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- Canalha.
Saiu assim, sem força, sem xingamento. Era apenas uma constatação.
- Canalha? Mas como canalha? - eu perguntei. Ela, porém, já esgotara toda a
conversa. A nossa velha discussão: ela queria um filho e eu a mandei à merda.
Um filho? E quem é que queria filho? Mas eu sabia o que ela estava tentando
fazer: queria me prender, me enredar. Nossa relação já não ia tão bem naquela
época, talvez por isso ela começasse a achar que precisava de outro tipo de
âncora. Eu já não me importava muito em chegar às três ou quatro da madrugada, vindo
da boêmia.
Às vezes chegava já dia claro. E nunca admiti bronca não! Ela estava pensando o
quê? Eu sou mais eu e não admito mulher me dizendo o que fazer. Sangue latino,
italiano, sabe como é? Não como o dela que é frio, bisneta de alemães que é. Já
tinha sido muito bom o nosso relacionamento, mas agora só havia encheção de
saco. O negócio do filho ficou rondando como uma sombra escura e as relações
eram sem nenhuma sensualidade e eu já nem estava mais aí com aquele corpo frio,
mecânico, sem vontade, submisso. Eu tinha a Tininha no bordel, sempre disposta,
sempre alegre. Pode até ser mentira o comportamento da Tininha, mas é mentira
bem-vinda, que faz bem para o ego da gente.
Juro que não gosto de bater em mulher, mas aquela bofetada, dada com a mão toda
aberta, foi uma das coisas mais plenas que já experimentei na vida. Já tinha
dado umas pequenas bofetadas na Mariona, lá no bordel, mas lá não tinha graça.
Quando Valquíria me disse que estava grávida de quatro meses aquilo veio de
dentro. Veio com toda a raiva por ela não ter feito o que eu tinha mandado.
Então era assim? Queria me prender, me enredar, acabar com a minha liberdade,
não era? Quem é que mandava na porra da casa, afinal?
Ela fora para o quarto e ficara lá, sentada na beira da cama, choramingando.
- Você vai abortar! - disse-lhe com crueldade.
- Não - respondeu-me calmamente. - Não vou não.
Tomei a decisão que precisava tomar. Não iria ficar discutindo bobagem com ela:
- Pegue suas coisas e suma daqui! - eu disse , superior.
Ela me olhara de um modo que não era nem raiva nem indignação. Olhara-me apenas
como se constatasse que tinha razão no que pensava de mim. Em todo caso, ela
levantou-se e começou a juntar suas coisas. Lembro-me que a deixei em paz,
surpreso com a pronta aceitação da situação por parte dela.
- Tem algum dinheiro para mim? - perguntou ao sair.
Dei-lhe cinqüenta reais, satisfeito por ela ter aceito tudo sem nenhum
espalhafato.
Lembrei-me de tudo isso porque estou agora aqui, na maternidade. Não, não pense
que estou arrependido de merda nenhuma, não! Filho? Ainda sinto um calafrio
percorrer a minha espinha, só em pensar na perda de liberdade. É apenas
curiosidade.
- Por que aqui, senhor - disse a enfermeira quando ele deu o nome de Valquíria.
- Mas só pode olhar de fora e não pode falar com ela.
***
Ela estava radiante e ele procurou um lugar onde ela não o visse pelo vidro da
enfermaria. As enfermeiras começaram a trazer as crianças para a amamentação
e....
Ele ficou petrificado.
"O que é isso? O que significa isso? ...a criança é escurinha! ... o filho
dela é negro!!!"
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