CRÔNICAS
O CÃO E A RODA
Serg Smigg
Tive um amigo cujo sonho era ser escritor. Disse "tive" porque o danado
desandou a beber e fumar descaradamente assim que conseguiu publicar seu
primeiro livro. E último. Por consecutivos e desesperados oito anos visitou
editoras e editoras, apresentou seu trabalho a enilhares de empresários,
perdeu noites e noites elaborando estratégias para mostrar sua obra a alguém
que se interessasse. Brigou com a família por ela, que o acusava de
vagabundo. Rompeu com amores antigos, com amizades antigas, com princípios
antigos por ela. Vivia sob nuvens negras da depressão por não conseguir levar
ao mundo suas palavras. E eram boas e belas palavras, a contar por alguns
trabalhos seus que li durante nossa amizade, pois também comigo rompera assim
que uma crítica minha um tanto mais forte me escapou boca a fora. Tinha um
bom senso literário e uma boa estrutura de construção de frases e idéias,
expressava-as com clareza, mesmo as filosoficamente não tão
plausíveis assim. Aliás, "filosoficamente plausíveis" foram as palavras de
minhas críticas que se transformaram na causa de seu distanciamento de minha
pessoa. Lamentei bastante, mas percebi que era um direito seu aceitá-las ou
não, como meu dizê-las ou não.
Mas alegrei-me à profusão quando recebi o convite de lançamento de seu livro,
o primeiro de uma série deles, eu tinha certeza. Ou esperança, pois somente
assim talvez meu amigo aprendesse que críticas são a argamassa de uma boa
obra. E de um boa personalidade.
Fiquei realmente contente e passei a divulgar entre meus outros amigos que
dia tal, a tal hora, se daria o passo inicial em direção de um
sonho. Bastou a menção de "inicial" e "sonho" para criar afeição nos meus
amigos por esse outro que não conheciam, pois a linha comportamental do rol
de conhecidos meus sempre se esticou em direção à uma ideologia profunda em
relação à conquistas e vitórias. Todos confirmaram presença no lançamento a
fim de dar apoio ao escritor em desabrocho.
No dia seguinte, em minha caminhada matinal e diária rumo a lugar algum,
estava numa avenida pouco movimentada quando vi um cão em correria
desesperada em busca do pneu de um carro. Por dez, vinte, cinquenta metros, o
animal latia e corria, latia e corria. Quando via que não era páreo para a
tecnologia, parava e ficava olhando sua presa escapar horizonte a
dentro. Latia mais alguns minutos e depois voltava para seu ponto
inicial, onde esperava que outro carro aparecesse. Em aparecendo e em
passando por ele, começava novamente sua correria e suas latidas.
Fiquei observando aquilo e brincando com alguma idéias em minha cabeça.
Talvez estivesse querendo entender o sentimento de divertimento do animal.
Mas não consegui. Porém, parabenizei-o pelo instinto de persistência, mesmo
que não o levasse a lugar algum, ao que parecia.
Foi quando outro carro apareceu e o cão reiniciou sua guerrinha particular e eu já
retomava minha caminhada para o "não sei onde" que notei algo diferente
naquela pasmice. O carro estacionou após dez metros do lugar de onde estava o
cão. Parei novamente e vislumbrei o quadro. O animal parecia derreter de
tanta decepção. Sua bocarra permaneceu aberta no meio latido a meio gesto,
bem diante do pneu parado ali, à sua frente, imóvel, inerte, presa fácil,
prêmio dado e não conseguido, vitória ganha e não conquistada. Deitou-se no
meio da avenida e pôs a cabeça no meio das patas, olhando fixamente para o
pneu, sem entender exatamente o que poderia fazer com ele. Em seu vazio
interior, não viu outro carro e morreu esmagado.
Alguma coisa naquilo tudo trouxe a mim a lembrança dos Noéis Rosa, dos
Cazuzas, dos Rembrants, dos Vinícius, dos grandes mestres das diversas artes
que compõem a alma humana. Dos que lutam por ideais e sonhos sem se
prepararem para a conquista, se algum dia chegarem a conquistar. Usam o tempo
na busca desenfreada a um ponto qualquer no futuro e se esquecem de
estruturar a alma para quando lá chegarem, se destruindo no instante quase
exato de abrirem a porta de acesso à realidade pela qual tanto lutaram.
Deixam marcas e exemplos, deixam direção para os que os seguem, deixam
caminhos feitos em trilhas de perseverança. Mas somem enquanto corpos,
desaparecem enquanto presença e se transformam apenas em moldura para suas
obras, esquecidos em meio à tentativa de uns e outros de não esquecê-los
jamais.
Dias depois de receber o convite de lançamento do livro do meu amigo, recebi
a notícia de sua morte por coma alcoólica. O homem sempre se prepara bastante
para lutar por seus sonhos, mas não descobriu uma maneira eficaz de mantê-los
reais.
Mande sua contribuição!
agiraldo@uol.com.br
agiraldo@yahoo.com
Voltar à Página Principal Voltar à Página de Crônicas