a cor da
chita!
-
O
senhor sabe as sabedorias, algumas até anárquicas!
-
Sou
corretor por acidente de minha vida. Assim como uma dor de dente que não se
espera! A chita!
-
Mais
café?
-
Não,
agora já me basta o gosto!
Bilica recolheu
na bandeja tudo que estava ali. Saiu com seus pés descalços arrastados contra o
piso. O dedo do pé, filipe de banana, uma coisa horrorosa. Pedronório, quando
viu que a mulher tomara o caminho das couves, mais ao fundo, remexeu-se com um
certo desconforto na cadeira. Tinha que tocar no assunto, todavia, desafiava-se
de como começar. Catavão estava receptivo. Não ia desdizer o notório. Timarco
merecia. Timarco era o esteio de um dia. Assim o pai cria. Com os olhos claros
muito despertos, Pedronório observava os antúrios, a peça fálica saindo deles e
apontando a evidência do nome. A peça rosada, muito idêntica, a despontada do
fim do dedo. De-repente, virando-se de chofre, mas sem dar bulício excessivo em
sua vontade preclara, maquinou a frase.
Se Catavão refugasse, pois que então ficasse o dito pelo esquecido e pronto.
Tem coisa que carece de muita parte delicada. Não era vender, não era comprar.
Era somente o trocar das idéias. Sem invencionismo ruim.
-
Timarco
completa anos de maioridade. Sente falta de mulher. Falou que carece de uma,
foi só riso, ele falou. O senhor vê aí, como é que Timarco é!
-
Sei
a cor da chita!
-
Timarco
nem sabe andar na Cidade. Somente vai ao mercado, a uma compra que a mãe manda.
E só! Mesmo assim, vem com as mercadorias trocadas. Empurram nele o que mais
caro é!
-
Sei
o como é o explicado!