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___
Tio Breno, tio Breno, venha ver, depressa!
Era
Beto que gritava, entrando pelo jardim. Sua voz era assustada e surpresa.
Estávamos
na biblioteca, tio Breno, Maggie, Clô, Julinha e eu. Quando acorremos ao
chamado de Beto, vimos que os outros guris já estavam reunidos, cada qual
falando mais alto que o outro. Assim
que chegamos e tio Breno pigarreou, calaram-se tão ao mesmo tempo,
como o faziam falando à pouco. Num tom grave e seco, ele mandou que entrássemos. Ficamos
parados, ainda tomados pela surpresa. Tio Breno falou bem alto, ríspido,
quase gritando: ____ Para dentro, já disse! Saímos bem depressa, não sem antes olhar para ele,
assustados. ___ Madalena! Otávio! Vão já
para dentro e levem os garotos para o pomar! Não quero ninguém aqui,
enquanto não os chamar!
___ Sim , seo Breno, -
disse Otávio, mas desde que vem vindo gente, o senhor não acha....
___
Eu já disse que vá para dentro! Obedeça às minha ordens! – disse, raivoso,
tio Breno,
___
É estranho! – disse eu – eu nunca vi tio Breno desse jeito. Ele nunca
perdeu a calma!
___
Ah! Você já tá pondo minhoca na cabeça! Só pruque chegou um istranho? ___ Não,
Madalena, eu não creio que esse homem seja um desconhecido para tio Breno.
Nem, tampouco, deve ser um amigo. Ninguém fica apavorado quando vê um
amigo.
Conversávamos
enquanto caminhávamos para o pomar. Os garotos já estavam lá, sentados,
juntos, calados, olhos arregalados, embaixo de uma das mangueiras. Percebi
o que sentiam e falei.
___
Já que vocês não querem brincar de correr, que estão cansados, vou
sentar-me aqui e
contar-lhes uma linda história. Prestem atenção, que vou falar
um pouco sobre Anhangá.
___
Quem é Inhanhangá?
___
Não é Inhanhangá, Luizinha! – disse-lhe eu, rindo. Luizinha era uma
pequerrucha de menos de três anos, moreninha, de cabelos muito crespos,
quase pixaim. ___
Luizinha, fale comigo, vamos! A- nhan- gá! - vamos, força! Outra vez – A-nhan-gá! Ela tentava falar, mas,
cada vez se enroscava mais. Todos riram da sua confusão e ela também riu. ___ Laura, então conta logo!
___
Está bem Quico, vou contar. Anhangá é um lindo e corajoso veado, protetor
dos animais do campo. É todo branco e olhos de fogo. Os caçadores muito o
temem. Dizem que quando está com sua cria é muito perigoso.
Eu
tentava prender a atenção das crianças, mas, com exceção das três
primeiras, seus olhos corriam de mim para o portão do pomar e vice-versa.
Ficaram ainda mais excitadas quando demos por falta de Otávio e Beto.
___
Onde eles foram, Madalena? – perguntei.
___
Otávio foi ponhá milho pros porcos e Beto eu num sei não, Laura. ___
Vou ver se Beto foi cometer alguma tolice. E você, Madalena, trate de olhar
bem as crianças, porque, se Beto foi até lá, você será a responsável
perante tio Breno.
Saí
correndo, pensando já as piores coisas. Não queria crer que Beto tivesse
tido a coragem de ir até lá dentro. Com muito medo, arrisquei-me a entrar
na casa. Entrei pela cozinha, com todo o cuidado, atravessei as salas de
jantar e de visitas e fui até o vestíbulo. Divisei a biblioteca, no fim do
corredor, mas Beto não estava lá. Voltei pelo mesmo caminho, cheguei no
quintal e dei a volta á casa pelo lado direito. Ia passando embaixo da
janela da biblioteca, quando ouvi um sussurro. Olhei para os lados e,
divisando uma touceira de guaimbê que enfeitava o jardim ao lado da casa,
bem na direção da janela da biblioteca, corri para lá, certa de que
encontraria Beto. Falhei. Fiquei brava e cheguei a maldizer a hora que
tinha saído para procurá-lo. Ia deixar o meu esconderijo, quando o divisei,
no alto de uma seringueira, bem oculto entre as folhas. Temerosa, comecei a
fazer-lhe sinais para que descesse, mostrando-lhe a janela e dizendo
que alguém poderia vê-lo. Ao
fazer-lhe sinais, eu é que quase fui descoberta quando tio Breno apareceu,
de repente, á janela. Meu coração parecia querer arrebentar-me o peito
tamanha a fúria com que batia. Abaixei-me e fiquei quieta, imóvel,
paralisada. Tentei imaginar como estaria Beto em seu esconderijo. Eu sabia
estar bem protegida, mas, não tinha a mesma certeza quanto a ele. Permaneci
encolhida durante uns dez minutos e permaneceria assim até á noite, tamanho
era o medo que me assaltava. Não foi preciso, porém, pois ao final desse
tempo, ouvi que Beto me chamava, deduzindo que já não havia ninguém na
janela. Levantei-me e, com gestos, ordenei, quase em pânico, que ele
descesse. Creio que deveria estar com a fisionomia feroz, pois, ele
obedeceu-me na hora. Desceu e correu para o outro lado da casa. Quando me
preparava para correr, também, ouvi a voz de tio Breno, muito alterada, que
voltava á janela. Abaixei-me novamente, mas, desta vez, em melhor posição.
Ele estava com o rosto pálido e sombrio, as mãos apoiadas ao parapeito da
janela. Só então, reparei direito nele. Talvez por causa dos acontecimentos
novos e apuros pelos quais estava passando, senti haver despertado em mim
uma série de sentimentos nunca antes experimentados: capacidade de
observação, senso de responsabilidade, de auto-crítica e algo mais que eu
não sabia definir. Eu sabia, eu sentia que tio Breno estava sofrendo muito.
Sua camisa esporte, de um azul muito claro, escondia um peito muito largo e forte. Ombros largos e
pescoço grosso, sustentavam um rosto másculo, com olhos pretos e profundos,
nariz um tanto comprido e boca de lábios finos e muito bem feita. Cabelos
bem pretos e têmporas já meio grisalhas, não eram nem lisos nem crespos.
Era um homem bonito, queimado pelo sol, muito trabalhador e, acima de tudo,
muito bom e generoso. Eu sentia que, se até agora eu vivera como criança,
deixando a vida correr, sem problemas e preocupações, sem procurar analisar
o sentido da vida, agora eu crescera de repente. Sentia algo novo dentro de
mim, que eu não sabia bem o que era, mas que mudaria, por completo a minha
vida. Eu tinha quinze anos e, se até então eu vivera junto com as crianças,
sentindo-me também criança, agora eu já não sabia bem o que era. O que eu sabia com clareza, é que aquele
estranho chegara para mudar a vida na ilha. Não sei se por uma benção ou
uma praga. Só sei que sinto
saudades de lá e daquele tempo.
___
Você não pode fazer isso!
Era
a voz de tio Breno, muito nervoso. O homem, lá dentro, dizia coisas que não
chegavam a té mim.
___
Você é um canalha, sempre foi! É tudo
mentira! Por que não procura o João cozinheiro, ele sabe de tudo!
Eu
continuava a ouvir a voz de tio Breno. Oh! Eu daria tudo para poder sair
dali, mas ele não saía da janela! O homem falava qualquer coisa e tio Breno
replicava.
___
Eu já disse que não fugi, apenas não queria continuar lá!
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Não tenho culpa se fizeram canalhice
comigo!
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Eu não me ocultei aqui na ilha! Eu apenas quis viver isolado para fazer o
bem. Estava cansado de sofrer. Aqui eu sou feliz.
Agora
eu não tinha certeza de que queria sair. Talvez pudesse fazer alguma coisa
para ajudá-lo. O estranho continuava a acusar tio Breno e ele se defendia.
___
Não admito que venha aqui fazer chantagem. Eu não tenho o que me pede. ___ Ora, o Padre Tadeu... ele não tem
nada a ver com isso!
___
É claro que eu vou lá de vez em quando, mas não é pelo que você está
pensando!
___
O Capitão não estava no comando naquele dia!
Quanto
mais o homem falava, mais tio Breno ficava furioso. Seu rosto, que eu vira
pálido quando assomara á janela, agora mudava de cor a todo instante. Já
não aguentava meus nervos, mas não podia fazer nada para ajudar. Eles
continuavam a discutir cada vez mais alto.
___
Toledo, quer um conselho? Vá embora daqui que é melhor para todos.
Então, eu o vi chegar á janela e ouvi bem
claro o que disse.
___
Só irei quando tiver o cofre nas mãos e eu o terei nem que tenha que
matá-lo.
___
Ora, vá para o inferno! – gritou tio Breno, agarrando o homem pelo
colarinho. Este deu-lhe um soco e eu ouvi o barulho de um corpo que caía ao
chão. Assustei-me, dei um grito e caí também.
___
Laura, acalme-se, tudo está bem! Sou eu, tio Breno, acalme-se!
___
Hum! Onde estou? Meu sonho! Como dói minha cabeça! Tenho medo! Tio Breno,
quem é esse homem?
___
Vamos, acalme-se e não chore, tudo já passou! Você desmaiou quando viu...
Por que fez isso? – admoestou-me com bondade.
___
Por favor, não me censure...
___
Não vou faze-lo, não se assuste. Então, está melhor? – perguntou com calma.
___
Sim, estou bem, obrigada.
___
É, você não é nada bobo! – disse Toledo de forma desagradável – uma ilha
deserta, sobrinhas mocinhas, e que mocinhas, hein?
___
Ora, cale-se – ordenou tio Breno – respeite ao menos esta criança!
___
Criança? – falou o homem, dando uma gargalhada – essa agora é muito boa!
Tio
Breno carregou-me em seus braços, levando-me para o meu quarto. Seu rosto
estava vermelho, sua fisionomia dura e seus olhos tão frios que me
assustou. Pôs-me na cama e caminhou para a janela. De lá avistava-se, muito
bem o pomar. Gritou para Madalena, que acorreu solícita. Chegou-se para
debaixo da janela e tio Breno lhe falou com dureza:
___
Diga a Otávio para ficar com as crianças e olhá-las muito bem. Ai dele se
alguma escapar e vier espionar,
como esta aqui. E você, venha ficar com Laura.
___
Tio Breno... eu...quero...
___
Deite-se e repouse – disse– não vou chamá-la a atenção, não se assuste.
Disse
isso e saiu batendo a porta. Não pude explicar-lhe nada, dizer que eu não
tivera culpa. Mergulhei meu rosto no travesseiro e chorei muito. Lágrimas
amargas, de desconsolo, de desabafo, de revolta pela presença daquele homem
que viera atrapalhar a nossa vida, de culpa por ter causado aborrecimento e
decepção a tio Breno, a quem eu queria tanto. Lágrimas de tristeza e
confusão por compreender que eu não era mais criança, que a vida não era
feita só de bondade e que além daquelas água azuis, lá ao longe, na cidade,
havia coisas que eu não conhecia e que me metiam medo. Senti-me só,
perdida, confusa. Madalena
chegou muito assustada, querendo saber o que tinha acontecido. Não tive
coragem de contar. Chorei muito tempo ainda, estirada na cama, sem coragem
de me levantar. Madalena começou a contar-me uma história, como eu fazia
com as crianças quando queria acalma-las. Pedi bruscamente, quase furiosa,
que se calasse. Ela olhou-me assustada, confusa, sem entender nada, mas,
nada falou. Era como se eu quisesse me vingar por causa do que eu sentia,
tinha um desejo enorme de rebeldia, logo eu que sempre fora docil e meiga.
Estava perdida nessa minha nova condição e sem saber interpretar meus
sentimentos. Estava sentindo pena de mim mesma. Pedi a Madalena que saísse,
pois queria ficar sozinha. Fiquei deitada ainda algum tempo, tentando
acalmar aqueles sentimentos que me deixavam apavorada. Levantei-me e fui
até a janela. Vinham do pomar, os risos e gritos das crianças, brincando,
quase esquecidas, do que haviam presenciado, sem preocupações, felizes. Só
Beto, Clo e Julinha permaneciam sentadas ao lado de Otávio. Pensei que bom
seria se eu lá estivesse, criança ainda, falando e rindo, subindo nas
árvores e apanhando frutos para os mais novos. Pensei em Beto com doze
anos, Clo e Julinha com dez. Logo estariam, como eu, sentindo tudo aquilo.
Voltei para a cama e, incapaz de reagir como adulta, perdida nesse mundo
novo, comecei a chorar novamente.
As
paredes do meu quarto já estavam se pintando de cinza pelas primeiras
sombras da noite. Eu estava num estado de ainda meio torpor, quando bateram
á porta. Percebi que a rebeldia continuava dentro de mim, pois, não
respondi á batida. Ouvi, depois, a voz de Beto.
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Laurinha, sou eu, o Beto, posso entrar?
___
Pode – respondi secamente. Afinal, não tinha sido ele, o causador de
tudo? Ele entrou e chegou perto da
cama.
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Laurinha – disse ele, tímido e com medo – a Madalena está chamando para o
jantar.
___
Diga que não quero, não estou com fome.
___ Está bem, eu digo.
Ele
ia saindo, meio sem jeito, querendo dizer alguma coisa, mas não teve
coragem. Ficou parado junto á porta, de costa para mim, talvez esperando
que eu dissesse alguma coisa. Não falei nada, levantei-me e fui até a
janela. Então, ganhando coragem,
aproximou-se de mim, pegou-me pelo braço, fazendo me virar e disse, num tom
triste:
___
Laurinha, perdoe-me. Eu desobedeci, mas queria muito saber o que estava
acontecendo.
___
Perdoe-me! – o interrompi, furiosa, gritando com ele – como se isso
bastasse para remediar todo o mal que você me fez! Não sei com quem você
aprendeu a escutar atrás das portas.
___
Mas eu não estava atrás da porta! – disse ele, em sua inocência.
___
Ora, cale-se, seu moleque atrevido! Gostaria de fazer você passar por tudo
o que eu estou passando, de mergulhar você na escuridão em que eu estou, de
atirá-lo ao inferno, que o padre Tadeu nos ensinou a temer! Mas eu vou
arrumar um meio de fazer tudo isso, você vai ver! Ele não disse nada. Seus
olhos estavam arregalados, querendo
saltar da órbitas e o pavor que se estampava em seu rosto, me faz doer o
coração até hoje. Havia aflição em sua voz quando ele disse afastando-se,
de costas, com as mãos para trás, esperando encontrar a porta:
___
E..eu já vou! – gaguejou.
Disse
isso e virou-se tão de repente que,
se no chão houvesse poeira, ele a teria levantado. Fechada como estava, em
mim mesma, na minha dor, não consegui raciocinar para sentir pena daquela
criança. Andava de um lado para outro, arcada sob o peso dos meus nervos
quando a porta abriu-se e uma luz fraca iluminou o quarto, já bem escuro:
___
Eu vim tlazê uma vela pala você! – era Luizinha, na inocência dos seus três
anos.
___
E pra que é que você acha que eu quero uma vela? – perguntei-lhe sem
paciência.
___
Porque você tava blava co Beto porque tava no esculo.
Abrandei-me
um pouco e disse-lhe:
___
Está bem, Luizinha, obrigada. Agora vá.
___
Eu num posso fica aqui?
___
Não, agora não, depois você fica, está bem?
___
Tá bom, tchau!
Consegui
conter-me diante daquela criança, graças a Deus, digo agora, pois, se lhe
tivesse causado algum mal com fiz com Beto, morreria de remorsos. Mas, nem
ela, em seu gesto inocente, conseguiu acalmar-me. Em outro momento, eu a
teria tomado nos braços riríamos
muito e ela teria arrancado, a promessa de contar-lhe uma história bem
comprida e bonita. Cheguei até a janela. Um vento leve tocava-me o rosto.
As primeiras estrelas já apareciam, e eu tinha a impressão de que, piscando
como estavam, elas estavam chorando comigo. A lua já se fazia anunciar,
fazendo crer que teríamo uma noite maravilhosa de luar. A noite, com as sua
sombras e mistérios, conseguira acalmar-me um pouco. Resolvera descer ao
jardim, quando Madalena bateu á porta e pediu para entrar.
___
Entre- disse-lhe eu, sem muita vontade.
___
Eu truxe a comida. Ainda tá quente.
___
Já disse que não quero.
___
Mai ocê num pode ficá sem comê, tá crescendo muito!
___
Crescendo não, já cresci! – gritei - cresci hoje, de repente, num piscar um olhos, assim!
___
Hara! Eu num tô intendendo ocê e tô achando que ocê num é mais a minha
Laurinha! – disse, demonstrando espanto e preocupação.
___
E não sou mesmo, está bem?
___
Ora! Só pruquê chegô um home aqui,
tá todo mundo perdendo a cabeça. As criança, não consegue dormi, ocê, braba
desse jeito, Seo Breno, num quis jantá! Em compensação, o home come pra
cinquenta! É, mai ocê num que mesmo prosa! Deixe eu desce e arrumá a cama
pru home.
___ Arrumar a cama?
Então ele ainda não se foi? – perguntei apavorada.
___
Não, num foi. E quem é que podia ir de barco, assim de noite?
___
E tio Breno, o que disse?
___
Disse que ele devia de ir embora, qui não devia ficá, mas ele dissi que tem
medo de navegá de noite. Eu acho qui ele tá certo, qui......
___
Você não acha nada, não sabe de nada! E agora vá, deixe-me só.
___
Tá bem, eu vou. Se ocê quisé cume dispois, vai na cozinha.
Não
dei resposta e ela saiu apressada. Tentava pensar, entender o que estava
acontecendo, mas os pensamentos embaralhavam-se, fugiam, fazendo arder
minha cabeça. Estirei-me sobre a
cama sem tirar a roupa e sem puxar as cobertas. Sabia que aquela
seria uma longa noite de vigília. Eu ouvia, lá fora, o rumor das folhagens
agitadas pelo vento fraco. As árvores, aproveitando o luar, projetavam
sombras sobre as paredes do quarto. De olhos abertos, olhando vagamente, eu
via as sombras crescerem e se agitarem, como a querer saltar da parede para
falar comigo, fazer-me companhia. Fechava os olhos e via-me deitada, via o
meu tamanho, o meu corpo tão mudado, tão estranho como estranho era o
pulsar dentro dele. Antes, eu me deitava e tentava calcular o meu tamanho
buscando encostar os pés na guarda da cama. Fazia por fazer, por
curiosidade. Nunca olhava para dentro, para os meus sentimentos. Agora era
diferente. Havia uma preocupação. Mesmo sem saber como, eu queria comparar
o tamanho do meu corpo com o tamanho do que sentia. Por fora, sentia-me
feia e sem graça, comprida e sem formas. Por dentro, era tudo fôfo, sem
consistência. Não me via mais criança e tampouco adulta. Era como se eu
tivesse vergonha de mim e do que estava sentindo. Lembro-me de quando tive
a primeira menstruação. Saí chorando e gritando para Madalena que estava
saindo sangue de dentro de mim e que eu estava morrendo. Jurava a ela que
eu não caíra e nem me machucara. Ela levou-me para o meu quarto desfiou um
rosário de conselhos e ensinamentos. Segui os conselhos e esqueci tudo o
mais, eu não era moça coisa nenhuma. Continuava criança como as outras e
seria sempre assim. Agora eu compreendia. Veio-me á memória a preocupação
que eu tivera com o dia seguinte. Via-me sem graça e sem ambiente no meio
das crianças e de tio Breno e sentia-me sem forças para enfrentar o
desconhecido. Senti saudade do dia
anterior e de todos os outros dias vividos sem preocupações. Agora eu sabia
porque tio Breno dera um quarto só para mim. Eu não era mais criança.
Chorei longa e amargamente. A madrugada veio encontrar-me assim, deitada de
costas, olhando o teto e as sombras na parede. Não notara que as sombras
eram, agora, incertas e se moviam com rapidez espantosa. Um clarão forte e
rápido iluminou o quarto, tirando-me daquele quase torpor. Levantei-me a
custo e fui até a janela. As árvores agitavam-se com força, correndo umas
atrás das outras. O vento, forte, as atirava de cá para lá. No céu, nuvens
escuras principiavam a correr e a cobrir as estrelas. A lua, brilhava
incerta, com as nuvens que passavam sobre ela. Brilhava cada vez menos,
como a sentir que a estavam espicaçando, insultando. Que me importa,
pensei, pois a mim também não haviam atirado nuvens de dúvidas e
incertezas, deixando-me raivosa e humilhada, apagando a luz de pureza e
inocência que brilhava dentro de mim? Os relâmpagos sucediam-se num
iluminar persistente e raivoso. As árvores corriam loucas, tontas por
aquele rodopiar interminável. As estrelas haviam sumido e a lua estava cega por aquelas nuvens
negras e pesadas. Eu também estava tonta de confusão, sem perfume de viver.
O rebombar dos trovões parecia querer ensurdecer a própria natureza. Um
clarão e um estalo seco e rápido, fez-me estremecer . Surpreendi-me
pensando que aquilo, era bem feito, pois não era só eu a sofrer. Também a
lua, as estrelas, as flores, as árvores sofriam com a brutalidade da
tempestade. Desejei que um raio caísse bem perto para ver o que ia
acontecer. Minha infância estava destruída, não naturalmente, aos poucos,
sem dor nem saudade, mas, inesperadamente, sem que eu estivesse preparada
para isso. Por isso, desejei o raio e a destruição. Não tardou um clarão e
um estouro espetaculares fizeram com que eu me agarrasse no parapeito da
janela. Com um novo relâmpago , pude vera nossa mangueira, onde até aquela tarde nos sentáramos, a maior árvore
do pomar, partida ao meio, caída para ambos os lados. Nela estavam atadas
as nossas balanças de corda. Nela também estavam guardadas as nossas
histórias e os nossos sonhos. Bastou
eu pensar e a lua ficou cega, as estrelas ficaram tristes e
esconderam-se, as árvores sofreram a perseguição do vento e um raio caiu,
trazendo a destruição. Compreendi que, acima de tudo, dos acontecimentos do
dia, da confusão dos meus sentimentos, da dor que eu sentia, havia Alguém
que tudo podia, Alguém em quem eu podia confiar e entregar-me sem temores.
Recomecei a chorar, mas desta vez, não só com os olhos, mas de corpo
inteiro, pois, a chuva caindo, violentamente, entrava pela janela, batida pelo vento e molhava-me da cabeça
aos pés. A água que escorria dos meus cabelos e do meu corpo, misturava-se
com as minhas lágrimas. Eram lágrimas de redenção, aliviando o peso que
estava sobre meus ombros. Senti-me forte, corajosa, disposta a encarar meus
sentimentos. Já não tinha dúvidas a respeito: eu estava apaixonada pelo meu
querido tio Breno. Essa certeza eu iria ter alguns dias depois, quando
encontrei no jardim, uma revista com histórias de amor, que, justamente
ele, Toledo havia dado a Beto.
*
Histórias que meu pai contava
Quando eu era criança, morava com meus
pais e irmãos numa casa simples de fazenda, com direito a teto sem forro e
chão de terra batida.
Apesar
da vida de pobre e da dureza da lida, tínhamos o saudável direito de nos
sentarmos, em roda, na sala da casa, em noites de chuva, para ouvir meu pai
contar histórias que ele trazia desde a infância, como a que a mãe dele,
minha avó, orgulhosamente contava e que era a sua predileta: a história do
Saci Pererê. Meu pai gostava muito de contar, também, histórias de sua
juventude, naquela época, não tão distante assim.
A
história da minha avó era a seguinte: todas as noite, de preferência
aquelas bem claras, de luar, ela ouvia os assobios e gargalhadas do Saci.
Numa dessas noites ela saiu para o quintal para recolher a roupa do varal,
quando, de repente, postou-se diante dela, com as mãos na cintura e pito na
boca, ninguém mais nem menos que o
Pererê em pessoa. Este deu-lhe uma cusparada na cara e uma gargalhada.
Minha avó saiu correndo de medo? Que nada! A baixinha, muito mais zangada
do que assustada, deu-lhe um belo tapa na cara. Ele chispou e nunca mais
apareceu. Ela falava com a
convicção de que tinha, realmente, vencido o Saci.
Ainda
hoje, quando saio para o quintal, à noite, lembro-me do medo que sentia e
fico imaginando como é que eu agiria se o Pererê me aparecesse pela frente.
Teria eu a mesma coragem? Pobre avó, ela não podia imaginar que o Saci de
hoje não é como o de antigamente. Hoje ele não nos cospe na cara para brincar.
Manda bala mesmo, para nos matar!
Meu
pai era um grande contador de histórias. As de fantasma que ele contava, e
ele tinha um gosto especial por essas histórias, até ele mesmo acreditava nelas, pois fazia efeitos especiais
e tudo, nos deixavam gelados de corpo e alma. Sadismo puro. Esqueci-me de
dizer que na minha casa não havia luz elétrica e a luz escura e bruxoleante
da lamparina, tornava tudo muito mais assustador. Mas não pensem que isso
nos trouxe problemas emocionais, traumas e que tais. Não! Esse era um
divertimento para nós. Esperávamos, ansiosamente pelas noites de chuva.
Afinal, não tínhamos rádio, nem cinema e muito menos televisão para nos
jogar dentro dos terríveis filmes de mistério, que hoje tanto assustam as
nossas crianças. Acho que é porque os fantasmas criados por esses criadores
de divertimento, têm sempre cara, ou de diabo, que sempre assustou a
humanidade, ou tão irrealmente desumanos, fajutos, que assustam muito mais
e não têm a menor graça. Nós não, nós ríamos dos nossos fantasmas e das
situações criadas por eles. É bem verdade que era um riso nervoso, mas
ríamos. E aquilo se tornou um vício. Na noite seguinte, com olhos
arregalados e tudo, lá estávamos nós para ouvir mais histórias. Hoje fico
pensando de onde é que meu pai tirava tantas histórias fantásticas. De
leitura não era, porque ele mal sabia ler! Acho que ele era o Monteiro
Lobato daquele tempo.
Uma
outra história que ele contava e que tinha sido narrada pela minha criativa
avó, era a de uma mulher que tinha se enforcado, lá na guarda da ponte de
madeira que atravessava o rio Atibaia. Era o fantasma de uma mulher de
cabelos loiros, trançados em uma só trança que saía da nuca e ia até a
cintura, pela frente do corpo. Usava sempre um longo vestido branco. Essa
mulher tinha se enforcado porque o marido a tinha largado para ficar com
outra. Ela se matou, mas jurou que iria assombrar todo homem sem-vergonha
que traísse a mulher. Na minha inocência eu perguntei ao meu pai se ele já
tinha visto esse fantasma e ele respondeu que é claro que não! Depois que
eu cresci, me vi pensando que pouquíssimas esposas devem ter ouvido seus
maridos contarem essa história para os filhos.
A
minha história favorita, todos nós tínhamos uma, era essa: Numa noite de
inverno, meu jovem pai e sua turma de amigos estavam reunidos no bar do
Poltroniere, onde, costumeiramente, contavam piadas e falavam de fantasmas
e aprontavam pra cima de alguém. Nessa turma havia o Neco. O Neco era
particularmente medroso e bobo o suficiente para cair nas armadilhas da
turma, mas se achava o máximo do corajoso. Um garganta.
Nessa
noite, resolveram desafiar o Neco para ir ao cemitério, à meia noite, e
trazer a ossada da cabeça de um defunto, qualquer defunto, desses que são
atirados no poço, depois de alguns anos. Por mais que tentasse arrumar
desculpas, o Neco não teve outro jeito senão aceitar o desafio. A prova
seria na noite seguinte, Sexta-feira treze.
Os
rapazes combinaram que, dois deles iriam esconder-se em pontos estratégicos
do cemitério para assustar o Neco. Assim foi feito. Um ficaria escondido
perto do poço, enquanto que o outro ficaria atrás de um túmulo, ao lado do
portão de entrada e saída, este, vestido com uma enorme capa branca. Os
outros ficariam no bar, esperando o Neco.
Munido
de uma lanterna, Neco abriu a tampa do poço, que rangeu assustando-o .
Quase correu, mas resolveu enfrentar. Pegou uma cabeça lá dentro, colocou-a
no chão e foi fechar a tampa, quando ouviu um Ai! tão abafado, dolorido e
tremido, que ele não pensou mais duas vezes; largou tudo e saiu correndo em
direção à saída. O dono do Ai! Era o rapaz escondido atrás de um túmulo.
Quando chegou ao portão, topou com a figura de capa branca, barrando-lhe a
passagem e dizendo-lhe, com voz de fantasma, para não ir, - não vai! não
vai não! volta! O Neco suava de medo, mas como passar pelo portão sem ser
pego por aquele fantasma? Voltou correndo, apanhou a cabeça e sempre
correndo, já fora de si, foi para a saída, disposto a enfrentar o que quer
que fosse. Não foi preciso, o portão estava livre. Quando estava para sair
o fantasma apareceu gritando, desesperado , aquele apavorante - largue a
minha cabeça! Largue a minha cabeça! E agora? O que fazer? Coitado do Neco,
não teve forças nem para responder ao fantasma e... pernas pra quê te
quero? Saiu numa desabalada só, com a cabeça na mão e o fantasma no seu
encalço. Neco entrou no bar numa disparada só, jogou a cabeça em cima da
mesa e foi gritando para os amigos que ele tinha trazido a cabeça, mas que
o dono estava vindo ali atrás e que
eles que se virassem para explicar e foi embora numa disparada ainda maior.
Depois
de rirem muito, os rapazes tiveram que reconhecer que o Neco era, mesmo,
muito mais corajoso do que eles
podiam imaginar.
*
Histórias que meu pai contava
Quando eu era criança, morava com meus
pais e irmãos numa casa simples de fazenda, com direito a teto sem forro e
chão de terra batida.
Apesar
da vida de pobre e da dureza da lida, tínhamos o saudável direito de nos
sentarmos, em roda, na sala da casa, em noites de chuva, para ouvir meu pai
contar histórias que ele trazia desde a infância, como a que a mãe dele,
minha avó, orgulhosamente contava e que era a sua predileta: a história do
Saci Pererê. Meu pai gostava muito de contar, também, histórias de sua
juventude, naquela época, não tão distante assim.
A
história da minha avó era a seguinte: todas as noite, de preferência
aquelas bem claras, de luar, ela ouvia os assobios e gargalhadas do Saci.
Numa dessas noites ela saiu para o quintal para recolher a roupa do varal,
quando, de repente, postou-se diante dela, com as mãos na cintura e pito na
boca, ninguém mais nem menos que o
Pererê em pessoa. Este deu-lhe uma cusparada na cara e uma gargalhada.
Minha avó saiu correndo de medo? Que nada! A baixinha, muito mais zangada
do que assustada, deu-lhe um belo tapa na cara. Ele chispou e nunca mais
apareceu. Ela falava com a
convicção de que tinha, realmente, vencido o Saci.
Ainda
hoje, quando saio para o quintal, à noite, lembro-me do medo que sentia e
fico imaginando como é que eu agiria se o Pererê me aparecesse pela frente.
Teria eu a mesma coragem? Pobre avó, ela não podia imaginar que o Saci de
hoje não é como o de antigamente. Hoje ele não nos cospe na cara para brincar.
Manda bala mesmo, para nos matar!
Meu
pai era um grande contador de histórias. As de fantasma que ele contava, e
ele tinha um gosto especial por essas histórias, até ele mesmo acreditava nelas, pois fazia efeitos especiais
e tudo, nos deixavam gelados de corpo e alma. Sadismo puro. Esqueci-me de
dizer que na minha casa não havia luz elétrica e a luz escura e bruxoleante
da lamparina, tornava tudo muito mais assustador. Mas não pensem que isso
nos trouxe problemas emocionais, traumas e que tais. Não! Esse era um
divertimento para nós. Esperávamos, ansiosamente pelas noites de chuva.
Afinal, não tínhamos rádio, nem cinema e muito menos televisão para nos
jogar dentro dos terríveis filmes de mistério, que hoje tanto assustam as
nossas crianças. Acho que é porque os fantasmas criados por esses criadores
de divertimento, têm sempre cara, ou de diabo, que sempre assustou a
humanidade, ou tão irrealmente desumanos, fajutos, que assustam muito mais
e não têm a menor graça. Nós não, nós ríamos dos nossos fantasmas e das
situações criadas por eles. É bem verdade que era um riso nervoso, mas
ríamos. E aquilo se tornou um vício. Na noite seguinte, com olhos
arregalados e tudo, lá estávamos nós para ouvir mais histórias. Hoje fico
pensando de onde é que meu pai tirava tantas histórias fantásticas. De
leitura não era, porque ele mal sabia ler! Acho que ele era o Monteiro
Lobato daquele tempo.
Uma
outra história que ele contava e que tinha sido narrada pela minha criativa
avó, era a de uma mulher que tinha se enforcado, lá na guarda da ponte de
madeira que atravessava o rio Atibaia. Era o fantasma de uma mulher de
cabelos loiros, trançados em uma só trança que saía da nuca e ia até a
cintura, pela frente do corpo. Usava sempre um longo vestido branco. Essa
mulher tinha se enforcado porque o marido a tinha largado para ficar com
outra. Ela se matou, mas jurou que iria assombrar todo homem sem-vergonha
que traísse a mulher. Na minha inocência eu perguntei ao meu pai se ele já
tinha visto esse fantasma e ele respondeu que é claro que não! Depois que
eu cresci, me vi pensando que pouquíssimas esposas devem ter ouvido seus
maridos contarem essa história para os filhos.
A
minha história favorita, todos nós tínhamos uma, era essa: Numa noite de
inverno, meu jovem pai e sua turma de amigos estavam reunidos no bar do
Poltroniere, onde, costumeiramente, contavam piadas e falavam de fantasmas
e aprontavam pra cima de alguém. Nessa turma havia o Neco. O Neco era
particularmente medroso e bobo o suficiente para cair nas armadilhas da
turma, mas se achava o máximo do corajoso. Um garganta.
Nessa
noite, resolveram desafiar o Neco para ir ao cemitério, à meia noite, e
trazer a ossada da cabeça de um defunto, qualquer defunto, desses que são
atirados no poço, depois de alguns anos. Por mais que tentasse arrumar
desculpas, o Neco não teve outro jeito senão aceitar o desafio. A prova
seria na noite seguinte, Sexta-feira treze.
Os
rapazes combinaram que, dois deles iriam esconder-se em pontos estratégicos
do cemitério para assustar o Neco. Assim foi feito. Um ficaria escondido
perto do poço, enquanto que o outro ficaria atrás de um túmulo, ao lado do
portão de entrada e saída, este, vestido com uma enorme capa branca. Os
outros ficariam no bar, esperando o Neco.
Munido
de uma lanterna, Neco abriu a tampa do poço, que rangeu assustando-o .
Quase correu, mas resolveu enfrentar. Pegou uma cabeça lá dentro, colocou-a
no chão e foi fechar a tampa, quando ouviu um Ai! tão abafado, dolorido e
tremido, que ele não pensou mais duas vezes; largou tudo e saiu correndo em
direção à saída. O dono do Ai! Era o rapaz escondido atrás de um túmulo.
Quando chegou ao portão, topou com a figura de capa branca, barrando-lhe a
passagem e dizendo-lhe, com voz de fantasma, para não ir, - não vai! não
vai não! volta! O Neco suava de medo, mas como passar pelo portão sem ser
pego por aquele fantasma? Voltou correndo, apanhou a cabeça e sempre
correndo, já fora de si, foi para a saída, disposto a enfrentar o que quer
que fosse. Não foi preciso, o portão estava livre. Quando estava para sair
o fantasma apareceu gritando, desesperado , aquele apavorante - largue a
minha cabeça! Largue a minha cabeça! E agora? O que fazer? Coitado do Neco,
não teve forças nem para responder ao fantasma e... pernas pra quê te
quero? Saiu numa desabalada só, com a cabeça na mão e o fantasma no seu
encalço. Neco entrou no bar numa disparada só, jogou a cabeça em cima da
mesa e foi gritando para os amigos que ele tinha trazido a cabeça, mas que
o dono estava vindo ali atrás e que
eles que se virassem para explicar e foi embora numa disparada ainda maior.
Depois
de rirem muito, os rapazes tiveram que reconhecer que o Neco era, mesmo,
muito mais corajoso do que eles
podiam imaginar.
*
Um triste adeus na Ilha dos Inocentes
Entrei em casa e fui direto ao
quarto de Márcio. Assustei-me ao ver que ele piorara tanto. Ele estava com
mais uma daquelas horríveis crises de bronquite. Eu já lhe dera o remédio,
mas ele não melhorara. A única solução era aplicar-lhe uma injeção, coisa
que tio Breno fazia, mas, agora ele não estava, tinha ido viajar com o
horrível Toledo, sem que ninguém soubesse para onde. Viajar não era bem o
termo. Esse homem, que fazia parte
do passado de tio Breno, chegara na ilha e trouxera com ele a desgraça,
todo o mal que se possa imaginar e que mudaria, radicalmente a nossa
vida.
O menino piorava mais e mais. Seu peitinho chiava e
arfava, parecendo ser de papel.
Sentei-me ao seu lado e ele
segurou-me a mão com tanta força, que chegou a doer. Seus olhinhos
suplicavam que eu fizesse alguma coisa. Não aguentei mais vê-lo sofrer e
desci para preparar a injeção. Eu teria que aplicar e foi importante as
tentativas de tio Breno de fazer com que eu aprendesse.
À tardinha, Márcio dormia já bem mais calmo. Eu não
saíra de seu lado nem um instante e aquela noite eu passara sentada ao lado
de seu leito. Cansada, adormeci. Pela madrugada, despertei assustada.
Márcio agitava-se na cama e seu peito voltou a chiar fortemente e ele
delirava. Tirei-lhe a temperatura e vi que estava com febre alta.
Chamei Otávio e Madalena, que também fizeram de
tudo para que ele melhorasse, mas não conseguiram. Resolvemos levá-lo para
o hospital, lá na cidade.
Otávio, carregando o menino, pequeno e magro apesar
de seus nove anos e eu, chegamos à cidade com o dia clareando. A cidade da
qual eu sempre ouvira falar, mas que não conhecia. O porto estava cheio de
barcos, pequenos e grandes. Homens de todos os tipos e tamanhos passavam
carregando redes de pesca. Eu olhava, tudo, entre curiosa e assustada.
Descemos, apressadamente, a pequena rua que nos levaria a uma outra, muito
larga e comprida. Não havia terra. Era tudo pedra ou um cimento preto,
asfalto, disse-me Otávio.
___ Vamos pegar um carro – disse ele.
___ Eu tenho medo!
___ Ora, Laurinha, não seja boba, pense no menino
que está sofrendo!
Deixei-me
levar, sem dizer mais nada.
O carro
começou a andar, andar, não, correr e eu tinha a impressão de que voava. Eu
estava admirada. Nunca vira
tantas casas juntas, tantos carros, bondes e gente. Estava tonta com o
barulho.
Fazia dez anos
que eu vivia na ilha. Do que fora minha vida antes disso, eu pouco me
lembrava. Recordava, apenas, de
ter vivido em um sítio no qual minha mãe trabalhava, que tinha muitos irmãos
sem contudo lembrar-me como eram. Sabia que minha mãe morrera de tifo, que
um padre levou-me para a ilha e
entregou-me a um homem dizendo: __ Este é seu tio Breno. Ele é bom e gosta muito de você, seja boazinha
e obediente. Nenhuma recordação mais.
Quando cheguei lá, com cinco anos de idade, algumas
crianças, órfãs como eu ou abandonadas, já tinham sido acolhidas por tio
Breno, com a ajuda do Padre Tadeu. Por que uma ilha? Porque ele queria
poupar-nos das maldades do mundo.
O carro parou
diante de um prédio enorme, onde descemos. Márcio estava cada vez pior.
Entramos rapidamente e nos
dirigimos a uma moça atrás de um balcão que ao ver o menino chamou
imediatamente o médico que já tratava do menino, o Doutor José Luiz
Monteiro. Duas enfermeiras
tiraram-me Márcio e o levaram. Ele tentou agarrar-me, mas, faltou-lhe
forças. Eu chorava muito, enquanto andávamos pelos corredores.
Otávio telefonou para o Padre Tadeu, que acorreu,
solícito, ao hospital.
Fazia horas que estávamos, os três, numa saleta,
esperando notícias do médico. Passava já do meio dia e ele entrou na sala.
Corri para ele:
___ Doutor, por favor, como está o menino?
___ Sente-se um pouco...
___ Mas, doutor...
___ O que ele é seu?
___ Irmão. Na ilha, somos criados todos como
irmãos.
Eu o olhava com olhos arregalados, mal podendo
respirar de tanta aflição.
___ O estado do menino não é bom – disse ele.
___ Não? Mas,
há perigo de vida?
___ Eu temo que sim.
Senti minhas pernas tremerem, minha cabeça rodar.
Tentei ser forte, mas não consegui e desmaiei.
Quando despertei, vi que estava no quarto de
Márcio. Ele estava no balão de oxigênio, dormia e estava, ainda, com
febre. Sentia-me fraca e cansada e
a cabeça ardia. Saí do quarto e fui procurar o médico. Márcio estava com
pneumonia nos dois pulmões, agravada pela crise de bronquite. Seu estado
era muito grave e talvez não se salvasse.
Pela manhã, Otávio chegara da ilha, trazendo-nos
roupas. O menino continuava na mesma. Às nove horas ele abriu os olhos e
tentou falar comigo, mas não conseguiu. Segurei-lhe a mãozinha, que ele
apertou, mas já sem forças. De repente, começou a suar e a virar os
olhinhos. Queria, deseperadamente, falar comigo e não conseguia. Eu falava
com ele, dava-lhe coragem. Seu peito parecia estourar. Médico e enfermeiras
aplicavam –lhe injeções, faziam massagens. Ele não largava minha mão.
Vi duas lágrimas rolarem pelo
seu rostinho pálido. Logo, sua mãozinha foi afrouxando, afrouxando e largou
a minha.
Chorei muito, tanto que sentia-me afogar naquele
pranto. Eram lágrimas de tristeza, já de saudade, de medo, de revolta por toda a situação que estávamos vivendo
na ilha, de pena de tio Breno, que com certeza iria sentir-se culpado pela
morte do Marcinho. Esse seria um dos piores castigos que Toledo poderia lhe
dar.
Chegamos de
volta á ilha, pouco depois das quatorze horas. As crianças divisaram a
lancha e correram para o
ancoradouro. Quando aportamos, todas estavam lá e Madalena também vinha
chegando.
Quando Padre Tadeu e Otávio tiraram o pequeno
caixão branco da lancha, Madalena começou a gritar. As crianças não
entendiam o que estava acontecendo. Só Beto chorava. Eloá, a gêmea de
Márcio correu para mim, perguntando:
___ Que é que tem nessa caixa? Por que o Márcio não
veio?
Tomei-a pela mão e fomos caminhando atrás do caixão carregado por Beto, Padre Tadeu, Otávio
e Madalena. Só a muito custo conseguimos permissão para levar o pequeno
corpo para ser sepultado na ilha.
Padre Tadeu teve muito trabalho para explicar para
as crianças o que tinha acontecido. Faziam as mais estranhas perguntas. Por
que ele não se levantava e ia brincar, porque estava com aquela cor, porque
estava frio e muitos outros porquês. A eles parecia impossível ter que
plantar o Marcinho lá no fundo do buraco. Porque eles não se conformavam e
sabíamos que aquela seria uma noite terrível, resolvemos enterrar o menino
naquele mesmo dia.
Ás dezoito horas do dia vinte e seis de junho de
mil novecentos e quarenta e nove, á hora da Ave Maria, o nosso querido
Marcinho baixou á sepultura, lá no cantinho, no fim do jardim e ao lado do
pomar que ele tanto gostava, tanto tinha brincado e que guardava, ainda, o
som de suas risadas.
Aquele foi o primeiro triste adeus, dos muitos que
ainda viriam, que tivemos que enfrentar em nossas vidas.
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