A rua de meus sonhos
Vinha eu caminhando tranqüilamente, envolto por uma névoa espessa,
de tal forma que me cegava. Mesmo assim insisti, e prossegui minha
caminhada. A medida em que andava, a neblina ia se dissipando, e logo tornou-se
tão amena que foi possível enxergar quase perfeitamente através dela.
De onde estava, observei várias cenas: de minha infância, de minha
mocidade, enfim, vi toda minha vida, sem poder, contudo, interferir naquilo
que via.
Lá estava na rua em que cresci, exatamente como era na minha
infância, com suas casas novas, recém pintadas, naquele colorido que fazia
desta rua a mais bela de todo o mundo, pelo menos era esta minha sensação.
Cada casa tinha seu jardim, com as mais diversas plantas. Na casa onde eu
morava com meus pais se destacavam a variedade de roseiras; na casa de
vovó, eram as margaridas; e na casa do Seu Pedro, um senhor que vivia ali
sozinho a muitos anos após a morte de sua esposa, Dona Lindalva, eram os
girassóis. Ah! Como eu adoro girassóis, sua grandiosidade, seu movimento,
sua paixão cega pelo astro rei.
Como sempre a rua estava repleta de crianças, que corriam para todos
os lados, brincando de esconde-esconde, de bola, de cabra-cega, de bolinha
de gude, de passa-anel, de pular corda, enfim, de todas aquelas coisas que
só as crianças são capazes de fazer sem se preocupar com o mundo ao seu
redor, suas vidas são brincar, brincar e brincar. No meio dessa algazarra
que faziam, havia um pequeno grupo, sentado em uma das calçadas, debaixo de
uma grande árvore, e me aproximei para ver o que faziam. Me vi ali, no meio
daqueles meninos e meninas, ainda criança, com seis ou sete anos de idade,
a contar e a inventar histórias com tal habilidade e geniosidade, que
conseguia prender a atenção de todos, e com a qual fiquei impressionado.
Não me lembrava mais disso, não lembrava de ter sido em algum momento de
minha vida capaz de criar com tanta destreza. Tivesse me lembrado disso
antes, quem sabe meu destino tivesse sido outro?!
De repente ouvi um barulho, virei meu rosto para ver o que se
passava, e quando me voltei para aquela rodinha, tudo a minha volta havia
mudado. A pintura das casas haviam envelhecido um pouco, e não haviam mais
crianças a correr e a brincar pela rua, se viam agora jovens casais de
namorados. Alguns sentados nas calçadas, outros conversando recostados aos
portões, e ainda outros recostados em árvores, mas todos com o mesmo brilho
no olhar, com o mesmo sorriso nos lábios, provocados por aquela pequena
entidade mitológica grega, filho de Afrodite, muito do sem vergonha que sai
por aí dando flechadas, permitindo a estes jovens casais sentir pela
primeira vez o sabor doce do amor. A um canto, recostado a uma árvore
estava eu com uma garotinha. Ah! Sim! Agora me lembro! Minha primeira
namoradinha do colégio. Não! Namoradinha não! Minha primeira namorada! Como
tinha orgulho em dizer que tinha uma namorada. Me sentia como um homem
feito, barbado, pronto para o mundo. Pude naquele instante rever meu
primeiro beijo. Nem dormi direito aquela noite..., sentindo o calor dos
lábios daquela que foi meu primeiro amor.
Enquanto relembrava e me emocionava, tudo a minha volta se alterou,
e da primavera que se passava, não haviam mais vestígios, estávamos agora
em pleno verão.
Lá no início da rua despontava um
carro novo em folha, conversível e todo equipado, com jovens, que gritavam
e riam escandalosamente, convidando à rua todos para comemorarem com eles
aquela grande alegria. Dona Lurdes e Dona Josefa, irmãs, extremamente
religiosas, e que moravam logo no começo da rua, fecharam logo as janelas
escandalizadas. Mas toda aquela euforia não seria abalada por tão pouco,
continuavam buzinando, assobiando, gritando apaixonadamente, com suas
cabeças raspadas, com as “caras-pintadas” de batom e caneta. Então pude
rever em meu rosto jovem, bem no meio de minha testa, escrito a batom
vermelho, aquelas três siglas maravilhosas: “USP”. Ah! Meu Deus! Que festa
aquela! Que sensação maravilhosa! À muito tempo não sentia isso... . Havia
conseguido realizar o maior desejo de minha vida até aquele dia, seria um
engenheiro renomado, construiria pontes, túneis, viadutos, poderia auxiliar
bons administradores a levarem a tecnologia aos mais remotos cantos do
Brasil. Como é bom ser jovem, tanta esperanças e tantos sonhos!
Ouvi um barulho de latas se chocando, virei-me, e lá estava eu,
saindo do carro a carregar minha noiva vestida de branco, para nossa casa,
a mais nova, e a mais bela da rua. A casa era toda azul, com detalhes em
branco, como tanto havíamos sonhado, acreditávamos, empolgados pelo
sentimento que nos envolvia, que trazendo a cor do céu para nosso lar
poderíamos viver nosso paraíso. Não é difícil imaginar quais flores
escolhemos para completar nosso céu: de um lado os girassóis, os quais
conseguimos pedindo algumas mudas para o Seu Pedro, representando o sol de
nossos dias; do outro as margaridas de minha avó, representando as estrelas
de nossas noites apaixonadas.
Não havia sequer dois segundo que a porta havia se fechado, após
nossa entrada triunfal, e a vi se abrir novamente, e uma criança sair de lá
de dentro correndo em direção ao jardim, e eu logo atrás a brincar com ela.
Recostada a porta estava minha esposa, a mulher da minha vida, sem quase
agüentar o peso de sua barriga de oito para nove meses de nosso segundo
filho. Apesar do peso sorria. Um sorriso tão belo que não pude me conter,
peguei meu filhinho no colo, me aproximei dela e a beijei, ficando nós
três, ou melhor, nós quatro num abraço abençoado pelos céus. A sensação era
tão intensa e boa que desejei nunca mais sair dali, desejei ser capaz de
controlar aquela sensação para mantê-la sempre pulsando dentro de mim.
De repente toda a paisagem escureceu, um vento gelado assobiava a
minha volta. Virei para ver o que ocorria, e avistei uma marcha fúnebre
aproximando-se lentamente. Vi minha adorada esposa vestida de luto a chorar
convulsivamente, com meus filhos adolescentes, a chorar agarrados a ela.
Muitos eram aqueles que seguiam o cortejo, reconheci em muitos daqueles
rostos, pessoas com as quais convivi por muito tempo. Comecei a ficar
agoniado, diversas eram as coisas que passavam em minha cabeça naquele
momento, mas eu não queria acreditar em nenhuma delas, poderia ser mamãe
ali dentro, meu pai, vovó, ou quem sabe um filho meu... . Mas, onde eu
estava? Não me reconhecia ali entre os presentes. Onde eu estava? O que
estava acontecendo? A marcha se aproximou e pude ver, ou melhor, pude me
ver ali, dentro daquele caixão. Estava morto!
Senti naquele momento como se eu tivesse cometido um crime, ou
tivesse violado algo sagrado, algo que não me era permitido. Senti uma
força descomunal me puxar, com tal brutalidade que não pude reagir. Era
como se houvessem apertado a tecla “RENN” de um videocassete, e tudo fosse
regredindo rapidamente. Aquela névoa inicial voltou a envolver-me, e não
pude ver mais nada.
Acordei, todo
suado, com sacudidelas de minha mãe apavorada, por eu ter tido, segundo
ela, um pesadelo, pois estava a gritar e a me contorcer de tal forma, e com
tal violência, parecendo-lhe que nunca mais eu iria acordar daquele sonho.
Dezesseis
- Quem não
nasceu?
- Eu.
- Por que?
- Um aborto!
- Por que?
- Medo,
desespero, culpa, solidão.
- Não houve
escolha?
- Não para mim.
- Sua mãe?
- Só me lembro da
angústia.
- Seu pai?
- Ela quase nunca
falava dele.
- Onde aconteceu?
- Num lugar
estranho, frio e sujo.
- O que você
sentiu?
- Medo, dor e uma
pressão enorme.
- O que sua mãe
sentiu?
- Mamãe também
sofreu e não havia ninguém para ajudá-la.
- Como ela está
agora?
- Não sei, ela
também morreu.
- Quantos meses
você tinha?
- Cinco.
- E sua mãe
quantos anos?
- Dezesseis.
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