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005      OSWALDO FRANCISCO MARTINS
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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DISTRIBUIÇÃO LITERÁRIA

 

 

 

 

 

           

A CAÇADA DE GALINHA D´ÁGUA1

 

Ao amanhecer do dia, com o Sol por sair do seu recolhimento noturno, tio Walter acordava pontualmente seus dois sobrinhos mais queridos e amados quando ainda estava escuro, por volta das cinco horas da madrugada, após já ter coado o café matinal para o seu desjejum, que sempre era seguido por tragos venenosos de um cigarro CONTINENTAL sem filtro. Os sobrinhos estavam em férias no sítio de seus avós e sentiam–se excitados com a caçada de galinha d´água durante aqueles anos sessenta, quando aquelas aves abundavam na lagoa do Modubim1A, que banhava a faixa limitadora do fundo daquele latifúndio gigantesco, repleto de árvores frutíferas e muito bem cuidado pelo tio solteiro que ali se recolhia para viver mansamente e ter sua vida pacata, de herdeiro certo daquele quinhão de terra esplêndida. Com muita nitidez, tio Walter falava para seus amigos mais chegados sobre aquele bem patrimonial magnífico, quando frisava sempre que após seus pais fecharem os olhos, ele herdaria aquilo tudo e saberia bem cuidar dos cento e sessenta e cinco pés de coqueiros adultos e em produção, cujos cocos raramente faziam parte de seu consumo ou dos que ao sítio se achegavam, como também não os comercializava. Seus cachos tinham apenas o objetivo de ornamentar os coqueiros lindos e muito bem cuidados – um dos muitos cartões postais daquele sítio! Ao contrário, as mangas, goiabas, abacates, etc., vendia com freqüência a compradores certos e de sua confiança. Inclusive, para aumentar a quantidade de mangas nos dias de suas entregas marcadas para com clientes cativos, sempre que a quantidade delas não atendia à demanda estimada para o dia da entrega, na noite de véspera costumava pô–las em um baú de madeira com pedras de carbureto presentes internamente de sorte que suas cascas ficassem amareladas justo no dia seguinte, imitando–se dessa forma os exemplares de frutos semelhantes amadurecidos no pé, posto que sabia que tal aparência estava associada à aceitação favorável de seus produtos pelos consumidores finais, que apenas haveriam de ter uma surpresa desagradável no momento de degustá–las!... Tratava–se de uma prática entre os produtores de manga mais tímidos, onde tio Walter se incluía e bem sabia que dava resultado bom!

Mais uma caçada de galinha d´água na lagoa do Modubim, antiga Vila Brasil, que depois passou a ter o nome de Vila Manoel Sátiro, ainda naqueles anos sessenta, quando a capital alencarina estava em efervescência política, fato que contrastava com a paz sepulcral daquele esplendoroso latifúndio. Além de uma pistola calibre 22, cujo uso jamais fora visto por algum cristão, tio Walter tinha uma espingarda calibre 28, marca ROSSI, de apenas um cano, cujos cartuchos de metal ele mesmo costumava carregar em casa, nunca adquirindo exemplares de papelão para a prática de tiros, uma vez que a munição comprada pronta era cara e muito onerosa para os propósitos de diversão a que unicamente se destinavam. Ressaltava o fato de que a espingarda somente era usada por ele, sobre a qual não tolerava o toque de criança alguma. Isto acontecia por questão de segurança, certamente. Tio Walter era um samaritano bem comportado, afeito infelizmente à bebida alcoólica e ao tabagismo, erros ou vícios que acabaram por levá–lo à morte ainda naquela década de sessenta.

Após deixarem a casa pela porta dos fundos, eles andavam pelo caminho de areia branca situado no meio do terreno, definido com cerca de dez metros de largura e entre duas filas de coqueiros adultos, numa simetria que embelezava até mesmo aquela senda alva e permanentemente sem vegetação, demonstrando claramente a ação do intemperismo geológico sofrido por aquele solo desprotegido ou sem mato em sua camada estratigráfca aflorante e que, assim, confirmava o aspecto da degradação impiedosa imposta pela natureza, ali revelada na erosão causada principalmente pelas águas pluviais. Alguns poucos minutos apenas eram gastos até junto à barragem de alvenaria, que impedia que a lagoa invadisse os fundos do sítio, coisa perfeitamente dispensável em função dos invernos serem rarefeitos e diminutos ali. As chuvas caiam em menor número face às secas que normalmente maltratavam e ainda castigam a região nordestina. 

De postos tomados, tio Walter mantinha sua espingarda carregada esperando a claridade da amanhã confirmar a visão de alguma galinha d´água, a qual deixaria o mato sobre a lâmina d´água situada em seu sítio e nadaria para o terreno vizinho, situado do lado direito, que não apresentava vegetação sobre o líquido cristalino daquela gigantesca lagoa. Portanto, aquelas aves podiam ser normalmente vistas apenas quando nadavam em água descoberta das costumeiras plantas aquáticas de seu habitat natural, num momento de fragilidade de suas proteções contra o ser humano menos favorecido na sociedade dos homens, o qual as predava com insistência em função de sua carne boa e saborosa. No caso particular e específico de tio Walter e seus sobrinhos, era simplesmente uma diversão, posto que suas condições econômicas eram excelentes e dispensavam tal necessidade. Sem sombra de dúvida, para os dois sobrinhos ingênuos, a vontade que sentiam era cair naquela água maravilhosa para apanhar a caça abatida, de tomar um banho maravilhoso na forma em que se vem ao mundo, além de estarem aprendendo como caçar na boa companhia de um tio e amigo de verdade. Assim, ficavam na tocaia1B, não podiam falar, rir – era um silêncio que dava para se escutar o canto dos pássaros que estavam então a acordar, a “fala” dos sapos junto à beira d´água, o som dos grilos em sua música monotônica, a presença do vento suave e frio no capinzal, nas folhas em atrito nos galhos dos muitos cajueiros frondosos a povoar aquele sítio. Era certamente um instante de muita concentração, mas que deixava em todos ansiedade enorme pela espera fatal das belas aves azuladas, condenadas a morrer em prol do sucesso daquela empreitada empolgante, porém certamente anti–ecológica!

Na casa do sítio e já acordado, o avó Marcelino – Marcelo era como a avó Filisolina o chamava, que ele atendia e retribuía chamando–a de Filó, sem nenhum segredo, de vez que estes apelidos ou hipocorísticos transformaram–se em seus nomes de fato, por todos usados – percebia que os homens estavam a caçar, trazendo à sua lembrança as muitas caçadas que fizera nas décadas de quarenta e cinqüenta, quando sua catarata vigente não o impedia de ter uma pontaria certeira, sendo sempre bem sucedido nas muitas e muitas caçadas que fizera, das quais só restavam então suas histórias, as quais contava aos seus netos, principalmente quando da oportunidade de reunião de todos no alpendre circundante da casa principal do sítio. Intercalava àquelas narrativas adivinhações curiosas, nunca deixando de contar uma que ele intitulava de “Massa e Piti”1C. Muitos dos sobrinhos decoraram suas estórias e histórias, a ponto de contá–las com os mesmos suspenses e pausas utilizados pelo avô Marcelino.

Um estampido fora ouvido e o avô ficara na expectativa de ver alguma galinha d´água abatida, talvez para matar a saudade dos tempos em que sua pontaria era precisa, invejável, capaz de abater um morcego em pleno vôo com um tiro de espingarda com uma só bala. Todavia, já na hora do café ser tomado, o tio e os sobrinhos regressavam cheios de histórias de caçador e nenhuma ave morta. Tentavam explicar os tiros perdidos, errados ou acertados na ave que fugira baleada, conformando dois problemas possíveis para a situação em mira: a inadequação da espingarda para aquele tipo de caça e caçada e a falta de pontaria velha e suspeitada. No entanto, a segunda hipótese jamais fora posta em discussão, provavelmente para não se pôr à prova a saúde da visão de tio Walter, que sequer usava óculos e não demonstrava dúvida alguma ao falar de sua pontaria “certeira”! Ficavam sempre muitas dúvidas no ar!...

Nova investida contra as galinhas d´água era prontamente marcada na noite que se seguia ao fracasso matinal da caçada recém–praticada, atraindo aquelas crianças para continuar a fazer companhia ao avó e ao tio samaritano, homens adultos que tanto amavam aquele paraíso maravilhoso, onde os sobrinhos eram ainda muito infantis e, por vezes, outros primos – estes com idades bem superiores – também passaram muitas férias escolares, as quais ficaram para sempre gravadas em suas memórias inapagáveis.

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O ETERNO NAPU19

 

 

No início dos anos sessenta, podia–se ver Napu em seu pijama de listras alvinegras19A passando seu tempo na Praça da Lagoinha, em paz com a vida, gozando os proventos de sua aposentadoria pelo INSS19B e aproveitando os aluguéis parcos, mas certos, apurados de suas inúmeras casas alugadas a pessoas honestas em Fortaleza. Ocupava sempre aquele espaço19C em frente à sua residência para contar estórias novas ou repetidas, entretanto nunca admitia que alguém risse de suas “verdades” sérias, inventadas e reveladas com perfeição tanta aos seus apreciadores fiéis, aí incluindo–se crianças, moços e velhos em seus momentos descompromissados com o passar das horas.

E num dia muito quente da capital alencarina, lá estava às três horas da tarde o homem famoso e exótico, de cuja família pouco se sabia, trajado em seu pijama de listras verticais velho e conhecido a falar da chuva forte da madrugada daquele dia, quando a rua Guilherme Rocha mais uma vez se transformara em rio, como quando de momentos preciosos em que ali se podia ver crianças brincando de navegar em câmaras de ar velhas como se bóias fossem, na ocorrência de chuvas durante a claridade do dia ou no começo da noite, naturalmente antes da hora dos meninos irem dormir. Muito comunicativo e sério, Napu falava aos usuários assíduos e pontuais da Praça da Lagoinha ao seu redor:

-    Seu ‘mininu’, pois eu já ‘durmia’ forte, quando ouvi aquela ‘zuada istrundosa’: trum! trum! trum!; pulei da rede ‘pra vê’ do ‘qui’ se tratava!...

-    O ‘sinhô’ não ‘ficô cum’ medo? ‘Pudia’ ser um ladrão ou u’a assombração!

-    ‘Qui’ nada, seu ‘mininu’, eu peguei logo foi meu pau–de–fogo e fui ‘ispiá’ na brecha da porta do fundo lá de casa!

-    E se algum bicho ‘tivesse lá, o ‘sinhô’ ia ‘atirá’ nele com o ‘treis oitão’ ou ia ‘atirá’ pra cima, como aquele ‘homi qui’ saiu ‘currendo’ todo cagado na caçada da onça pintada no alto da serra de Maranguape?

-    ‘Mais’ eu não ‘sô homi’ de ‘fugí’ da raia: ‘sô’ é macho do pombão, ‘quê vê’? ‘num vê’ que bicho ruim eu encaro é de frente!

Napu deu uma paradinha como que para lembrar algum detalhe do ocorrido, coçou o topo da cabeça e a genitália, tirando também o pijama de entre as nádegas e olhou para os pés, calçados em sandálias de couro surradas, como se quisesse ter a certeza de que estava realmente em pé e firme para continuar a narração do fato curioso sobre aquela madrugada passada:

-    Pois bem, seu ‘mininu’, ‘quasi’ vossemicê não deixa eu ‘contá’ o ‘qui’ vi e ‘quasi’ esqueci do sucedido ‘onti’!

-    Peço ‘disculpa’, ‘podi falá’ que eu ‘sô tudu uvido’!

-    ’tava ‘fartando’ luz, tive que ‘arranjá’ uma vela na gaveta da mesa da ‘cuzinha’!

-    Arranjou?

-    Arranjei, ‘mais’ quando ‘dici’ da rede ‘pra pegá’ o ‘rivólvi’, ‘trupicei’ no pinico de mijo e foi uma ‘melera’ danada!

-    E o danado do ‘rivólvi’ tinha bala?

-    Meu pau–de–fogo ‘tá sempre cheio das dum–dum, todo mundo aqui sabe disso!

-    E então ‘homi’, viu ‘qui’ bicho ‘tava lá no ‘quintá’?

-    Tive de ‘pegá’ minha lanterna, ‘purquê’ o vento ‘qui intrava’ pela ‘cuzinha’ ‘tava muito forte e ‘apagô treis vez’ a vela!

-    Sim, ‘mais’ a lanterna tinha pilha?

-    Tinha, era ‘novinha’! ‘Mais vê se vossemicê’ se cala ‘pra qui’ eu possa ‘contá tudim direitim’, ‘tá bom?

-    ‘Disculpi, disculpi’!

-    Quando abri a janela da porta da ‘cuzinha’, a chuva ‘tava tão grossa e o vento ‘tava tão forte, tão brabo, ‘qui’ a luz saiu em ziguezague!

-    Sim, sim, o ‘qui’ ‘tava no ‘quintá’?

Naquele momento, Napu ficou bem sério, seus olhos se arregalaram, fez uma pausa e continuou:

-    Seu ‘mininu’, foquei a lanterna no fim do meu ‘quintá’ e tudo ‘tava ‘munto iscuro’ lá, as ‘arvi balançava’: era ‘munta’ água, seu ‘mininu’!

-    E o trum! trum! trum! ‘qui acordô’ o ‘sinhô’, ‘homi’?

-    ‘Fio’ de ‘Deuzu’, ten’a ‘paciença’, ‘qui vô contá tudim’, certo?

-    ‘tá certo, ‘disculpi’!

-    Quando ‘apuntei’ a lanterna no chão do ‘quintá’, lá ‘tava o bichão, todo ‘inlamiado’!

-    ‘Inlamiado’? O ‘qui’ era? diga logo, ‘homi’ de ‘Deuzu’!

-    Era um ‘truvão’ atolado na lama!

Fora um final hilariante, porém sem risadas ou risos dos escutadores atentos daquele contador de estórias, naquele momento quasi terminando mais uma de suas façanhas com muitos ouvintes à sua volta, uns em pé e outros sentados no banco daquela praça (o banco mais perto da Padaria Ideal19D, localizada na esquina das Rua Guilherme Rocha e Avenida do Imperador). Todavia, conforme sempre acontecia ao final de cada estória contada, todos permaneceram calados, como se fossem discípulos daquele mestre popular, pois sabiam que se rissem perderiam certamente a chance de ouvir outras anedotas do velho Napu, que no folclore alencarino de então ocupava informalmente seu espaço pelas muitas mentiras vespertinas tão bem contadas por aquele homem a todo e qualquer ser humano que dele se aproximasse naquele lugar histórico da Praça da Lagoinha, no tempo lembrado em que o coreto único no centro daquela área pública era ocupado freqüentemente por retretas alegres à noitinha, onde também se podia ver casais de namorados em juras de amor acomodados nos muitos bancos daquela praça bonita ou a voltear em passeio vagaroso sobre as calçadas circundantes de sua área; também podiam ser vistas crianças a guiar seus patinetes e bicicletas, sempre em harmonia com os transeuntes, todos em livre lazer. Aquela realidade ficou na saudade e registrada para sempre na memória de muitos filhos de Fortaleza, como também a lembrança da chegada dos anos terríveis do regime político nascido do golpe militar de 1964 contra a nação brasileira, que frustou tal convivência social em lugares públicos, conforme aconteceu de fato com a belíssima Praça da Lagoinha. Lá, habitantes de suas proximidades iam habitualmente para aproveitar da liberdade em momentos de descanso e/ou lazer, um cotidiano que os tempos pós–golpe militar fizeram por desaparecer e que a libertação do povo das garras militares sujas nunca mais recuperou! Contudo, o que é ainda pior, tem–se que hoje as praças das capitais brasileiras mais populosas estão habitadas por indigentes, crianças desamparadas ou sem assistência social, homossexuais, prostitutas, larápios, drogados, traficantes de tóxicos, etc., que os sociólogos definem muito bem como formadores da escória social triste, um fato admitido como resultante do processo revolucionário brasileiro de meia quatro, cuja relação entre ambos está bem compreendida pelos historiadores nacionalistas sérios do Brasil. 

Sem perder a pose, com um ar de homem muito ocupado, o inventor fértil de estórias pediu licença aos seus ouvintes eternos daquela praça, dizendo–lhes estar muito vexado e que precisava ir até a polícia, quando alguém logo perguntou:

-    ‘Seu’ Napu vai ‘dá quexa’ do ‘truvão’?

-    Não ‘homi’, ‘cê ‘tá doido, eu ‘num vô pro’ Céu agora!

-    Aonde o ‘sinhô’ vai?

-    ‘Vô dá quexa’ do sumiço de meu ‘canaro qui’ fugiu ‘cum’ gaiola e tudo!

E saiu caminhando, arrastando os pés lentamente, paradoxalmente à pressa então revelada aos seus ouvintes habituais, os quais, como de costume ao final de cada estória apresentada pelo contador, lá ficaram unidos a murmurar algo sobre seu mestre19E.

 

 

 

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